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A princesa insensível

por Torradaemeiadeleite, em 27.08.12

La fille du roi encore une fois

Dans son théâtre va s'ennuyer

 

Car l'amuser est impossible

Rien n'interesse la princesse insensible

 

Les plus doués ont tout tenté

Même c'est en vain pour le d'évince

 

Vive le prince irrésistible

Qui interésse la princesse insensible.

 

Pela sensibilidade de Vasco Granja, inesquecíveis o trabalho e o homem, conheci esta pérola da animação que tatuou a minha infância. Revivo-a no Youtube  pela generosidade de quem lá pôs o vídeo e me deu a oportunidade de reviver uma aposta marcante da programação da RTP.

Escolhi o episódio final porque reúne a solução do mistério e as diferentes tentativas de "sensibilizar" a princesa, tarefas que se reproduziam ao longo de breves episódios que seguia no programa do mestre e  dos quais sobressaía distintamente a música do genérico cantada fininha em francês. Como pôde o príncipe jardineiro e o que andava numa mota imaginária terem persistido até  este momento mais do que os outros pretendentes? Como puderam o tamanhinho da princesa e a imensidão do seu trono terem gravado uma imagem tão perene na minha memória?

Só anos mais tarde reparamos no nome dos talentosos da animação. Prazer em conhecê-lo monsieur Ocelot e obrigada.

 

 

 

 



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Onde os lobos uivam, 1911.

por Torradaemeiadeleite, em 23.08.12

 

Exulto sempre que encontro documentação fotográfica ou crónicas mais antigas sobre Castro Laboreiro. Em grande parte das freguesias portuguesas passar por outras décadas é relativamente fácil, mas da minha geografia sentimental pouco se encontra registado. Quando se perfila diante dos meus olhos um intervalo de tempo maior que cem anos, como nestas fotografias, então suspendo-me. Demoro e contemplo, oriento-me com as idades dos meus avós e sei que em 1911 todos estavam ainda por nascer.

O relevo granítico não mente e não mente também a mão humana que pôs o cruzeiro no "eirado" da Vila donde se erguem pontos cardeais para a minha orientação. Não há dúvidas e a fachada grande da "casa dos carabéis" assevera a origem deste teatro rural.

Destes pontos referenciais parto depois para aqueles que não conheço: casas que agora são outras, o pequeno mar de fatos e chapéus para o discurso dum jornalista ( Hermano Neves, asseguram-nos ) - pois bem longe ficaram os tempos em que a multidão se juntava para ouvir discursar o jornalista - as saias compridas, as blusas cingidas e os homens de barbas trazem costumes que não vi e aproveito para inventar a figura dos meus parentes.

Outro momento - com a luz do fim da manhã que se atira e rosna aos guarda-sóis e um lisboeta ( também jornalista, Bruno Buchenbacher ) que conhece Castro pela primeira vez. Desta paragem e de outras escreve com leveza, humor e desprendimento para as folhas da revista Ilustração Portugueza de 31 de Julho de 1911. Pela "obrigação profissional" mais do que por romeira curiosidade, Buchenbacher não esconde a agrura dos caminhos mas celebra a "fabricação" dos chocolates, a beleza das "cachopas" e os "cães formidáveis", os da boca negra, leais e corajosos companheiros de seus donos. Sobe ao castelo e vê aberto "um livro de história". Não se demora muito. Agradece a amabilidade  do professor de instrução primária Mathias Sousa Lobato ( de quem o meu pai conta a boa acção que fez quando iam presos castrejos trabalhadores tidos como desertores na Primeira Guerra ) e segue em caravana de burro, com as trouxas bem apertadas e temendo pela vida, nos trilhos e com as gentes da Peneda.

Das suas mãos nasceram estas fotografias e o texto que adivinho exóticos na Lisboa de 1911, mas são-no ainda mais hoje com o tempo a escrever os continuados epílogos.

 

 

 

 P.S.:  As palavras e as fotos que me inspiraram podem ser consultados no Blogue do Minho ou na Hemeroteca digital.

 

 

 

 

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Are you mine?

por Torradaemeiadeleite, em 21.08.12


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Livros itinerantes III

por Torradaemeiadeleite, em 17.08.12

 

 

 Fotografia do blogue streetbooks.org.


