My Shangri-la beneath the summer moon
I will return again
Sure as the dust that floats high in June
When moving through Kashmir
Continuo às voltas com o que li. Não posso deixar de partilhar alguns excertos e talvez o faça assim aos pouquinhos como a saborear algo que não queremos que acabe.
Ainda sobre o desenho de Dürer:
"(...) Um esqueleto, minha querida, é a figuração mais ridícula da morte, foi talvez por isso que o pus aqui dentro . Para tratar a morte por tu, um esqueleto é tão engraçado. Mete medo às crianças. Tão cómico naquela geringonça articulada da ossaria. Mete medo ao infantilismo de nós naquela engenharia de mecano, a morte está antes ou para lá disso tudo (...). Olho-o (...) para aprender a desautorizar a morte, a gente valoriza-a tanto. Mas a importância dela está antes do esqueleto (...) está na vida (...) onde a vida é ainda visível (...). O macabro no seu ridículo é a negação da morte. (...) Nós pensamos que a vida acaba na morte, não é verdade, Mónica, acaba sempre mais cedo.(...)
Do desenho, o que mais me impressiona é talvez o chocalho do cavalo (...). O chocalho tem o badalo parado, está ali para aviso, mas ninguém o ouve."
"Em Nome da Terra", Vergílio Ferreira - pág. 222 e 223, cap. XX - 9ª ed, Bertrand.

"_Jura-me que nunca hás-de envelhecer - disse-te.
_Juro.
_E que nunca hás-de morrer.
_Sim.
_E que a beleza estará sempre contigo. E a glória. E a paz.
_Juro
Então baixei-me ao rio e trouxe água nas mãos em concha. E derramei-ta na cabeça imensamente. E disse, e disse
_Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição."
Pensar a plenitude e a degradação do corpo, perceber o abismo entre este e a consciência, analisar sentimentos e laços familiares, reflectir sobre o divino e o comum, interpretar e transpor a morte. São diversas as dimensões do ser humano que Vergílio Ferreira explora ao escrever "Em Nome da Terra".
Quando João, personagem principal e narrador, a morar num lar de idosos, escolhe a sua memória por companhia dos longos dias, idealiza uma carta à sua mulher entretanto falecida e nela faz fluir a sua vida.
Na memória que preserva ( e constrói também ) de Mónica, projecta ideais, referências, vivências, objectos e pessoas que fizeram parte da sua relação e tudo isto dá o mote para a reflexão sobre a natureza humana em geral. João revela-nos também a sua própria degradação física, a importância do seu corpo na interpretação do real e do imaginado.
Profundo e sem eufemismos, este livro aborda o concreto e o filosófico sem que nenhuma destas naturezas se anule, desgaste ou canse porque são imensos e belos os recursos literários de Vergílio Ferreira.
Sobre o livro "Em Nome da Terra" de Vergílio Ferreira - 9ª edição, Bertrand.

Do arquivo fotográfico da Biblioteca de Arte - Fundação Calouste Gulbenkian.
Não me perguntem pelos caminhos que se tomam na "world wide web", é que mesmo perdidos podemos encontrar assuntos interessantes. Quando no FLICKR THE COMMONS investigava Portugal sabia que me poderia cansar na caminhada. Mas eis a surpresa: depois de tantas fotografias de património material encontro Lucie de Souza-Cardoso com a sua longevidade ( 1890 - 1987 ) e sentei-me na beira do caminho. Quis saber se o apelido era o do nosso pintor Amadeo de Souza-Cardoso e mais uma vez a rede me devolveu a confirmação. Amadeo casou com uma jovem francesa de nome Lucie Meynardi Picetto em 1914.
Esta fotografia ( com data provável entre 1914 e 1918 ) apanhou-me pela beleza da jovem mulher, pela atitude perante a câmara, ainda mais num tempo em que as poses eram rígidas, mas sobretudo pela intimidade que flui dela até nós.
Entregue, descontraída, sensual. Será ela a dona do momento ou vítima inconsciente do artista atrás do aparelho fotográfico?

