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Tanto para partilhar quando o tempo é um bem de luxo

por Torradaemeiadeleite, em 12.03.13

 

Lev Tolstoi poe Ilya Repin.
Lev Tolstoi - pintura de Ilya Repin.
 

Não consigo ler vários livros em simultâneo e frequentemente abrando a escrita quando estou a ler. Na verdade, poderia tratar-se de um defeito se medíssemos a qualidade da leitura em número de livros lidos e o gosto pela escrita em quantidade de palavras dadas à luz. Não sigo essa linha de pensamento e por isso não acrescento esta ao  rol das minhas imperfeições. E quando li "Anna Karénina" não pôde ser de outra forma que não esta em que os sentidos e a atenção escolhem ser escravos  das pessoas, dos espaços e do tempo "tolstoinianos".

Esta forma de escravidão deixou-me marcas. Não matam mas moem.

Não foi sem intenção que atrás escrevi "pessoas" em vez de personagens: saltam do livro, elas estão vivas. Têm expressões faciais, falam com o olhar e com as mãos, têm ritmo cardíaco, o peito tem movimentos respiratórios, têm defeitos e qualidades, têm tiques, têm trejeitos no andar, no beber e no mastigar, pensam com a razão e com o coração, relembram o passado e imaginam o seu futuro, movem-se por entre os móveis e atrapalham-se nos bancos de carruagens e caleches, a pele e os cabelos vivem, as roupas deslizam, roçam, prendem, sujam-se, molham-se, apertam, têm botões e fitas, flores e rendas, pó e remendos.

Como consegue o autor não ser enfadonho com tantos detalhes, ou sequer quebrar o ritmo da narrativa? São descrições pormenorizadas mas não são supérfluas, pelo contrário, são reveladoras e por isso também vemos tão claramente as pessoas à nossa frente ou ao nosso lado, pressentimo-las atrás de nós. Revelam o carácter de cada um, a ambiguidade das emoções, a ironia da vida e a familiaridade da morte. Revelam as cores, os sons e as texturas, a atmosfera e os figurantes que influenciam o curso dos pensamentos que os protagonistas confessam ao leitor.

Apesar da época distante em que vivem, as pessoas que nos são apresentadas são intemporais nas suas ambições e frustrações, liberdades e limitações, sonhos e culpas. Reconhecemos as eternas dicotomias: indivíduo/ sociedade, homem/ mulher,  bem/ mal, humano/ divino, racional/ irracional. Não obtemos respostas concretas, não se dá razão plena a este ou àquele mas apresentam-se hipóteses para dúvidas que sempre nos inquietam seja qual for a era que pinta a nossa vida.

E o tempo de Tolstoi? É o posfácio de Nabokov que mo revela: "(...) Tolstoi é o único escritor que conheço cuja observação mantém o mesmo ritmo que a dos inúmeros leitores. (...) A sua prosa acompanha as nossas pulsações e as suas personagens parecem mover-se ao mesmo ritmo das pessoas que passam à nossa janela enquanto nos sentamos a ler um livro seu." Distingue depois este tempo do tempo de Proust e do de Joyce: "(...) é o tempo em Proust ou o tempo em Joyce e não o tempo médio comum, um tempo padrão que Tolstoi de alguma forma consegue implementar."

Os espaços são igualmente impressionantes. Sim, esses palcos que nos acolhem para que façamos parte duma refeição numa casa de camponês ou num luxuoso restaurante moscovita, entremos num salão de baile, num casamento, nos desloquemos entre as divisões dum lar, caminhemos num bosque de bétulas, façamos uma caçada nos pântanos, descansemos numa isbá, sintamos o bulício duma estação de comboios, para que notemos o suor dos mujiques quando ceifam com gadanha, os pingos de chuva no rosto quando a bátega nos apanha, respiremos o ar frio da neve ou assistamos à emoção das corridas de cavalos. Os palcos das ideologias, dos vícios, do ritual de chá russo com o zumbir do samovar, das veleidades dos jovens militares, da hipocrisia social, dos impasses políticos, da Europa que se venera, das amas e preceptores, criados de quarto e dos feitores, do campo explorado e da cidade ociosa; são imensos os cenários em que nos imiscuímos e que contribuem para a tal proximidade com os personagens.

Além de tudo isto, vagos exemplos, apercebemo-nos da evolução das personagens, das suas modulações ao longo do tempo: alteram as suas convicções ou aprofundam-nas ainda mais, amadurecem ou definham-se, ganham corpo ou perdem qualidades, lutam ou desistem, reflectem ou  seguem um impulso - que humanas são.

Não há dúvida que esta obra é um ícone do realismo literário. Para mim era uma necessidade premente conhecê-la de perto.

Não é uma história de adultério com final infeliz. A história de Anna e Vronski, paralela à de Lévin e Kiti e de Oblonski e Dolli, é o modo engendrado pelo autor para questionar a natureza moral do Homem, abalar as certezas que pensamos deter e procurar o sentido existencial (também evidente na busca interior de Lévin pelas respostas às perguntas "Quem sou?", "O que faço aqui?").

Não resisto a transcrever Milan Kundera que faz uma explanação mais vasta, muito iluminadora, sobre a sabedoria que, a seu ver, o romance como género literário veicula e usa como um dos exemplos "Anna Karénina" de Tolstoi. Guardarei para outro texto a maior parte mas deixo já aqui estas palavras: "(...) Mas é precisamente ao perder a certeza da verdade e o consentimento unânime dos outros que o homem se torna indivíduo. O romance, é o paraíso imaginário dos indivíduos. É o território onde ninguém é possuidor da verdade, nem Anna nem Karénine, mas onde todos têm o direito de serem compreendidos, tanto Anna como Karénine."

E com esta me vou dum texto impróprio para o consumo instantâneo que estes tempos nos impõem.

 

 

Nota: a minha Karénina é da editora Relógio d'Água ( colecção Clássicos ), edição de Dez. de 2006. Tradução do russo de António Pescada.

 

 

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4 comentários

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De Patrícia E a 17.03.2013 às 20:57

Olá

Isso é que é leitura a sério, não brincamos LoL

beijos
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De Torradaemeiadeleite a 20.03.2013 às 13:57

Leitura escalpelizada, olaré!
Bjs.
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De F. a 21.03.2013 às 09:28

Há muito que li Anne Karénine e ao longo do tempo reli-a várias vezes. Voltei  agora,  animada e guiada pela   poderosa  análise da Torrada. Valeu a pena! Obrigada!
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De Torradaemeiadeleite a 23.03.2013 às 21:17

Assim até fico vaidosa, é bom saber que a minha apreciação motivou nova leitura da obra.
Eu que lhe agradeço, F.

Beijinhos.

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