Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Apontamentos duma viagem - O primeiro

por Torradaemeiadeleite, em 28.07.09

 

           Fotografia de Torradaemeiadeleite

 

Charles Aznavour cantava "(...) a corps perdu, j'ai couru/ assoiffé, obstiné/ vers l'horizon, l'illusion, vers l'abstrait/ en sacrifiant, c'est navrant/ je m'en accuse à présent/ mes amis, mes amours, mes emmerdes (...) ".  A viagem nascia para ser diferente de outras. Todas as viagens nascem com essa expectativa. As melodias seguiam-se na pronúncia gutural dos seus poemas e ocupavam o habitáculo para escaparem depois pelas janelas abertas. Este outro francês rugindo sobre rodas não sabe do ar condicionado, leva-nos só em conversa íntima com a estrada para ir aonde nunca tínhamos estado. Um quase maquinismo do tempo.

A paisagem revela-se em película cinematográfica antiga e desfila depois sob o foco dos projectores. O Sol a subir inclemente, as sombras cada vez mais pequenas. Os actores deste filme não ficam na sombra.

Imensidão, a imensidão. Nenhuns olhos poderão abarcar tanta lonjura num passar breve, ainda que rolando, ainda que em várias vidas. A oceânica imensidão transmontana. Entre ondas as Atlântidas perdidas.

Bela, voluptuosa, perfumadamente de Julho, a Terra Fria transmontana é uma mulher de espírito inquebrantável, e é ela quem nos subjuga e deixa indefesos, impreparados para tamanha vontade. Misteriosa. Provoca-me. Levo os cabelos em contradança e os meus ombros beija-os o Sol, com abuso de maneiras que atiro com coreografias na musicalidade e no incentivo dos Beatles "(...) come together, right now, over me (...)". 

Até à primeira paragem a estrada é o argumento principal.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Na centeeira

por Torradaemeiadeleite, em 21.07.09

 

 

              Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Vulto franzino, dobrado sob o Sol da tarde, malha o centeio sem nunca se levantar. Aguardo uns momentos para ver outra posição, quero observar o corpo a refazer-se para nova investida, um braço mais alto ou um descanso merecido . Em vão porém esta espera marginal,  pois aquele ser parece carregar sobre si o peso das malhadas de todos os anos anteriores, da sua vida e das que o precederam e segue dobrado de encontro ao chão.

Esta alma vestida de negro só mexe o braço direito em monótona tarefa, quase sempre à mesma altura e sempre com a mesma força.

Pam, pam, pam, pam... continuo a espreitar o ritmo deste labor que da espiga rouba os grãos e dos meus dias a modernidade emprestada. Penso nesta oportunidade e apodero-me daquele bater contínuo, transformo-o em minha memória e levo-o ao ( no ) peito.

Do banco de pernas para o ar e da vara mais hirta que a sua dona fazem-se os adereços deste cenário contido, onde giestas e ervas altas escondem de quase todos o palco rude desta solidão e deste viver.

Pam, pam, pam, pam... mais centeio se desprende sobre a manta de sacos, a palha vai-se juntando, o Sol continua altivo e os minutos repetem aquele afazer... interminavelmente. 

Seguem-me depois os passos, estes sons secos e torturados, quando me afasto ligeira pelo caminho e sem certeza de os ouvir de novo, repetidos nalguma espiral do tempo ou do espaço.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tea for two

por Torradaemeiadeleite, em 16.07.09

 

 

                                                  Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Amor à primeira vista acontece. Posso relatá-lo na primeira pessoa.

A partir dum momento só, primordial e irrepetível, pode nascer esse sentimento inexplicável, que nos faz suspender tudo à nossa volta e   reagir unicamente àquela presença.

Enredamo-nos neste enlevo, neste prazer que esta companhia nos oferece.

Mas como tudo o que é bom parece vestir-se de efémero, também podemos sofrer a sua perda. E assim me aconteceu também.

Há uns dias porém, sem que nada o anunciasse, reencontrei-o. Inesperado o primeiro encontro, inesperada a partida e de novo inesperado o regresso.

Novo look, sempre atraente.

Inglês, com 30 anos, muito culto e dado às artes, continua  a agitar  as  minhas moléculas.   Sem dúvida, o seu ser enriquece o meu.

Retomei aquela relação, embora  esteja agora mais consciente  das limitações  que encerra. Que poderia eu esperar dum programa de televisão, que a todo o momento pode deixar-me, sem garantias de regresso? Não, não deliro... morro de amores por um programa de TV inglês, que me fala ao ouvido com aquele sotaque inconfundível e me ensina tanto sobre arte e antiguidades! E até revelo  o seu nome: "Antiques Roadshow"!