Para lá da porta deste moinho encontrei uma entrevista com Aki Kaurismäki, um realizador descrente no cinema contemporâneo e que assume que "Le Havre" é o primeiro filme de sua autoria que não detesta.
Revela-se um sentimental e é o seu trabalho que lhe dá razão, mais do que o seu aspecto "cool" e desprendido.
Faz humor dos seus excessos alcoólicos e dos políticos, explica a alta taxa de suicídio finlandês e tem pouca esperança no futuro da Humanidade ( a não ser que se elimine aquele 1% da população mundial responsável pela miséria humana, o 1% mais rico que a seu ver subjuga o valor humano e faz jogo de marionetas com os políticos ). Brinda às coisas boas da vida: "bebida, cogumelos, morte, a sua esposa, o Amor".
Para alguém que parece ser miserabilista, o fruto do seu trabalho exibe ternura, romantismo e optimismo: "é simples, diz ele, quando toda a esperança se vai não há razão para se ser pessimista".

Feliz coincidência esta de saber o final do livro de Dulce Maria Cardoso em festejos de Abril. Na voz de Rui, um adolescente de quinze anos, a literatura de ficção portuguesa ganha pontos num aspecto que eu entendo ser legítimo a toda a ficção mas mais descurado por cá: o de prencher lacunas da nossa história recente, o de assimilar e tratar os episódios que nos construíram socialmente, o de poder ser um documento do dia-a-dia das pessoas, o de poder ser no futuro um objecto de estudo sobre o nosso modo de entender o que nos vai acontecendo.
( Onde eu já vou... volto ao livro ).
O repatriamento dos cidadãos portugueses então a viver nas colónias como uma das consequências imediatas da revolução na metrópole, o impacto que as suas vidas dele absorveram e a revelação dum Portugal desorganizado e imaturo evidenciado também pela sua chegada são os fios condutores do enredo. Não se tomam partidos nem se exorcizam demónios nesta escrita que admirei. O que li mostrou-me vários lados dum facto do nosso passado recente em que o dia-a-dia da família protagonista é o veículo para essas informações, umas bem explícitas, despudoradas e sem rodeios como o pode ser o olhar e entendimento dum adolescente e outras que a autora entrega ao nosso discernimento.
Questões sociais, culturais e geracionais são escalpelizadas com mestria mas também com a vivência do repatriamento pela autora, uma mais-valia pelos detalhes reveladores que não vêm nos livros de história.
Não há pontos de exclamação nem pontos de interrogação, reticências ou ponto-e-vírgulas. E nunca lhes senti a falta ( como em Saramago, Valter Hugo Mãe ou Gonçalo M. Tavares ). Sonho, ilusão, medo, culpa, desilusão, raiva, incompreensão, alegria e esperança sucedem-se sem que a pontuação nos tolha o entendimento.
"O Retorno" de Dulce Maria Cardoso, editado pela Tinta-da-China em Outubro de 2011 é também um retorno à certeza de que temos escritores excepcionais. Não hesito ao recomendar a sua leitura.
Não, não me escapou. Não o homenageei com imagens ou texto próprio na data oficial ( 23 de Abril ) mas não me sinto culpada. É que neste meu cantinho todos os dias são dias do livro!
Estou a ler "O Retorno" de Dulce Maria Cardoso, numa recente estreia da edição de bolso da Tinta-da-China, muito cuidada e muito apetecível.
Sinto que será difícil deparar-me com a desilusão a ver pelo que já saboreei mas vou aguardar pelo final para tecer um veredicto. Um texto nascerá para esse propósito.
Para já, o que me leva a escrever este aperitivo foram umas linhas que li ontem, que me fizeram sorrir e o porquê está ao alcance dos que me leram ultimamente:
"(...) De vez em quando as cartas traziam retratos, bebés vestidos com lã grossa, sentados numa mesa redonda coberta por uma toalha de croché, noivos surpreendidos pelo flash ao lado da mesma mesa e na mesa a mesma toalha, raparigas na comunhão solene com o terço e o catecismo em poses de santas, a mesma mesa e a mesma toalha, não havia outra mesa nem outra toalha na metrópole.(...)"
Sinto-me a esborcelar um mundo de sensibilidades artísticas.
O que é que dizia o outro sobre a vaidade?
Dicionário crastejo:
Esborcelar (ou esbrocelar ) - esboicelar, esboucelar, esbotenar.
. De como este vídeo já cá ...
. Kashmir
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