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Janeiro

por Torradaemeiadeleite, em 31.12.13

 

 Fotografia de Alfred Stieglitz.

 

Com as mãos fora dos bolsos, algures segue na pegada do que viu ou a imaginação lhe apontou, de outra forma não explica aquela direcção abruptamente contrária à que a princípio tomara. As pessoas parecem-se muito à chuva mas aquela era uma forma inconfundível, e só por irónica sintonia era ela que seguia sem guarda-chuva. Já não era o único apanhado desprevenido pela borrasca, a negligente postura perante o saber metereológico, a mesma que o levou à existência dela, também criatura da água e do vento, às inusitadas coincidências que os tinham juntado dias antes, no abrigo, à porta do oásico café. Trocadas breves as palavras, só eles raptados pela mesma surpresa, quem diria que ia agora chover grosseira e brava bátega, num dia desde manhã tão escuro e ameaçador. Só o sorriso iluminou a tarde, e a noite, e a manhã seguinte, e a tarde que veio depois, o novelo de cinco dias em contínuo inverno, prólogo com Janeiro dentro. Sorriso de sim, quem diria, com reticências e fixo olhar.

Detivera-se a água e detiveram-se as palavras por nascer logo morrentes, não houvera já momento para convidar a espera com bebida quente. Cúmplices na atmosfera, talvez cúmplices ainda na mesa da janela embaciada, pequena com duas cadeiras, todo o cenário que bastava. Segundos fugidos espavoridos caídos, assim aquele em que, tão leve parecia levitar, deixou a porta, de novo enfrentando o vento para continuar, talvez hora marcada, talvez timidez, a mesma que então espantou quando, virada súbita para trás, deixou o cabelo revoltar e o sorriso alumiou, a calçada geométrica encharcada, o ar fresco, tanto vazio de gente apressada, a atenção só dele.

 

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Domingando

por Torradaemeiadeleite, em 29.12.13

The Cinematic Orchestra -  Breathe.

Voz de Fontella Bass.

Do álbum Ma Fleur, 2007.

 

 

 

 

 

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Ressacar

por Torradaemeiadeleite, em 26.12.13

( Recuar da água depois da rebentação )

 

 

Fotografia de Sebastião Salgado.

 

 

Cessa tudo o que a antecipação gerou, vai o dia de Natal e toda a longa espera para encontros e brinquedos. Refazem-se as horas, retomam-se as rotinas que desenham os dias de sempre, com traços costumados e um, ou mesmo dois - sortudos -, inusitados.

Das anuais impaciências resgataram-se anuais compensações, os paladares e tragos de saudade, um olvido breve dos amargos humores, a debicada esperança, doseando pequena, pequenina, não vá inebriar.

Retoma-se a normalidade, adiadas vontades e urgentes querenças, retoma-se o fio, corre a velha meada.

 

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És lindo!

por Torradaemeiadeleite, em 24.12.13



Fotografia de Torradaemeiadeleite.


Ainda a tempo de um beijo para o batráquio mais blogático da Via Láctea.

Obrigada Sapo Blogs por me terem ofertado o Sol.

Feliz Natal.


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Natal

por Torradaemeiadeleite, em 23.12.13

 

 

( Sei que vou estranhar quando o meu Natal tiver outra geografia. )

 

Amor e esperança para todos e ainda um quentinho bom, manta de lã, bebida sorvida aos pouquinhos, para os que se aconchegam no Torrada e Meia de Leite.

 

 

 Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

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Inverno

por Torradaemeiadeleite, em 22.12.13

 

 Fotografia de Torradaemeiadeleite. Porto, Dezembro 2013.

 

Braço de Sol, apontando, iludente.
O Inverno tem luz.
O Inverno é quente.

 

 

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A casa

por Torradaemeiadeleite, em 19.12.13
Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

Não há móveis. Não há luzes e fumo odorando a noite. Não há cortinas e quadros e relógio a repassar teatros. E sem tudo, não há vazio.

Janelas que são portas, o tecto, o chão - estas naturezas entregues ao rigor e à inclemência, já esmiuçadas, levadas, ou então a jazir diferentes e, mais tarde, nada mais que adivinhadas. De transmutações sabe o tempo.

Entram os elementos, pernoitam os seres, aventuram-se as crianças, arquitectam-se os ninhos.

Dois espelhos, mas um desistente, o outro sentinelando as ofertadas revelações. Multiplica tudo, também gente, e faz o espaço aumentar-se e reinventar-se.

Permitam-me, repito-me, que é tanto o que vos conto: a casa, esta casa, não tem vazio algum. Nunca esteve tão cheia.

 

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Pluvium

por Torradaemeiadeleite, em 17.12.13

Fotografia de Torradaemeiadeleite.


