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Quem corre por gosto não cansa

por Torradaemeiadeleite, em 30.10.13

 

Recorte em papel craft de Gémeo Luís.

 

Nutro este lamento de não ter descoberto a literatura portuguesa mais cedo na minha vida. Não escrevo ler, escrevo descobrir, extasiada e deliciosamente conhecê-la. E sinto que corro para compensar essa ausência, mas não é uma corrida de desatenção e descuido pelo estudo que cada livro merece, é mais pela urgência de querer compensar tanta ausência. Assim me vejo ultimamente a dedicar-me às letras portuguesas e a ler histórias que foram editadas há décadas. Assim me vejo a roubar tempo a outros afazeres e a protelar tarefas em nome de mais uns metros ganhos ao longo caminho que tenho para fazer.

Já  nem sei escrever como aconteceu, a reveladora ignorância, digo. Sei que de outro modo não teria lido Fernando Assis Pacheco, Ana Teresa Pereira, Urbano Tavares Rodrigues, Clarice Lispector, Almeida Faria ou José Rodrigues Miguéis, só para dar alguns exemplos das portas que se abriram de há um ano ou dois a esta parte. São exemplos bem escolhidos, é que não quero deixar dúvidas acerca do tamanho da minha escuridão. E percebo a presença de outros, ainda menos revelados do que estes, e que são geniais, discretamente geniais, uma tentadora aprendizagem.

Não menciono propositadamente os mais jovens, que os leio também com curiosidade depois do bicho me ter mordido, nem os nomes mais clássicos ou reverenciais que esses nos falam quase todos os dias e vou lendo pouco a pouco. Prendo-me neste desabafo aos  que escreviam, com provas de talento dadas quando eu andava à roda de outros, maioritariamente estrangeiros, e dos quais eu não ouvi falar aos meus adultos ou às minhas escolas. Mereciam ser mencionados. E como merecem ser lidos. Casos houve de escritores a quem, por outro lado, reconhecia a existência, mas nunca li, talvez só excertos, e também neles tenho mergulhado, sem hesitar. E os poetas, os poetas? Como lhes falho e como me falho adiando-os. Moçambique, Cabo Verde, Angola, São Tomé, onde corre o rio destas letras? Perdi muito, é a minha conclusão.

Regresso ao ponto em que estou para reconhecer que a esses que não têm luzes públicas a iluminá-los,  saberei agora procurá-los e antes nem  maturidade tinha para os receber como merecem. Abençoados livreiros, os veros, e abençoados os colegas de arte que não os esquecem e mencionam ou recomendam aos leitores mais distraídos.

Convenço-me de que a leitura de certas obras na primeira idade ter-me-ia inspirado aventuras temporãs que só agora querem ganhar corpo. Tardiamente? Não, recuso-me a acreditar que só há um tempo para ficarmos um pouco melhores do que éramos quando cá chegamos. Deve haver mais do que um, dois, três, arrisco, muitos tempos para experimentar, aprender, conhecer e ensinar.

E de tudo isto trago outro consolo, o de poder apontar estas alegrias da leitura policromática e multi-cultural ao meu filho. Mas vê-las-á se assim quiser, não alimento ilusões. Terá escolha, ao menos, e não andará cego de escuridão e, para mim, isso já não é pouca coisa.

Não me prolongo, é que tenho uma corrida para continuar e o tempo gosta de me fintar.

 

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A concierge

por Torradaemeiadeleite, em 29.10.13
Fotografia de Robert Doisneau.

Contratei concierge de peso, o que pode ser uma metáfora ou não. Em todo o caso, é necessária ajuda para manter o espaço limpo, distribuir o correio e controlar as entradas e saídas do prédio, do Torrada, quero eu escrever, que agora tem mais um anexo. Como vejo para além das aparências, sei que a senhora é um doce para os habitués. Para os que ainda não são, ela será uma espia implacável e muito competente, bem sabe que não se pode dar muita confiança no primeiro encontro. Persistência, persistência se as intenções forem boas. Mais oui madame vous êtes très belle.


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Torrada com doce

por Torradaemeiadeleite, em 29.10.13

O Torrada modernizou-se. Casaco com botões novos, bainhas para não desfiar, umas costuras a outros panos, está mais compostinho este estilo de urbanidade. Não há equipa como a do batráquio para ajudar.  Não tive que trabalhar. Não transpirei. Respeitaram a personalidade do Torrada. Agradeço especialmente ao Pedro, que já me ajudou noutras circunstâncias.

Povo que blogas no rio, que talhas as tuas letras nas tábuas doutros serviços, muda-te para o sapo que aqui são mais solícitos.

Não estagnam, estes senhores e senhoras evoluem e, mais, sabem ouvir.

Há seis anos que a parceria dura e espero que continue por muitos mais.

Sei que não esperam estátuas na praça pública mas conheço o efeito terapêutico que um elogio pode ter. Obrigado e continuação de bom trabalho.

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Lou e o satélite

por Torradaemeiadeleite, em 28.10.13

Mr. Lou Reed - Satellite of Love, do álbum Transformer de 1973.

 

 

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Aqui há gato

por Torradaemeiadeleite, em 25.10.13

Fotografia de Torradaemeiadeleite.


