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Caim

por Torradaemeiadeleite, em 28.12.12
"Cain and Abel" - Pintura de Keith Vaughan, 1946.


De entre muitos gostos que um bom livro me pode oferecer está também o de me revelar novas maneiras de contar um conto. Às vezes, o tema é recorrente mas a "mecânica" da narração, as imagens que o contador cria e a roupagem que os personagens "vestem" dão-lhe uma reveladora perspectiva, soa a novidade e pode desconcertar-me. "Caim" de José Saramago cumpre plenamente esse requisito.

Talvez por ter partido para a sua leitura sem certezas ou pré-formatações, antes com permeável e receptiva neutralidade, o prazer tenha sido mais efectivo. E sobretudo não esquecendo que é de um romance que se trata. Não é um estudo científico, nem uma biografia ou ainda um ensaio.

Também por isto não faz sentido para mim a polémica que rodeou o livro quando foi publicado. Mas se para alguma coisa serviu esse burburinho foi para que não passasse despercebido, o que então é justo,  pois o modo como a história é contada, o tema escolhido e o autor não mereciam ser votados à indiferença. 

Dar destaque a um episódio bíblico, a morte de Abel pelas mãos de seu irmão Caim e habilmente explorar as suas lacunas interpretativas, servindo amplamente o propósito de discutir com Deus, é um tema deveras interessante, mais ainda quando se propõe revelar um Deus com falhas e com defeitos humanos. Numa entrevista de 2009, José Saramago explica melhor: mais do que questionar Deus, em "Caim" questiona-se a Humanidade que criou Deus. É tanto o que esta frase encerra que dá material para muitos textos à roda desta obra, mas agora prefiro voltar ao modus operandi que admirei.

Para além da escolha daquele acontecimento, explorado a vários níveis, o contador desta história leva Caim a viajar no tempo ( sempre dentro dos limites temporais do Velho Testamento ) conferindo-lhe a natureza de testemunha de muitos outros acontecimentos e munindo-se o autor de mais possibilidades argumentativas e oportunidades para "comprovar uma vez mais que o senhor não é pessoa em quem se possa confiar".

Ao me ser proposto ler literalmente as palavras bíblicas, como se fez durante tantos séculos, sem recurso a um explicador dessas metáforas milenares, reconheço as incongruências do discurso bíblico e a multiplicidade de interpretações a que podem obedecer. A narração adquire logo credibilidade, cria-se o benefício da dúvida e isso é mais de meio caminho andado para o sucesso da narrativa. Mas não esqueçamos que a mesma leitura "à letra" esteve na génese de tanto temor a maldições, castigos e iras divinas que tolheram o pensamento e acções de tantos crentes ao longo de séculos, não se trata portanto dum faz-de-conta inocente ou arbitrário. Penso mesmo que esta obra é uma homenagem à liberdade de pensamento e reforça a importância da dúvida racional na nossa caminhada humana.

Não  me demorarei muito com a habilidade estilística para criar no leitor empatia pelo protagonista e fazer deste a voz da sua indignação, mas é forçoso que refira que a ironia, o humor e o desplante são grandes armas num tête-à-tête com Deus.

Quando se consegue que o leitor com pouca condescendência para com um assassino acabe a compreender as razões deste e a sentir que poderia ser ele, nas mesmas circunstâncias e tempo, a estar no lugar do protagonista então o artista é um bom artista e a história está muito bem contada.

 

 

 

O livro de que escrevo:  "Caim", José Saramago - edit Caminho, 10ª ed. (1ª ed. 2009)

 

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2 comentários

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De F. a 10.01.2013 às 10:20

De como criar e recriar , com crueza e ironia, estórias " do Velho Testamento questionando e descontruindo episódios de verdade bíblica.
Gostei muito da leitura que a Torrada fez de Caim, limpa de qualquer anátema de blasfémia que muito lhe atribuem e isenta de qualquer desassossego religioso que outros experimentam. "Caim" também é isso para mim, um belo exercício de escrita criativa, onde respira o genial e irreverente escritor de ficção e que, não sendo a meu ver, o esplendor de Saramago, se lê de uma penada. Já leu o "Memorial do Convento" ou "O Ano da Morte de Ricardo Reis"?

Beijinhos
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De Torradaemeiadeleite a 11.01.2013 às 14:36

Obrigada, F.
Sim, concordo,  não é o esplendor de Saramago. Li "O Ano da Morte de Ricardo Reis" e esse sim foi marcante, é obra! É um sério candidato àquele posto. Mas digo apenas candidato porque não li ainda o "Memorial do Convento" ou o "Levantado do Chão", para estabelecer mais comparações, enfim entre tantos títulos deste autor genial. O que já conheço só me fez querer ler mais e mais Saramago.

Beijinhos.

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