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Revisitar o Entroido

por Torradaemeiadeleite, em 24.02.14

( Fui ao sótão buscar um texto que escrevi e publiquei no blogue há um ano a propósito do Carnaval de outros tempos. Sacudi-lhe o pó, distribuí alguns pormenores na roupagem e reedito-o com o mesmo pretexto, celebrar e recordar. )

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Entram os farrangalheiros com cara rendada e andrajos às cores, uma ponta arriba e outra abaixo. As vozes alteradas adensam o mistério. Os tchistes cabeludos soltam as gargalhadas, mais os saiotes garridos que sacodem o ar pesado do fumo do lar, as momices com pernas e braços a gingar ou então não, se o actor faz de velho que manda paulada em tudo que mexe porque lhe aborrece tanta genica dos outros.

Ai que fronças esta da panoleta às flores, voz fininha de cana rachada, cinta redonda de pipa pesada. Ai não é esta, é este -  deix'ás moças ca lebas uã arrotchada! Chora o enjeitado, leva o mandil à cara p'ra secar as lágrimas ruidosas de tanto responso aturar, e desabafa com mui dramática pena, que ninguém o quer, que tem corpo airoso mas pernas de garabato, escatchadas e tortas de tantos anos bailhar.

Batem com os socos no sobrado, acertam sentidas galhetas uns nos outros e encenam desfile de namorados que vão à Vila casar. As perutchas de papel a abanar no cocuruto  vão também sem parar e seguem o ritmo dos saltos, aprimorando o  fato já de si galhofeiro, um prolífico atentado à elegância e ao bem trajar.

Saem p'ró caminho, lá vão aos tropeções. São velhinhos arrebitados que ainda roubam moças p'ra dançar, vão pelo braço a morrer de riso, melhor fora se para longe da vista dos pais.

Chegam outros a desfilar as caretas de cavalo, de bicho medonho ou de diabo com dentes arreganhados, não são só os dentes, é o demo também no corpo ou corpo de demónio à solta, à procura da beleza fresca para tentar e condenar. 

As varas e cajatas, os chocalhos e as campainhas anunciam de longe tão grotesca chegada. Vem a canalha à roda tentando  desapossá-los de tudo o que têm, destituí-los do medo, do poder e das proibições. Desassossegados, urrai agora vós da desfeita que vos fazemos, ide corridos, ide perseguidos batendo os calcanhares no farto e disforme rabo, ao menos uma vez provai vós o amargo gosto da humilhação. Libertador.

Nas eiras, nas casas e pelos caminhos a cirandar noite adentro sem parar, correm aos lugares de fora para que ninguém fique privado do folguedo. Quatro dias com sete bailharicos p'ra cumprir, o tocador à mercê da mocidade que roda e roda, esbanja energia e bebe do vinho. Nos campos não andam eles assim, não, que é preciso picá-los co'aguilhada para pôr o trabalho em dia.

Dias fartos de borga, de carnes e de pão, aguardados com ansiedade e celebrados com fantasia. Quem dera não acabassem nunca. Dias que não emprestam qualquer outro cuidado para além deste de celebrar o corpo vivo.

Saíram de vez os farrangalheiros da cara rendada. Levaram os andrajos, as perutchas e o mandil. Levaram as provocações e a vontade de virar o mundo ao contrário. Deixaram a noite. Deixaram a mudez.

Tivessem, ao menos, levado a morte e o medo com eles.

 

 

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2 comentários

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De F. a 13.02.2013 às 10:49

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<br class="incorrect" name="incorrect" <a="">Bailhei , sim, bailhei muito neste entroido tão fielmente pintado pela Torrada que até me arrastou para terreiros que já só existem na memória de tempos passados. <br /> Obrigada e grande abraço.<br /> <br /> F.
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De Torradaemeiadeleite a 13.02.2013 às 21:07

Olá, F.
É pena que os terreiros de outrora não tenham continuado até agora repletos de bulício.
Num hai  gentinha
. Vamos sendo uma espécie em vias de extinção, isso é que dói.

Beijinhos repenicados.

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