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Ao sétimo dia acordou

por Torradaemeiadeleite, em 30.09.13

Este Domingo não foi para descansar: da voz dos independentes nas autárquicas à conquista do ténis por João Sousa e da caça ao coelho aos pedais mundiais de Rui Costa, não faltou transpiração ( e inspiração ).

 

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São como asas

por Torradaemeiadeleite, em 28.09.13

 

Fotografia de Georges Dussaud.

 

Serra do Barroso em 1980, por Georges Dussaud. É a legenda que me convence do lugar.

É um quadro lindo e perdi-o, embora nunca tivesse sido meu para perder. A oportunidade de ter um assim é que passou afinal despercebida.

Fui muitas vezes com a capa preta para a escola. Era a chuva, o gelo ou o vento que comandavam a voz da minha mãe, e eu, à minha mãe, não dizia não mais que duas vezes, à terceira rendia-me. Por mim, o guarda-chuva era mais que suficiente e a capa deveria ficar pendurada de vazio, a remoer o desamor para sempre e se para tanto a minha vontade valesse.

Inibia-me os movimentos, pesava-me na cabeça quando estava molhada, pesava-me nos braços quando não estava na cabeça, pesava sempre, sempre pesada. Mas, contudo, era minha e só minha, e que viesse alguém dizer que era dele porque todas se irmanavam. Ainda lá estão as iniciais em linha branca e, se cada uma das letras, por si sós, podiam ser de muitos, assim lado a lado eram mesmo minhas e ninguém mais as poderia ostentar. Não deixa de ser estranho este afecto, polarizado a uma só vez , o vão desprezo com o pérfido ciúme, doente de possessão, sem pingo de razão.

A capa caía sobre a pasta e sobre o saco da merenda, caía sobre tudo o que o pano conseguisse abarcar e revolteava a negrura com ventanias acintosas que ameaçavam levar tudo para outras paragens. Leva-me esta capa! Mas que castigo me deram, não posso esbracejar. Tivesse eu o mando disto tudo e acabava-se logo com o esforço deste caminhar a guerrear.

Vejo-nos como avezinhas de azeviche que ainda não aprenderam a voar - caminhámos os caminhos dos pais, que já eram dos avós e eram caminhos irregulares, manhosos e com cadilhos. Já há atalhos novos, estradas também, só já não há gente para os renomear e gastar.

E mais isto de comer no cabanal por força da chuva ou da neve, que raio, roubar-nos a graça de correr e trambolhar no descampado. Ficar amontoados, sem vontade, a pensar para que nos servia o recreio. Mas agarravam-se as capas e aí ia uma, toma! que esta foi a mil à hora para batalhas de capas pretas, depois todas e mais a castanha, que não deixa de ser de gente. És corvo, sou vento, ela é bruxa, olha que ciranda negra, belo efeito giroscópico este, uma impressionante demonstração de rotação e nós sem nada disso saber ainda. Um agarrou o mais pequeno para cobri-lo de escuridão - cabra cega, cabra cega - roda, roda, até cair de tonto e esperneia, mas não consegue libertar-se. Sempre houve, e sempre haverá, indeléveis cenas de martírio das voltas da canalha. Épa, pára a paixão - é hora de aprender - anda cristo, por agora já te safaste.

As capas quedas e cansadas, esticadas e macambúzias até ser hora de voltar para casa, hei! bamos pá, num espero mais por ti. Ála entom pelo caminho arriba - a guerrear, consumida e embezerrada com a capa, mais uma vez.

 

Ouço a "Dança dos Pássaros" de António Pinho Vargas. Barroso, é o que leio. É que bem podiam ser de Castro estas asas negras que guardam.

 

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O que a chuva faz pelo meu humor

por Torradaemeiadeleite, em 27.09.13
Fotografia de Sebastião Salgado.
 
 

Não me sinto só neste gosto, sei que há mais doidos à chuva embora, para nós, os doidos sejam os outros, os adoradores do calor. Estará o bom senso na meia distância mas hoje nem o meio termo me convence, o meio termo não me chove nem me molha.

