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Zero

por Torradaemeiadeleite, em 30.11.13
Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

As previsões mostram-nos frio, mais frio ainda, sempre a aproximar-nos dum zero que é afinal poético. A visão guardada de outro Novembro, de um policromático zero de Novembro, espanta a nulidade a que ficou votado o símbolo e consola-o com um quadro realista: zero, isto és tu.

Ofuscado pela revelação, ainda duvida do que vê, como posso ser isto se eu me sei frio? Aponta-lhe então: é o ar frio que satura o azul, é a neve fria que afofa as imperfeições, é a água gelada que esculpe as margens, são as folhas morrendo de frio que trazem as cores quentes e é o frio que aproxima do peito o rosto apaziguado que se aquece.

Sou eu então assim, nem feio nem mau, sou só eu sendo eu, umas vezes maldito, outras tantas deslumbrando.


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Are you talking to me?

por Torradaemeiadeleite, em 26.11.13

 

 

"O Grito" de Edvard Munch.

 

Não alimento no blogue as insanidades que nascem nas televisões, nos jornais, nas redes sociais, nos blogues e que se perpetuam de sítio em sítio, digo melhor replicam, como um vírus. 

Ouço as iluminadas frases, as sábias conclusões, os narcísicos comentários e digo pilosos palavrões para desabafar, reforço tudo com a minha imitação d' O Grito, o queixo a ameaçar os pés, a boca desenhando um escuro assombro, para depois fazer o enterro das ditas baboseiras e não falar mais delas.

Ao que poderia parecer uma indiferença ou a célebre estratégia de avestruz, oponho neste blogue o exercício da sanidade e concentro-me no que para mim é belo e bom, o que me vai ficando no filtro dos dias. Minudências na mor parte das vezes, eis o que são, deslumbrantes minudências que por estarem tão próximas de nós perderam em raridade o que ganharam em banalidade. O facto é este, já não tomo nada por garantido, cada hora do dia é uma impressionante colheita de vários acasos e pelo acaso tenho muito respeito.

Para não beliscar esta terapia, recuso propagar o alheamento e a patologia que detecto nos comentários pagos, mais os artigos de lavandaria em praça pública que fazem capas e parangonas, mais os "agora sim, agora vai" dos que nos representam (que é duma representação que se trata, arrisco mesmo, duma caricatura ) e de todos os que os admiram e não compreendem os protestos do zé. Dos dias que passam não quero guardar o que não presta.

Como sabiamente se diz nesta terra, oupa p'á frente. Oupa então.


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...

por Torradaemeiadeleite, em 24.11.13

Ilustração de Gianluca Biscalchin.

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As vozes do futebol

por Torradaemeiadeleite, em 20.11.13

Futebol só com palavras, eis uma arte. Um relato de futebol é informação e muito mais. O muito mais é o que me leva a escrever para além da notícia que faz as capas dos nossos jornais. Vamos ao Brasil pelos pés dos nossos jogadores de futebol, vamos lá pela inspiração de Cristiano Ronaldo que me pôs rouca ontem à noite e vamos lá depois de sofrer, o que confere uma aura mais brilhante ao desafio. Porque sobre estas verdades já muito se diz volto então aos senhores do rádio, àqueles que nos dão as imagens por palavras, uns escritores portanto. Escrevem o que a imagem por si só não completa: a emotividade dum povo espalhado pelo mundo que se une na língua e no querer, querer mais, querer ganhar e não se culpar por não se satisfazer com um tentar, por uma vez contrariar o triste fado, a melancolia do "ah, isso é que era bonito". O que eu gostava de transportar para o dia-a-dia é esse arregaçar de mangas que o futebol nos emprestou no jogo com a Suécia e a força dum sonho traduzida em grito português. Relatar um golo é mais que dizer golo, é fazer explodir a energia recalcada em tantos que não têm voz, chamar o país como quem chama a salvação para todos os males, reclamar o céu porque a terra não basta.

Já andam no tubo os relatos de ontem que me levaram a torturar as teclas e blogar, mas para ilustrar o que atrás escrevi socorro-me de uma memória. Tal como um livro que passa a fazer parte de nós, assim há relatos que não se esquecem. Para mim, uma leiga da técnica do futebol, mas uma adepta emotiva, ficar-me-á para sempre o relato de Jorge Perestrelo no Euro 2004, do fantástico Portugal - Inglaterra, muito antes do penálti de Ricardo, num momento de acreditar. Ainda me arrepia.

 

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Dançando à volta do mundo II

por Torradaemeiadeleite, em 17.11.13

Lembram-se de Matt Harding a dançar em 2008? Também dançou em 2012, mas só agora o apanhei nesta versão. Outras coreografias, novos intérpretes e o rebento de Matt a finalizar o vídeo às cavalitas do pai, pois tal como a dança a vida renova-se.

