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Este ou aquele?

por Torradaemeiadeleite, em 22.05.13

Nos primórdios da minha peregrinação como leitora, quando não ia em demanda de algo pré-definido, a capa era o primeiro factor de atracção na hora de escolher o livro.  Contudo, reconhecia-lhe a mera qualidade de isco porque logo passava ao título, o elemento mais decisivo. Achava eu que o título seria a mini-amostra do que estava no interior e dele aventurava-me a aferir o género e até o enredo principal quando era mais composto. Se continuasse em dúvida, atentava no nome do autor que carregava então o ónus de desempatar a mente baralhada. De nomes nada sabia, acreditava sim que as palavras e os nomes encerravam a verdade, o que estava à vista era o que era, sem jogos ou subterfúgios. Na minha crença, um bom escritor tinha por força que ter um nome bem soante e inteligente. Deveria  parecer importante se a sua reputação também o fosse, às vezes seria familiar, ah parece que já ouvi falar deste, tinha sido pronunciado ou escrito algures e isso garantia que era mesmo bom.  Nomes estrangeiros ou com pronúncia estrangeira  ganhavam pontos logo à partida e nem me vou demorar aqui porque ainda hoje não tenho argumentos que validem esta arcaica preferência, resolvida entretanto ao longo da caminhada. As afinidades ainda não estavam estabelecidas mas também não procurava iluminar um pouquinho as salas escuras da minha ignorância perguntando a alguém mais experiente nas leituras o que achava deste ou daquele autor. Longínquas  eram ainda as terras "googlianas".

Raras vezes o desempate precisou de prolongamento mas este vinha nas badanas ou na contracapa . O único factor que não entrava nas apreciações era o volume do livro. Muitas ou poucas páginas não tinham significado particular para mim.

A esta distância, condescendo. Passo a mão pela minha cabecinha de antanho e sorrio, "trenga, isso passa". E aqui apercebo-me da minha arrogância. O que é que legitima este ar de superioridade?

Posso munir-me de revistas literárias e recensões críticas tantas vezes injustas e outras tantas pessoais, politizadas ou belicosas, posso estar atenta ao que se diz na televisão e na rádio, frequentar feiras ou festivais literários, aceitar sugestões dos amigos, posso agora "googlar" e navegar mas, na verdade, é impossível que algo ou alguém esteja a par de todos os talentos e de todas as obras meritórias que andam por cá longe de holofotes e pareceres públicos. E ainda bem. Seria castrador limitarmo-nos ao que se conhece.

Portanto, ponho-me num contexto onde não tenho acesso a outra informação que não a que eu própria posso sentir e intuir, não há livreiro informado nem acesso à net, não vim com a amiga sabichona e não procuro nada em concreto, escolherei livros e autores de que nunca ouvi falar, aqueles sobre os quais nunca e nada se escreveu, os que não foram traduzidos, estreias literárias que passaram invisíveis, os géneros que ainda não conheço, enfim, eis-me num confronto acanhado de  escalas, a da minha pequenez com a da infinitude da arte escrita. E pergunto-me: como escolho? Até agora já concluí que no momento de comprar não é o título que revela a qualidade do que vai escrito nas folhas, que o nome do escritor não tem que ter luzes e foguetes e que o que vem na contracapa e nas badanas só me serve se se tratar da breve biografia do autor ou excertos do livro que tenho na mão. Qualquer outra informação pode ser ornamental, é relativa e pode manipular-nos. Parecem conclusões tontinhas mas só o são porque reconheço a longa peregrinação que me falta ainda cumprir.

Como escolho, então? No primeiro coup d'oeil pelo título e pela informação útil que possam generosamente ter escrito na capa mas, logo em seguida e sobretudo, pela leitura de alguns parágrafos ou versos em folhas sorteadas. É a bagagem que entretanto vou acumulando como leitora de textos e da vida que me dá armas para escolher com mais critério e reduzir um pouquinho a percentagem de falhanços.

Se a bagagem é importante nisto de escolher livros é-o para podermos reconhecer uma escrita promissora para os gostos de cada um em dado momento,  que parece ir de encontro às nossas peculiaridades como leitores. E isto não se pode saber antes de ler, muito e errar, muito mais, porque é nestes erros que cabe também a surpresa, a curiosidade, o virar caminho, a experimentação, a remissão, a paciência, a procura e o encontro.

A esta distância, passo de novo a mão pela minha cabecinha de antanho e sorrio, "não deixes nunca de errar, trenguinha, é tão chato termos tantas certezas".

 

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4 comentários

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De F. a 24.05.2013 às 10:31

Não me revejo no modo de escolher  livros, mas delicio-me com o texto. Divino!

Beijinho grande.

 
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De Torradaemeiadeleite a 26.05.2013 às 10:17

Obrigada, F.
É verdade, há muitos modos de escolher e aqui reportei-me à estratégia a que eu recorreria num cenário hipotético.
É um tema fértil e gosto de conhecer as abordagens dos outros leitores.
Beijinhos.
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De F. a 31.05.2013 às 09:05

Torrada, queridíssima,

Quer ver que achou que eu poderia ter pensado que "Este ou aquele?" era mais do que um belo (pre)texto para prosar a respeito? Não me perdi em considerações, vontade não me faltou, que quem é criativa na hora de escrever é a menina Torrada, não eu.
Mas olhe que o "cenário" não é assim tão "hipotético", como diz. Como qualquer amante de livros e leituras, frequentadora assídua de livrarias e alfarrabistas, mergulho em badanas, capas e contracapas, folheio livros à procura do parágrafo mágico, mas na decisão final entra quase sempre o conhecimento do autor ou o conselho , directo ou indirecto, de amigo ou crítica que considero competentes na matéria. Acerto sempre? Ni hablar!... mas"é tão chato termos certezas"!
Na próxima não vou directa à conclusão...

Beijinho,

F.

PS: Os "negritos " que eventualmente possam aparecer no texto, são aspas. O meu computador, vá lá saber-se porquê, é o responsável.
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De F. a 31.05.2013 às 09:38

Rectificando: afinal a máquina transforma o itálico  em negrito, por isso é que passei a usar só "aspas". A idade prega cada partida à memória e à concentração!...

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