Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Dolce fare niente

por Torradaemeiadeleite, em 23.03.13

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite, Tourém.
 

Quando um gato preto raiano ilustra este estado de espírito é porque nenhum turista foi suficientemente interessante para o demover da sua letargia. Eu pelo menos não mereci tal esforço.

Percebendo-o, dispus de tempo para preparar a imagem perfeita, mas tudo se alterou quando atrás daquele corpo ocioso saltou uma negrura de olhinhos vivos e orelhas espetadas. Baralhei-me, os dedos arrastaram-se, o ponto de focagem alterou-se e foi o companheiro mais novo ( só as couves lhe ganhavam em tenrura e verdura ) quem absorveu a parca nitidez da imagem. Ele e a misteriosa tinta cor-de-rosa que descia perto dele, o sangue dum ser extraterrestre que não escapou à sua curiosidade ou a prova dum devaneio artístico num momento de génio infantil.

Serviu a experiência duas aprendizagens: um gato preto transmontano nunca vem só e, na escrita, a forma verbal "fare" da famosa expressão italiana que o gato me inspirou pode ser abreviada para "far" antes de palavras começadas por consoante. O título deste texto poderia então ter sido este: "Dolce far niente escangalhado seguido de gramática".

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Nada consta

por Torradaemeiadeleite, em 21.03.13

"Falta-me a folha cinco
E entretanto a barba foi crescendo
a minha barba veio crescendo ferozmente
indiferente à morte de um ou outro amigo
às letras protestadas aos desgostos domésticos
às viagens lunares às convenções às lutas
Quando as coisas se erguem contra o homem
se eriçam agressivas contra ele
nem ao poeta basta o parapeito das palavras
Eu por exemplo homem de pouco tempo
trazido pelos dias aqui estou
Continuo a dizer: se alguma coisa há
que podias perder e ainda não perdeste
de que já a perdeste podes estar certo
Falta-me a folha cinco
Estou com a barba feita
Ainda este ano talvez em marienbad
eu vi mulheres curtidas pelos lutos
Mal de morte é o meu
em plena posição de pé às três da tarde
em meio do movimento do rossio
sentado à tarde no cinema em dias de semana
Já caem carnes já se perdem pêlos
já quase só me resta a devoção
lisboa certos dias um amigo às vezes
Poucas coisas importantes pensei durante a vida
uma mesa de sol em pleno inverno
um mar incontroverso alguns papéis
- continua a faltar-me a folha cinco -
pois apesar de tudo nada consta"

 


Ruy Belo, País Possível - 1973.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Livro de Horas

por Torradaemeiadeleite, em 17.03.13

 "Aqui, diante de mim,
eu, pecador, me confesso
de ser assim como sou.
Me confesso o bom e o mau
que vão ao leme da nau
nesta deriva em que vou.


Me confesso
possesso
das virtudes teologais,
que são três,

e dos pecados mortais,
que são sete,
quando a terra não repete
que são mais.


Me confesso
o dono das minhas horas.
O das facadas cegas e raivosas
e o das ternuras lúcidas e mansas.
E de ser de qualquer modo andanças
do mesmo todo.


Me confesso de ser charco
e luar de charco, à mistura.
De ser a corda do arco
que atira setas acima
e abaixo da minha altura.


Me confesso de ser tudo
que possa nascer em mim.
De ter raízes no chão
desta minha condição.
Me confesso de Abel e de Caim.


Me confesso de ser homem.
De ser um anjo caído
do tal céu que Deus governa;
de ser um monstro saído
do buraco mais fundo da caverna.


Me confesso de ser eu.
Eu, tal e qual como vim
para dizer que sou eu
aqui, diante de mim!"



Miguel Torga, O Outro Livro de Job (1936).


Autoria e outros dados (tags, etc)

Avé-Maria

por Torradaemeiadeleite, em 15.03.13

Do álbum 78/82, lançado em 1982.  Foi nesses anos uma das canções dos Xutos proibidas na Rádio Renascença (as outras duas eram Mãe e Sémen).



 

Autoria e outros dados (tags, etc)

De Milan Kundera e de Tolstoi

por Torradaemeiadeleite, em 14.03.13

 

Lev Tolstoi - pintura de Nikolai Ge (1831 - 1894).


"Quando Tolstoi esboçou a primeira variante de Anna Karénina, Anna era uma mulher muito antipática e o seu fim trágico era bem justificado e merecido. A versão definitiva do romance é muito diferente, mas não creio que Tolstoi tenha mudado entrementes as suas ideias orais, diria antes que, durante a escrita, ele ouvia uma outra voz que não a da sua convicção moral pessoal. Ele ouvia aquilo a que eu gostaria de chamar a sabedoria do romance. Todos os verdadeiros romancistas ouvem esta sabedoria suprapessoal, o que explica que os grandes romances são sempre um pouco mais inteligentes que os seus autores. Os romancistas que são mais inteligentes do que as suas obras deveriam mudar de ofício."

 

Milan Kundera, do "Discurso de Jerusalém: o Romance e a Europa", proferido quando recebeu o prémio de Jerusalém em 1985 e inserido no livro "A Arte do Romance" ( edit. Dom Quixote, 2ª ed.).



Autoria e outros dados (tags, etc)

Tanto para partilhar quando o tempo é um bem de luxo

por Torradaemeiadeleite, em 12.03.13

 

Lev Tolstoi poe Ilya Repin.
Lev Tolstoi - pintura de Ilya Repin.
 

Não consigo ler vários livros em simultâneo e frequentemente abrando a escrita quando estou a ler. Na verdade, poderia tratar-se de um defeito se medíssemos a qualidade da leitura em número de livros lidos e o gosto pela escrita em quantidade de palavras dadas à luz. Não sigo essa linha de pensamento e por isso não acrescento esta ao  rol das minhas imperfeições. E quando li "Anna Karénina" não pôde ser de outra forma que não esta em que os sentidos e a atenção escolhem ser escravos  das pessoas, dos espaços e do tempo "tolstoinianos".