Continuo a preferir a versão de 2008: povos diferentes partilhando uma dança de terra nenhuma, sem carimbo cultural, mas que comunica boa-disposição, união e, arrisco mesmo, esperança.

 

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Os dias que passam XVII

por Torradaemeiadeleite, em 15.11.13
 
Fotografia de Torradaemeiadeleite.
 

 

Novembro e a lembrança dos eternos, Novembro e um gosto ainda de Verão, prenúncio de fins ( mais do que um, é certo assim ).

Castanhas, vinho e horas de sabor de centeio com manteiga e açucar. Este é um mês sensorial, extra-sensorial, em desenvolta estação - o Outono com fulgor - das quatro perfeitas tão interior, só mais o Inverno, das quatro perfeitas a mais cadente. Minha introspecção.

Meu ainda o poema-casa que dorme em frente às folhagens rareadas, acastanhadas, que caem, devagar, sem ventania. Deixo a madeira ranger sortes moídas e que vontade, de tanto querer, de viver, de novo, viver, de novo, que tanto.

Novembro com poema-janela que deixa vir a luz torturar a poeira e traz quadros de agnosticismo e leva escuro interior olvidado e reverbera vultos sobre a sombra. Poema-janela que abre e fecha teias já pesadas, forradas de tempo, essas rendadas cortinas e essas tácteis, geométricas, armadilhas. Abre e fecha vistas de uma paciente inquilina que não se aflige com a espera nem se sente ameaçada pela torpe morte. Respeito, é ela a inquilina. Respeito, a sua natureza que aqui pertence - a luz deste Novembro, a luz do meu solar, perfeito, interior, ufano solar.

 

 

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A Ilha

por Torradaemeiadeleite, em 11.11.13
Fotografia de Torradaemeiadeleite.


Diz-se dos ilhéus, que podem sair da ilha mas a ilha não sai deles e que todo o mundo é para eles ilha e mais ilhéus. Assumo-me pois ilhéu, não escrevo ilhoa, a palavra não me agrada, deforma a gente em apetrecho de barco e perde a poesia que associo ao habitante de ilha e à ilha muito pequena. Mas para além do conceito filosófico em que cada um de nós é uma ilha, prendo-me mesmo ao conceito físico de porção de terra cercada por água que nos altera o sentir do mundo para daqui pular para as ilhas rodeadas de terra em que  a minha me aparece.

Terra alta à volta, sem horizonte marítimo, monte cercado de monte cercado de picos cercados de monte e novamente picosas montanhas a cercar o que cerca. Nem ondas ou praia, raio verde ou mar de luar. Tem céu, todo o céu que o exagero criou, tem sombras que varrem o chão e dizem as horas, tem nevoeiro de burel que nos tapa e obriga os olhos a ver para o único horizonte, o nosso, por dentro. 

Uma ilha porque isolada de outros viveres, separada por terra-mundo, lonjura e cansaço, foi ficando para trás, mostrou muitos caminhos para sair e nenhum prémio para quem nela ficasse. Ilha sem mapa e sem dicionário para os curiosos da ancestralidade e do estranho viver que é bom conservar para de fora levemente se apreciar, levemente  e sem pesar, sem o peso da culpa, que bem vivem estes seres longe do ruído e da poluição, tão felizes com tão pouco, sim, sim, que humana virgindade, tão genuínos, nada mais podem desejar.

Uma ilha porque conhece a exiguidade, não a de terra, chão para andar, mas a de gente, que morre tudo e ninguém nasce, exígua de saúde e de conhecimento, trabalho bom que faça voltar, exígua de planura, só caminhos inclinados para andar que fazem pender a cabeça, torcer as costas, cambar as pernas, estreitos de urzes e giestas que ninguém corta porque neles já não conta passar.

Reconheço-me ilhéu que carrega a sua ilha às costas para onde quer que vá. Penso e contemplo tendo-a por referência: quando chove chove-me ela também, quando há Sol vejo-o nela também, quando faço imagino-me a fazer lá, quando viajo procuro-lhe as semelhanças, quando sofro busco o seu colo e o seu exemplo, dos que amargaram e venceram e amargaram e sucumbiram. No meu teatro de vida, parte do cenário é sempre a minha ilha, rodeada de terra, relumbrando de ouro ao entardecer ou coberta de neve ao amanhecer, imagens da sua luz que voltam sempre, têm de voltar, depois das imagens escuras, breu de morte e breu de destino que haverá sempre no seu sentir.