A BBC deu à luz este filho em 1979 e a sua fórmula já viaja por outros países ( Austrália, Alemanha, Canadá, E.U.A., Noruega e Suécia ). Gerou outros como "Cash in the Attic" e "Bargain Hunt", sempre com antiguidades e leilões como tema mas em registos bem diferentes.

Sem dúvida, Antiques Roadshow tem ingredientes de qualidade. O mais relevante, a meu ver, é este que faz do cidadão comum a estrela do programa. Ele contribui com os seus pertences, muitas vezes esquecidos no sótão ou na garagem, e submete-os ao parecer técnico dos peritos "residentes" do programa. Quantas raridades  e mesmo peças dignas de exposição num museu são assim encontradas, entusiasmando até os peritos que vêem ao vivo e a cores artigos que só conheciam em textos de referência!

Outro ingrediente importante é precisamente o seu leque de experts, especializados nas mais diversas áreas artísticas, que fazem a apreciação, contextualização histórica e ainda a avaliação monetária das peças que vão aparecendo.

A equipa viaja de terra em terra e desafia os habitantes de cada uma a participar com objectos ou colecções pessoais que achem interessantes.

O programa revela-se também um valioso manual de instruções para antiguidades. As conversas em tom informal mas didácticas enriquecem a cultura geral e dão bases para a apreciação da Arte em geral.

Sempre que posso, por volta das 13.00, espreito o BBC Prime e alimento este amor. Rendo-me ao presente e não peço nada ao futuro.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Para o Líbano, à boleia dos U2

por Torradaemeiadeleite, em 14.07.09

 

 

 "Cedars of Lebanon" de Edward Lear ( inglês ), 1862.

 

O tamanho da minha ignorância revela-se nos mais pequenos nadas que aprendo fortuitamente.

Foi preciso conhecer "Cedars of Lebanon" dos U2, para o bichinho dos porquês começar a roer-me. Ainda antes de esmiuçar a letra, o título foi suficientemente atractivo, diferente e inesperado para me levar a uma googlada.

Como podia eu achar-me uma admiradora da Natureza e ter passado tantos anos a ignorar os cedros do Líbano?

Estas árvores milenares, que se desenvolviam no território do Líbano como em mais nenhum lugar, foram desde sempre veneradas, usadas para as mais emblemáticas construções e os mais solenes rituais de vida. Muitos povos antigos exploraram o Mediterrâneo com embarcações feitas com estes cedros, mumificaram os seus mortos com a sua resina ou oraram em templos esculpidos nesta madeira resistente e olorosa.

Os momentos mais marcantes da vida, nos diversos cultos, as peregrinações e as preces mais pungentes tinham como testemunha a árvore ou parte dela.

Este misticismo advém também do seu porte imponente, dos ramos graciosos que parecem sustentar o céu, dos troncos fortes e da sua "eternidade" ( li que na Floresta de Bsharri há duas árvores com 3000 anos, dez com 1000 anos e as mais "comuns" têm já centenas de anos ).

Defendem-se muito bem nos solos secos e por isso persistem em territórios onde mais nenhuma árvore parece ter vontade de viver. Em altitudes que vão dos 1000 aos 2000 metros encontraram há muito tempo o local da sua solenidade. No meio de quase nada, estes gigantes destacam-se ainda mais e dão refúgio e paz a quem passa.

O Líbano, outrora coberto por extensas florestas de cedros, defende agora os poucos sobreviventes a uma exploração intensiva e histórica . A Floresta de Cedros de Deus foi declarada Património Mundial pela Unesco em 1998, juntamente com o Vale do Kadisha.

De palavra em palavra fui até um texto de Alphonse de Lamartine que descreve de modo ímpar o que distingue estas árvores (desempoeirem o francês, que vale a pena!).

Podemos encontrar cedros do líbano um pouco por toda a parte mas acredito agora que admirá-los na sua "casa" seja uma experiência única.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Pronto, assim faço de conta que estive lá... e tão pertinho!!

 

(...)

I know a girl with a hole in her heart

She said infinity is a great place to start

Oh ohoohoh oh oh

 

She said "time is irrelevant, it's not linear"

Then she put her tongue in my hear

Oh ohohoh oh oh

(...)

 

       

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Related Posts with Thumbnails




subscrever feeds




Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Torradas com bolor

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D