A um nível ainda mais abrangente de universalidade bibliófila encontra-se literalmente a pedalar esta bibliotecária itinerante. Aos sem-abrigo e tantas vezes sem uma identidade "oficial" ( o que dificulta o acesso a uma biblioteca pública ) chega semanalmente a bicicleta com livros de Laura Molton, de Portland no estado de Oregon.

Inicialmente a preocupação maior do projecto era  a não devolução dos livros emprestados. A biblioteca ambulante falharia por delapidação do património? O facto é que, um ano após a estreia ( Verão de 2011 ), a taxa de devolução situa-se nos setenta por cento e o princípio da confiança mútua deu enfim frutos, tantos que a iniciativa já foi galardoada pela National Book Foundation.

Na sua breve vida, esta ciclobiblioteca já juntou histórias peculiares à roda dos livros que empresta sem prazo fixo de entrega, todas elas registadas no blogue, com muitas fotografias  e relatos na primeira pessoa. A bicicleta faz o mesmo roteiro duas vezes por semana com romances, ficção científica, policiais e outros géneros literários, tudo em pequenas doses porque bicicleta e ciclista têm limites físicos.

Sem complicações burocráticas e sem mercantilismo, nesta missão não são só os tostões que contam. Há paixões e iniciativas que crescem quando são repartidas e há pessoas que se agigantam quando dão parte de si.

 

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Dalton Trevisan

por Torradaemeiadeleite, em 15.08.12

 

"(...) Apenas um homem morto e a multidão se espalhou, as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.

Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos, quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.

Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado mais de metade a apagou-se às primeiras gotas da chuva, que voltava a cair."

Termina assim o conto  Uma vela para Dario de Dalton Trevisan, um dos que mais gostei no livro Cemitério de Elefantes, editado no Brasil em 1964. As palavras aliam-se para dar tanto em tão poucas linhas. Em breves parágrafos diversas impressões, tanta informação. A palavra certa no lugar certo, é esta a lição que um contista, um bom contista, ensina. Ao correr das histórias deste livro o humor, o erotismo, a ironia, a indiferença, a raiva  ou o desespero são conseguidos com corte e costura de frases onde não sobrou tecido nem faltou remate.

Não sabia de Dalton Trevisan até ler o seu nome nas notícias sobre o Prémio Camões 2012. Na livraria encontrei o livro por acaso, chamou-me a atenção o prefácio de Fernando Assis Pacheco, li também a contracapa e comprei-o.

Até ao momento só a Relógio d'Água publicou em 1984, com o título de que vos escrevo, o autor curitibano.

Outros contos de que gostei no livro foram O Jantar, O Espião, Cemitério de Elefantes ( que deu o nome ao livro ) e A Casa de Lili. Todos juntos fazem o retrato da sociedade em meio rural e urbano, de pessoas no limiar do sentir, empurradas pelo azar, pela moral ou falta dela, pelo desespero, pelo amor ou falta dele para situações extremas onde são obrigadas a reagir, ou em que não reagem de todo. 

Saberes da escrita que me fazem esperar por outras publicações deste "vampiro de Curitiba", pouco dado aos holofotes e às entrevistas.

 

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Lugares para ler III

por Torradaemeiadeleite, em 14.08.12

 

Biblioteca em jardim de Lisboa - fotografia Estúdio Mário Novais.
 

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A Lady of a Certain Age

por Torradaemeiadeleite, em 12.08.12
Há muito tempo que procurava um vídeo no YouTube que fizesse justiça a esta música dos "The Divine Comedy". Os que encontrava eram versões ao vivo registadas pelo público, sem qualidade de som. 

É uma das minhas preferidas. De 2006. Aqui a roupagem sem violinos:




(...)

You chased the sun around the Cote d'Azur

Until the light of youth became obscured

And left you  on your own and in the shade

An English lady of a certain age

(...)

 

 

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Sobre o Curiosity

por Torradaemeiadeleite, em 08.08.12

 

Imagem googlada.