Palavras para quem se zanga com chuva.

Vê-las galgando as pedras, espumando liberdade, penteando as margens. Senti-las velozes no leito estreito, arrastando natureza e pelejando com os mais fortes. Palavras líquidas aliviando céus e derramando dos montes. Aonde vão as que escrevo e as que ficam por nascer, completadas por outros olhos, procuradas por outras ideias que vejam correspondência onde as minhas cessaram. Aonde voltam os cíclicos humores, as vitais riquezas, os imperceptíveis poderes.

Palavras para quem se zanga com a chuva.

Possam os olhos encontrar-lhe a beleza que injusta eu não soube valer.


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Intermitências da noite

por Torradaemeiadeleite, em 15.12.13

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite, Dezembro 2013.

 

Nós e as luzes. Observei e participei. Não decidi explicação grandiosa que justificasse a romagem às luzes amarelas e pirilampos brancos, as poses em contra-luz a afirmar estamos aqui porque a luz é nosso guarda-costas. Geometricamente arrumadas, cone de brilho e electricidade, a cidade livre de breu porque um inventor ousou, encima a avenida roubando firmamento com estrela piscapiscante. E não haveria de ser grande a explicação, se o contraste com a noite é quanto basta e ver as crianças brincando à sua volta, esta figura que lembra pinheiro nórdico, mas a espécie pouco importa, onde está o Pai Natal? Não há competição em altura, a Lua não o permite, halo de sofisticação guardando-a da banalidade, continuará sempre bela e deusa ainda depois de tantos anos. Nós e as luzes, multiplicadas nos olhos e nos instantâneos, nós e a atracção por tudo o que recusa a escuridão. As luzes, alumiando e banindo os medos ancestrais, as do Sol e da Lua, do fogo e dos aprisionados elementos, chamas portáteis, chamas armadas afunilando, cabos sustentando energia, o frio encorpando o ar.


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For Whom the Bell Tolls

por Torradaemeiadeleite, em 14.12.13

 Ride the Lightning, Metallica - álbum de 1984.


(...)

 

Crack of dawn
All is gone
Except the will to be

Now they see what will be
Blinded eyes to see

For whom the bell tolls
Time marches on
For whom the bell tolls...


 

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Exfolio

por Torradaemeiadeleite, em 10.12.13

The Flatiron, 1904 - Fotografia de Edward Steichen.

 

Caindo leve, ainda caindo, cai a cor longe do ramo em quedas leves mais e mais quedando em nudez. Era tal a leveza que nenhum vento seria, antes uma forte certeza que ao fim a traía. Vai cor, vai corpo, pedículo mudo triste sem voz, vai tudo o que o modo sem tino desprende e a seiva enfim cessou inundar.  Que tino precisa para fazer o que nasceu para cumprir, se nascida foi para assim morrer, se muda viveu, muda se entrega, em despojo, resta cair.

Só a expressão que uma vontade lhe empresta, um sopro surdo que a faz levitar, não deixa a queda abrupta, apogeu ou cantata maior, prémio de glória por assim findar. 


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Nevermind

por Torradaemeiadeleite, em 09.12.13

 

Do álbum Nevermind de 1991 - In Bloom, Nirvana.

 

Um quarto, o último reduto, quartel-general da rebeldia. Uma máquina, diabolizada, a propaganda dum estado-maior. Quanto mais alto melhor, fazer-se notar atemorizando.

Catártico, dançante, orgânico. O cabelo revoando sem tino. A vontade de partir tudo para depois construir.

 

 

 

 

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Sentido único

por Torradaemeiadeleite, em 07.12.13

 

 

 

Volto ainda. Volto aos instantes-quase. Que seria depois se o quase se tivesse cumprido? Poderá alguém, alguma vez, saber dessa alter-realidade e, ao conhecê-la, ganharia o quê?

Permanecem puros e inviolados os instantes, onde tudo habita na casa da possibilidade, com a porta aberta que nunca nos desagrada porque não fecha o espaço, deixa passagem, acena paisagens desconhecidas. Já se sente, o desconhecido atrai.

Doce e mesmo amargo, algo seria então, um corpo de delito ou dois corpos em paz, vontades cumpridas, repetíveis ou então não, mas um gosto concreto e não uma fenda na memória.

E volto, para o resolver - um exercício de pele, de humana condição e ainda racional - também há racionalidade no que não acontece. Volto nessa estrada de sentido único para reanimar outro ser: se tivesse correspondido, o toque, se sorrisse, o olhar pedindo,  se dissesse, ouvindo o fogo, no silêncio aberto, se deixasse de respirar e no beijo logo ressuscitasse.

Volto para admirar a sua perfeição - foi o quase que deixou o instante incorrompido, foi o quase que lhe pintou uma aura de eternidade e o despiu de impossibilidade.