Já escrevi gatos. Não sobre ou acerca de gatos, não a palavra que remete para o animal, entre aspas esquecidas. Não falta elo nem baralho verbos. Escrevi-os. É mais ambíguo e é isso que quero. O cérebro gosta de sentidos imediatos porque nos poupam tempo e nos tornam mais ágeis. Altero ligeiramente os laços mais habituais entre palavras e deixa de fazer sentido o bicho bichano bichaninho. Procurem-se outras ideias, esta mania de querer ver significado em tudo também é culpa de algo ou alguém. Um engano, por exemplo. E mentira. Já escrevi enganos. Já escrevi mentiras. Plim.  

Ponho um cão a guardar, ar mau, condiz em tamanho com a sua função. Isto de gatos à solta exige protecção. Eleve-se o cão à altura de uma ameaça e aí está a ambiguidade, de novo. Compensamos o tamanho com a altura, é preciso falar para baixo para parecer grande. Não há gato que lhe resista. Irresistível. Os gatos reconhecem o engano.


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Temple of the Dog

por Torradaemeiadeleite, em 15.10.13

Call me a Dog, do álbum "Temple of the Dog", o único da banda de Seattle com o mesmo nome, lançado em 1991.

 

 

 

 

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O piano do Guarany

por Torradaemeiadeleite, em 03.10.13

 

 

A chuva é pó. É pau , é pedra, é o fim do caminho. Não, é a estação de transbordo, mudança de linha. Uma mesa quadrada. Um rosto de índio.

Do pó de chuva que, suspensa, parece que nem molha, recortam-se as figuras estáticas dos que passam e notam, olha que coisa mais linda, mais cheia de graça, é ela menina que vem e que passa. Esta cidade já não é menina, é mulher, que tanto me encanta. Tem rugas, tem vincos, manhãs com idade. Podia ter ar de convencida, de quem é rara no mundo mas é mais deste jeito tímido e de quem se espanta com a própria alteridade.

We go to a party and everyone turns to see, this beautiful lady that's walking around with me. Cúmplices e aliados. A avenida multiplica-se em cada reflexo de água. Multiplica-se nos espelhos da coluna,  nos mapas e nas línguas, nas fotografias de grupo que o empregado ajuda a conseguir, que está habituado e devolve a máquina a sorrir

São os senhores da Amazónia, as suas caras e as suas penas, corpos de chocolate, desnudos ou enfeitados, com tarefas, dias moídos sob a força do pilão, com música, flautas e batuques, são os índios que guardam o café cultural, ou dos músicos, diz-se por cá. Arte do prazer, a arte que o coração pede para fazer dos dias simples a partitura dum milagre maior, the heart asks pleasure first, não tem letra que se reproduza mas tem um piano que toca, numa praia, debaixo dum céu carregado ou com mar escuro onde pronto se afunda,  aqui não, flutua na amenidade do Guarany.

A sala tem espaço. É um salão. O salão tem tempo, para encontros marcados e para aqueles que o acaso dita.  You must remember this, a kiss is still a kiss, a sigh is just a sigh, the fundamental things apply as time goes by. O casal aprecia um livro de poucas páginas que um senhor lhe ofereceu, folheiam a novidade, comentam o que o faz diferente. Na mesa mais atrás desdobra-se um guia porque há lugares e rumos para decidir - lembro as viagens que não têm destino - these vagabond shoes are longing to stray, right through the very heart of it, Porto, Porto. Cada mesa é um capítulo duma densa narrativa, ou verso livre, a cena cómica, um drama antigo ou um ensaio da vida. Há mesmo quem escreva palavras que não hesitam, a esferográfica mal descansa e o caderno de anotar, simples sem ousadia, pode ser um jornalista, hoje há alguns na avenida, ou então um professor, poeta ou amador - usar papel para dizer do presente e do futuro, quem diria, é já espécie rara, um acto de amor. I´ll send an S.O.S. to the world, I hope that someone get's my, message in a bottle.

Mais cafés, passam francesinhas, um bule de chá e outra fatia. Sai o par de namorados, ele embevecido com ela, ela indiferente, levantam-se os do mapa e quase se esqueciam do saquinho.

Conversas sobrepostas, outras conversas, mudas, eu sei que vou te amar, por toda a minha vida eu vou te amar, a cada despedida eu vou te amar.



Imagem: pormenor da pintura "Senhores da Amazónia" de Graça Morais no Café Guarany.

 

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Capas Inesquecíveis III

por Torradaemeiadeleite, em 01.10.13

 

Novembro de 1988 dá a conhecer o delicado som da tempestade. Os eternos Pink Floyd sempre tiveram inspiração para baptismos.

E porque uma tempestade é luz e também é som, juntou-se o Mr. Light ao Mr. Sound numa paisagem dos arredores de Madrid e fez-se uma fotografia inesquecível para um disco nada menos do que de outro mundo. Delicate Sound of Thunder era então tão fora deste planeta que foi o primeiro álbum rock a ir para o espaço a bordo da Soyuz TM-7 com os cosmonautas soviéticos.

A capa tem a genialidade do inglês Storm Thorgerson ( falecido em Abril passado ) referido nesta inesquecível e responsável por muita arte que circula em diversos trabalhos musicais - basta ver a lista no Wikipedia e ficamos iluminados.

O fato de luzes inspirou-se em Dali e as lâmpadas foram penduradas uma a uma momentos antes da foto. Os pássaros do Sr. Som foram libertados no instante pré-disparo um pouco atrás do local onde a figura posava. Consta que não foi necessário retocar muito a imagem final e que tudo correu segundo o planeado. A luz do dia, a beleza do local e o talento do mestre fizeram o restante.

Para ver, ouvir e guardar.

 

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