A N.A.S.A sempre teve talento para baptizar os seus robots espaciais. O Curiosity justifica na sua graça aquilo que nos motiva a atravessar a "última fronteira". Marte e a sua exploração tem sido tema do Torrada desde 2008, quando o então inovador robot Phoenix registou uma imagem de que gostei muito, aquela da "pegada" mecânica.

Já não está em questão a existência de água naquele distante solo, isso foi plenamente confirmado. A investigação vai avançando os seus milhões de dólares ( dois mil e quinhentos milhões na missão do Curiosity ) no sentido da exploração do terreno, na procura de vida microbiana e na esperança final de enviar um humano com espírito de entrega suficiente para passar dez meses em viagem de ida, ficar por lá dois anos e voltar para contar.

O sucesso da viagem, da aterragem no passado dia seis e do estabelecimento das comunicações deste mini-laboratório de novecentos quilos, motivaram os festejos que a foto registou. Mais do que pó vermelho, braços metálicos ou pedras mudas, escolhi desta vez o lado terreno para actualizar os meus textos sobre a exploração celestial. É deste ponto de partida, da curiosidade humana, que se alimenta o trabalho duma equipa vastíssima  que  personifica a vontade intemporal duma espécie para entender o que a rodeia e aí interferir para benefício próprio. Consciente e inconscientemente foi esse processo que nos trouxe aos dias de hoje.

 

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Dèjá vu

por Torradaemeiadeleite, em 04.08.12

Parece que estamos sempre na mesma luta. As décadas vão-se sumindo mas as algemas não.

 

 

 

Fotografia de Eduardo Gageiro.

 

 

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De onde vem a criatividade

por Torradaemeiadeleite, em 02.08.12

 

Falo de novo de Jonah Lehrer. Aqui elogiei o seu primeiro livro "Proust era um neurocientista", o responsável em parte pelo tsunami de leitura que me apanhou em seguida e pela sede de conhecimento literário que experimentei então. Tudo isto continua a ser verdade e nada poderá retirar a este cientista escritor a qualidade desse trabalho. Mas também por causa desse assombro inicial me custa agora digerir a decepção, o popular "não havia necessidade" que se me depara ao saber que Jonah inventou factos no mais recente livro "Imagine - de onde vem a criatividade". Em concreto, atribui a Bob Dylan, um dos seus exemplos no livro, citações inventadas por si, outras do cantor que foram manipuladas e outras ainda descontextualizadas.

Lamento que um autor talentoso e campeão de vendas tenha recorrido a citações falsas e, pior ainda, que tenha continuado a mentir quando confrontado inicialmente com essa dúvida ( agora um facto admitido pelo próprio ). Jonah fazia parte do quadro de jornalistas do "The New Yorker" desde Junho passado, uma honra feita do seu mérito científico e literário, mas demitiu-se na sequência da polémica formalizando um pedido de desculpas público: "the lies are over now. I understand the gravity of my position. I want to apologise to everyone I have let down, especially my editors and readers".

Comenta-se que a pressão e o medo de não estar à altura dos sucessos anteriores levam muitas vezes a decisões imponderadas e artisticamente fatais, ou então é a ambição desmedida a culpada do infortúnio, como um Ícaro que voou alto demais. Penso que o "porquê" não é aqui fulcral e nem se presta à empatia, apenas serve um propósito de análise mais abrangente já que não se trata dum caso isolado na literatura ou em qualquer outra forma artística. Inventar citações, plagiar, dar como suas as experiências vividas por outros ou mesmo imaginá-las e afirmar que são reais, são muitas as medidas do erro no campo da escrita e errar, bem o sabemos, é intrínseco à natureza humana. A forma como o ultrapassamos é que é diversa e desenha também o perfil e a integridade de cada um de nós.

Talvez  Jonah Lehrer ultrapasse esta situação usando até o próprio infortúnio como rampa de lançamento. Poderá retratar-se perante o público leitor com maestria numa obra futura ainda mais procurada porque será real e exemplar.

O tempo dirá se este acontecimento veio para asfixiar ou para dar um novo fôlego à carreira literária de Jonah.

 

Fotografia: googlada.

 

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Linhas cruzadas

por Torradaemeiadeleite, em 01.08.12

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