Li que "o pior das ilhas é quando se põe a imitar o mar que as rodeia. Cercadas, cercam." É tão verdade que o sinto mesmo sem mar. Cercava-me ainda que não o quisesse mas quero, e haverá o cerco de durar até que lá volte para ficar.

Se a trago comigo não há-de desaparecer. "Não há maior ilhéu do que aquele que imigra", outra leitura que me ficou. Sinto-o e se o sinto é verdadeiro e assim sou, tão ilhéu como os da insularidade.


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Oxalá venda

por Torradaemeiadeleite, em 08.11.13

 

Cerveja e imaginação misturam-se muitas vezes, embora nem sempre nas doses certas. Na publicidade, contudo, são numerosos os exemplos em que se consegue o melhor das duas. Num minuto, a prova.

 

 

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As cartas

por Torradaemeiadeleite, em 06.11.13

 

Soldado da 1ª Grande Guerra. Fotógrafo desconhecido.

Via nas letras o jeito singular de as domar sobre a linha desbotada, quase despercebida, ainda assim presente para impôr limites que o  sentir amado recusava cumprir. Domadas e contrariadas, quando a vontade que tinham era de voar altas, bem acima do mal ou então de tombar e, desequilibradas, abaixo da linha morrer, que às vezes é a queda que dá mais sentido à vida. Via as hesitações e as certezas, as palavras leves baças e mais as que carregava, carregadas de carvão, de saliva e carregadas de si, da angústia, do instinto, da confissão, do grotesco e do nada, disformes de susto-bomba, os riscos-pressa, de boca aberta inacabadas, amputadas.

Como pode o amor aceitar que a repetição é cansaço e enfado se adivinha alienação e urgência, e percebe o espaço a fechar, a margem da folha que oprime, percebe o tempo que foge vestido de lama, pesado, esfarrapado, com bolhas de sangue nos pés, ainda assim foge, tem que fugir, as palavras aguadas, as aguarelas de triste cor afogada que ficam ( as voltas da escrita seguem o íntimo ritmo e é assim que a gota cai, infunde o medo, "morro já em ti", não, é aqui que vives, a mão no peito ). Pois não ficam, as palavras vão, vieram já, na força da gravidade que fez da gota rio ou fez da gota lago e com ela diluídas vão subterraneamente, as palavras, até outras paisagens, nessas paisagens se revelam a esses olhos que as resgatam da água e reanimam, os olhos que amam a intimidade nua exposta uivante, nas pontas dos dedos que o corpo urge sentir, amam a coragem de quem se entrega vulnerável exaurido e pronto a sucumbir, se a isto chegarmos para de nós mesmos fugir e se assim for preciso para em outros continuarmos a existir. Amam, amam e esperam, esperam no medo o fado.

Instante perfeito, o que ela lia, aquele em que, prometido e contra tudo, a terra os uniria e enfim juntos renasceriam.


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The Book Thief

por Torradaemeiadeleite, em 04.11.13

 

Com estreia marcada para este mês nos E.U.A.
Realizado por Brian Percival, com Geoffrey Rush, Emily Watson e Sophie Nélisse nos principais papéis.

Baseado no romance homónimo do australiano Markus Zusack.


 


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Da melodia dos nomes

por Torradaemeiadeleite, em 02.11.13

Prelúdio à tarde de um fauno.

Assim o imagino, um bosque ao fim da tarde, a luz cai, sim uma queda à nossa altura, é assim que nos aquece o seu abraço, nos inebria, e os ramos intrincados coam os olhos sedentos de nudez. Inveja destes seres duais, sensuais, enquanto pisam o húmus, bebem da frescura, se entregam ao instinto e conhecem ainda a graça de ser divindade. Os deuses poderão ser divinos mas não sabem o que é ser terreno e orgânico, que imperfeitos, afinal.

Faunos no bosque ou faunos na planura, imagino-os faunos enquanto houver naturezas que os recebam falando a mesma língua.

Mallarmé contou-o e Monsieur Debussy completou-lhe o fauno com os sons que a sua tarde deverá pronunciar. Dissera com música, uma forma mais que perfeita.

As manhãs e as noites dos faunos terão outras pautas, de certeza que sim, esta é a da tarde, do equilíbrio entre forças antigas e presentes, onde luz, sombra e corpo se nutrem, simbióticos, cada um não tirando ao outro mais do que aquilo que dá.

E tudo isto num prelúdio e tudo isto num nome.


 

 

 

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Entre páginas

por Torradaemeiadeleite, em 01.11.13


"Lerás bem quando leres o que não existe entre uma página e outra da mesma folha."

 

                                                                                Agostinho da Silva



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