Esta forma de escravidão deixou-me marcas. Não matam mas moem.

Não foi sem intenção que atrás escrevi "pessoas" em vez de personagens: saltam do livro, elas estão vivas. Têm expressões faciais, falam com o olhar e com as mãos, têm ritmo cardíaco, o peito tem movimentos respiratórios, têm defeitos e qualidades, têm tiques, têm trejeitos no andar, no beber e no mastigar, pensam com a razão e com o coração, relembram o passado e imaginam o seu futuro, movem-se por entre os móveis e atrapalham-se nos bancos de carruagens e caleches, a pele e os cabelos vivem, as roupas deslizam, roçam, prendem, sujam-se, molham-se, apertam, têm botões e fitas, flores e rendas, pó e remendos.

Como consegue o autor não ser enfadonho com tantos detalhes, ou sequer quebrar o ritmo da narrativa? São descrições pormenorizadas mas não são supérfluas, pelo contrário, são reveladoras e por isso também vemos tão claramente as pessoas à nossa frente ou ao nosso lado, pressentimo-las atrás de nós. Revelam o carácter de cada um, a ambiguidade das emoções, a ironia da vida e a familiaridade da morte. Revelam as cores, os sons e as texturas, a atmosfera e os figurantes que influenciam o curso dos pensamentos que os protagonistas confessam ao leitor.

Apesar da época distante em que vivem, as pessoas que nos são apresentadas são intemporais nas suas ambições e frustrações, liberdades e limitações, sonhos e culpas. Reconhecemos as eternas dicotomias: indivíduo/ sociedade, homem/ mulher,  bem/ mal, humano/ divino, racional/ irracional. Não obtemos respostas concretas, não se dá razão plena a este ou àquele mas apresentam-se hipóteses para dúvidas que sempre nos inquietam seja qual for a era que pinta a nossa vida.

E o tempo de Tolstoi? É o posfácio de Nabokov que mo revela: "(...) Tolstoi é o único escritor que conheço cuja observação mantém o mesmo ritmo que a dos inúmeros leitores. (...) A sua prosa acompanha as nossas pulsações e as suas personagens parecem mover-se ao mesmo ritmo das pessoas que passam à nossa janela enquanto nos sentamos a ler um livro seu." Distingue depois este tempo do tempo de Proust e do de Joyce: "(...) é o tempo em Proust ou o tempo em Joyce e não o tempo médio comum, um tempo padrão que Tolstoi de alguma forma consegue implementar."

Os espaços são igualmente impressionantes. Sim, esses palcos que nos acolhem para que façamos parte duma refeição numa casa de camponês ou num luxuoso restaurante moscovita, entremos num salão de baile, num casamento, nos desloquemos entre as divisões dum lar, caminhemos num bosque de bétulas, façamos uma caçada nos pântanos, descansemos numa isbá, sintamos o bulício duma estação de comboios, para que notemos o suor dos mujiques quando ceifam com gadanha, os pingos de chuva no rosto quando a bátega nos apanha, respiremos o ar frio da neve ou assistamos à emoção das corridas de cavalos. Os palcos das ideologias, dos vícios, do ritual de chá russo com o zumbir do samovar, das veleidades dos jovens militares, da hipocrisia social, dos impasses políticos, da Europa que se venera, das amas e preceptores, criados de quarto e dos feitores, do campo explorado e da cidade ociosa; são imensos os cenários em que nos imiscuímos e que contribuem para a tal proximidade com os personagens.

Além de tudo isto, vagos exemplos, apercebemo-nos da evolução das personagens, das suas modulações ao longo do tempo: alteram as suas convicções ou aprofundam-nas ainda mais, amadurecem ou definham-se, ganham corpo ou perdem qualidades, lutam ou desistem, reflectem ou  seguem um impulso - que humanas são.

Não há dúvida que esta obra é um ícone do realismo literário. Para mim era uma necessidade premente conhecê-la de perto.

Não é uma história de adultério com final infeliz. A história de Anna e Vronski, paralela à de Lévin e Kiti e de Oblonski e Dolli, é o modo engendrado pelo autor para questionar a natureza moral do Homem, abalar as certezas que pensamos deter e procurar o sentido existencial (também evidente na busca interior de Lévin pelas respostas às perguntas "Quem sou?", "O que faço aqui?").

Não resisto a transcrever Milan Kundera que faz uma explanação mais vasta, muito iluminadora, sobre a sabedoria que, a seu ver, o romance como género literário veicula e usa como um dos exemplos "Anna Karénina" de Tolstoi. Guardarei para outro texto a maior parte mas deixo já aqui estas palavras: "(...) Mas é precisamente ao perder a certeza da verdade e o consentimento unânime dos outros que o homem se torna indivíduo. O romance, é o paraíso imaginário dos indivíduos. É o território onde ninguém é possuidor da verdade, nem Anna nem Karénine, mas onde todos têm o direito de serem compreendidos, tanto Anna como Karénine."

E com esta me vou dum texto impróprio para o consumo instantâneo que estes tempos nos impõem.

 

 

Nota: a minha Karénina é da editora Relógio d'Água ( colecção Clássicos ), edição de Dez. de 2006. Tradução do russo de António Pescada.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Os dias que passam XIII

por Torradaemeiadeleite, em 06.03.13

Todas as funções vitais do Torrada estão bem e recomendáveis. O que se passa é que estão cativas das letras russas.



Autoria e outros dados (tags, etc)

Related Posts with Thumbnails




subscrever feeds




Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Torradas com bolor

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D