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São como asas

por Torradaemeiadeleite, em 28.09.13

 

Fotografia de Georges Dussaud.

 

Serra do Barroso em 1980, por Georges Dussaud. É a legenda que me convence do lugar.

É um quadro lindo e perdi-o, embora nunca tivesse sido meu para perder. A oportunidade de ter um assim é que passou afinal despercebida.

Fui muitas vezes com a capa preta para a escola. Era a chuva, o gelo ou o vento que comandavam a voz da minha mãe, e eu, à minha mãe, não dizia não mais que duas vezes, à terceira rendia-me. Por mim, o guarda-chuva era mais que suficiente e a capa deveria ficar pendurada de vazio, a remoer o desamor para sempre e se para tanto a minha vontade valesse.

Inibia-me os movimentos, pesava-me na cabeça quando estava molhada, pesava-me nos braços quando não estava na cabeça, pesava sempre, sempre pesada. Mas, contudo, era minha e só minha, e que viesse alguém dizer que era dele porque todas se irmanavam. Ainda lá estão as iniciais em linha branca e, se cada uma das letras, por si sós, podiam ser de muitos, assim lado a lado eram mesmo minhas e ninguém mais as poderia ostentar. Não deixa de ser estranho este afecto, polarizado a uma só vez , o vão desprezo com o pérfido ciúme, doente de possessão, sem pingo de razão.

A capa caía sobre a pasta e sobre o saco da merenda, caía sobre tudo o que o pano conseguisse abarcar e revolteava a negrura com ventanias acintosas que ameaçavam levar tudo para outras paragens. Leva-me esta capa! Mas que castigo me deram, não posso esbracejar. Tivesse eu o mando disto tudo e acabava-se logo com o esforço deste caminhar a guerrear.

Vejo-nos como avezinhas de azeviche que ainda não aprenderam a voar - caminhámos os caminhos dos pais, que já eram dos avós e eram caminhos irregulares, manhosos e com cadilhos. Já há atalhos novos, estradas também, só já não há gente para os renomear e gastar.

E mais isto de comer no cabanal por força da chuva ou da neve, que raio, roubar-nos a graça de correr e trambolhar no descampado. Ficar amontoados, sem vontade, a pensar para que nos servia o recreio. Mas agarravam-se as capas e aí ia uma, toma! que esta foi a mil à hora para batalhas de capas pretas, depois todas e mais a castanha, que não deixa de ser de gente. És corvo, sou vento, ela é bruxa, olha que ciranda negra, belo efeito giroscópico este, uma impressionante demonstração de rotação e nós sem nada disso saber ainda. Um agarrou o mais pequeno para cobri-lo de escuridão - cabra cega, cabra cega - roda, roda, até cair de tonto e esperneia, mas não consegue libertar-se. Sempre houve, e sempre haverá, indeléveis cenas de martírio das voltas da canalha. Épa, pára a paixão - é hora de aprender - anda cristo, por agora já te safaste.

As capas quedas e cansadas, esticadas e macambúzias até ser hora de voltar para casa, hei! bamos pá, num espero mais por ti. Ála entom pelo caminho arriba - a guerrear, consumida e embezerrada com a capa, mais uma vez.

 

Ouço a "Dança dos Pássaros" de António Pinho Vargas. Barroso, é o que leio. É que bem podiam ser de Castro estas asas negras que guardam.

 

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