Vamos aonde queremos e vamos aonde nos deixam ir, vamos. Mas não, ficámos para sempre naquele ermo lugar sem vento, a gota congelada no segundo em que pronta queria cair.

Os medos, essas entidades que nos cortam, rasgam e protegem, tudo a uma vez - quem nos protege rasgando e dilacerando será por nós ou contra nós?

Por uma vez saber - saber de conhecer e saber de sabor-e-ar, o ar perplexo que agitei só querendo provar, te.

 

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Sem Título

por Torradaemeiadeleite, em 05.12.13

"La machine qui voulait savoir" de Marc Giai-Miniet.


Batucam, assediam-me com o ritmo, desafiam-me a dançar com as palavras - leituras, livro, cativou, recomenda - e ainda algarismos para complicar a coreografia, 2013, 18 e 12, precisamente e por ordem decrescente porque sou meticulosa. Atiçam-me mais, só para me ver rendida sem condições, com mais estas: preferida, receber livro. Sinto que a vontade já bate o pezinho ao som da música mas o como é que me troca as voltas do corrupio. Voltear, dar a volta, quem diz na dança diz também no assunto e é por aqui que vou tentar, sempre gostava de ver como me assentaria ser uma preferida.

Explicar escolhas ou ditar conselhos nem sempre surtem o melhor efeito, a primeira revela tanto pelo que afirma como pelo que deixa por dizer, é preciso saber ler nas entrelinhas ou, como se diz que disse Agostinho da Silva, "lerás bem quando leres o que não existe entre uma página e outra da mesma folha"; a segunda, sobre os conselhos, já se sabe, quem mais precisa deles é quem menos os ouve. Portanto, tirará conclusões do que eu escrever quem para esse lado estiver virado ou quem seja generoso e dedique tempo a estas divagações pessoais.

Se a escolha é um livro e não obriga a edição deste ano, nem à portugalidade exclusivamente,  sinto que não desrespeito o desafio ao revelar que ( respiração suspensa, pupilas dilatadas, ritmo cardíaco acelerado ) o meu livro de apontamentos de leituras é o tal. Esta edição de autor com capa dura reúne na sua singularidade o que li até agora durante o ano de 2013 com impressões, comentários, desenhos, transcrições, colagens de pequenas coisas que coincidiram com as leituras, "googladas" e alguma escrita em moto próprio, inspirada pelo que leio ou adivinho. Para mim faz sentido esta escolha porque ler também pode ser escrever, reescrever e as minhas andanças livrescas são interdependentes, destacar só um é injusto, um livro chegou puxado por outro: o autor referiu de outra obra efeitos, admiração, aversão, o título seguinte era a continuidade lógica do primeiro ou eu quis mudar radicalmente de assunto, narrar um fenómeno social, natural, científico fez-me indagar determinado tema, o meu filho leu a obra infantil, enfim, sem caminho pré-definido, veio tudo ligado por algum fio condutor, às vezes é o sim que arrastou tantos não e, com tudo isto, alcancei maior riqueza e entendimento da narrativa, do autor, da época, do lugar. Muitas vezes, procuro também na leitura a sua circunstância.  Este é o meu feitio livresco e o dos outros pares tem com certeza a mesma legitimidade e igual realização.

Para mais, adianto que a minha leitura preferida está, pelo exposto, em perene construção e sei também que já estou imbuída do espírito dos livros que lerei em 2014, assim me seja permitido.

Na impossibilidade de sugerir o meu livro porque esgotou e não está prevista reedição, recomendo aos leitores igual iniciativa, há pelo menos uma editora que me imitou e tem à venda um livro dos livros com as páginas prontinhas a ganhar outras vidas ( e escrevo que é a Bertrand porque arrisco que me mandem um, livre de encargos, pela menção ).

Quase a terminar, esperança-se o meu texto por afirmar a recompensa que vem da coexistência de autores de diferentes nações e credos, da continuidade do que já se escreveu no que se escreve hoje e no que virá depois, da igualdade de força dos diferentes géneros literários, a recompensa, volto eu, é encontrarmos o melhor de nós mesmos. O meu melhor, com o teu melhor e com o melhor do outro, ah, tantas possibilidades.

Poderemos falar de uma homenagem aos livros em tons de verde com olhinhos amarelos?

Mas se um livro de notas, transcrições, desenhos, comentários, colagens, não é uma boa sugestão literária então fica provado que não consegui dar a volta ao assunto.

Salva-se em todo o caso esta boa horinha por ter aceitado o desafio para uma dança de ritmo acintoso e para o flirt multipessoal - com uns comes e bebes ainda arranjamos festas dionisíacas.

 

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