E não é um gosto protegido pelas telhas - ensopei os pés, as calças ficaram a pingar, senti o frio. Com tudo, o sorriso. Há mesmo gente feliz à chuva.

Neste humor aquoso anima-me a frescura que se finta com um casaco e o espanto do meu petiz com a mãe que lhe calhou em sorte. Envolvo-me em seguida no conforto duma torrada com meia de leite enquanto vejo guerras de guarda-chuvas nos passeios estreitos - a seguir junto-me ao belicoso pedestrianismo, mas por enquanto saboreio.

Neste intervalo fabrico tempo para ler uma crónica de Abel Barros Baptista a propósito de masoquismo, e bem a propósito parecerá aos que neste ponto vêem uma atordoada da chuva a ler sobre masoquismo. É de masoquismo na arte que aqui se escreve: "Groys afirma que o trabalho na arte, na literatura e na cultura só é possível enquanto manifestação de um sentimento masoquista. O artista disputa o amor de certa entidade que, se não lhe garante felicidade, também não pode romper o laço que não criou: o público." Aquele Groys é Boris Groys, crítico e filósofo russo, inspiração da referida crónica e que só assim eu soube que existe neste mundo. Escreve-se mais: "E o público não se define senão por sondagens e inquéritos estatísticos: o artista vive assim a consultar, ou melhor, a fruir números - de vendas, de visitantes, de likes, de acessos ao site ou ao blogue -, os próprios e os alheios: e a inveja dos outros escravos quando mais afortunados é suplantada pelo prazer da própria escravidão, o único prazer que, adverte Groys, nos resta." Agora só mais isto, para concluir, e estas são palavras do próprio Groys: "(...) A predilecção estatística pertence de forma essencial ao gosto masoquista - e é difícil negar que hoje o amor da estatística, ou ainda, o "gosto pop", determina toda a nossa cultura." Nunca tinha ligado estes pontos. Fazem sentido, surge uma imagem clara destes dias da informação ao minuto - onde vai a lentidão do minuto - ao segundo.

E o que é que isto tem a ver com a chuva? Nada, talvez. É a curva na estrada de uma cadeia de acontecimentos que podia levar a outras constatações se a leitura tivesse sido outra, se a atmosfera fosse diversa, se a vontade duma bebida quente não tivesse nascido, se eu não tivesse este blogue. Mas acrescento que no meu sentir água e reflexão até combinam bem. Crucifiquem-me se for essa a vontade popular - mas façam-mo à chuva, que é poético, mais pungente e se enquadra neste arremedo de crónica com chuva, quando a chuva parece abrandar o tempo e permite breves relâmpagos de consciência.

 

 

 

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Êxtase

por Torradaemeiadeleite, em 25.09.13

 

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A fotografia é uma narrativa

por Torradaemeiadeleite, em 20.09.13
Fotografia de Sebastião Salgado. Mina de ouro ( Serra Pelada, Brasil ).

 

 

Um Cristo desistente. Sem mais face para dar ou amor para ser.

Mais vale descer e encostar.

Cruz só a dos braços que se enredam em si mesmos. Amuado. Assim não brinco, diria. E como criança que vê os seus intentos gorados, faz-se distante, vai sem sorrir.

Que restará quando já nem Cristo quiser sair de si mesmo?

 

 

 

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Os dias que passam XVI

por Torradaemeiadeleite, em 16.09.13

 

Fotografia de Robert Doisneau.


Como Setembro é o novo Outubro, as ruas mostram já o movimento atarantado de quem ainda não sabe a quantas anda. Pequenos, médios e grandes transportam uma energia diferente, movem-se em direcção a algo mas o progresso é conseguido com solavancos. Em breve tudo será rotineiro.

Este é um outro ano, que é em Setembro que começam e não em Janeiro. Lembro-me bem de medir o passar dos anos pelo regresso à escola depois das férias grandes. Revezavam-se devagar. Agora é o infante que se encarrega de me ditar as eras que vou cumprindo, e pudesse eu impôr o ritmo, mas em vez de caminhar, voo por este tempo afora.



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O Som do Silêncio

por Torradaemeiadeleite, em 13.09.13

Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence

"Fools", said I, "You do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach you"
But my words, like silent raindrops fell
And echoed
In the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warning
In the words that it was forming
And the sign said, "The words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls"
And whispered in the sounds of silence

 

 

                                         

                                            Paul Simon, The Sound of Silence - 1964.

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Telling stories

por Torradaemeiadeleite, em 04.09.13

 

 
Livraria itinerante "Tell a Story" - imagem googlada.
 

Ponha-se um clássico a rolar pelas ruas da capital e apresente-se as traduções de grandes autores portugueses em espanhol, francês, alemão ou inglês. "Tell a Story" é para turista ver e comprar mas também para quem gosta de obras traduzidas de escritores lusos. Se a ideia vingar e o negócio se expandir, não faltarão com certeza mais talentos aos que já estão a circular na rua. O nosso país é pequeno em terra, muito vasto em mar mas um assombro em talento literário.

A ideia arrancou neste Verão. Francisco Antolin e Domingos Cruz levam a Renault Estafette de 1975, linda e chamativa, a diversos pontos turísticos de Lisboa e preparam o isco. Como quem estuda uma armadilha para incautos, estacionam e montam as ondulantes estantes fora da carrinha, mais duas cadeiras que convidam a uma pausa e expõem os livros que saltam do branco resplandecente em capas frescas. Os seres desprevenidos, mais acostumados a ver outras itinerâncias ( gelados, farturas, publicidade, bebidas, ...), estacam a ver que produto é aqui servido. Resulta. À curiosidade responde-se amavelmente com explicações, convites para espreitar e sugestões para começar e nasce uma maneira de divulgar a literatura lusa, de transportá-la para outras terras. Já há campeões de vendas, "The Book of Desquiet" e "Le Cul de Judas". Até agora, foram os francófonos quem mais comprou nesta livraria itinerante.  

O Verão tem já fim à vista mas a carrinha azul e branca vai continuar pelas estações do ano.

Que se faça a multiplicação dos pães.

 

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Lugares para ler VII

por Torradaemeiadeleite, em 01.09.13

 

  

Fotografia de Torradaemeiadeleite. Ilha de Arousa.

 

"Lugares para ler" é um título com dois seres, duas leituras afinal. Literalmente é dos lugares que convidam à leitura mas é também dos lugares que se prestam eles próprios a ser lidos. 

Abracei esta dualidade no nascimento da rubrica. Já são sete e o sete é um número bom. Inspiro. Inspiro-me.

 

Brilhos e vela no mar, postal clássico, mas também há barcos em terra, vejam bem que não há só gaivotas em terra, cantiga antiga, quando um homem se põe a pensar, uma antiga é uma cantiga que perdeu o "c", de contemporânea, com tempo, com tempo ia mais longe mas tenho de voltar à terra, àquele caminho de terra pisada, e pisar o "s" para ouvir a piada ou ser terra piada do pio das  aves, a voar, como sementes da pinha gorda que estala, está lá? tão longe, o que há lá longe? tenho de ir, há ir e voltar, não, vou ficar, ficar, fica o ar, para respirar, quieta a respirar, de olhos fechados, um raio de sol nas pálpebras, quente, como fogo a luz, a luzir, para a luz ir, portátil, para levar e usar, não desperdiçar, reciclar, guardar para depois, e depois? ficaram os bois, a pastar, e esta agora dos ruminantes, que queres? também não havia fogo, mas isso foi associação de ideias, comparação poética, e deu nos bois, a pastar, sim espera, a pastar, a pastar, a pastar estou eu, a empastar, lá vai rima, e tem a ver, reduzir a pasta, pasta? de papel, empastar também é reduzir a pasta de papel, ah, para escrever, para ler, nos lugares. Lugares para ler. 

 

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