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60.007 anos

por Torradaemeiadeleite, em 27.01.14

Paul Salopek fotografado por John Stanmeyer.

 

Escrever sobre os passos dos outros pode ser um esforço de imaginação, um exercício de empatia, a afirmação duma inveja, ou ainda um reconhecimento das nossas limitações. Em vez de um "ou" que seja um "e", aquele que assume todas estas afirmações num tempo só. Despojo-as da mera possibilidade, elas são partes dum corpo de curiosidade e admiração, um corpo que moldei com cada frase dum relato ainda inicial do jornalista premiado Paul Salopek que li e guardei.

Não me revejo portanto noutras possibilidades que possam ser sugeridas, este "escrever sobre os passos dos outros" não deveu nada à vontade de passar uma rasteirinha, não deveu nada também ao estudo do comportamento dos solos sob a pressão duma modesta caravana de dois camelos e três homens em lento mas bem definido trajecto.

É o meu modo de ser companheira de viagem, de me observar enquanto humano e de dar a conhecer outros meios de saber - há, com certeza, mais que como eu se revêem nesta demanda e para esses importa mencionar o que se propôs conseguir este irmão.

Do berço africano da nossa espécie derivaram rotas de migração e a alteração irreversível da distribuição geográfica dos nossos genes. Um domínio inequívoco da superfície terrestre, uma prova do singular ímpeto de procurar, ir além do que nos rodeia.

Uma caminhada perpetuada ainda em trilhos que não se apagaram e configuram, hoje em dia, motivações tão divergentes das ancestrais, mas também uma caminhada perdida nas sinuosas voltas do tempo terreno, apenas relembrada pelos fósseis de hominídeos, essas testemunhas silenciosas duma viagem com 60.000 anos que, mais do que terra andada, culminou numa linguagem, numa consciência de si, no pensamento abstracto e na tecnologia de que agora me sirvo para dela falar.

Os passos de Paul contam desde o vale do Rifte, na actual Etiópia, e prosseguirão durante sete anos, a um ritmo esperado de cinco quilómetros por hora, até à Terra do Fogo, onde os nossos antepassados conseguiram chegar.

Cheguei atrasada à viagem que leva já um ano de existência mas ainda a tempo de o acompanhar na maior parte da epopeia. Sim, Paul nomeia bem esta aventura - epopeia, pela distância que proporciona uma viagem ao passado com olhos no futuro, que nos instiga a perguntar e procurar, que nos faz conhecer outros espaços recônditos, os da nossa alma.

Repito as suas palavras: "Caminhar é cair para a frente. O passo é um mergulho sustido, uma queda evitada, um desastre travado. Vistas as coisas desta forma, uma caminhada torna-se um acto de fé. Fazemo-lo todos os dias: um milagre a dois tempos, um cambaleio iâmbico, seguro e solto (...). Busco uma ideia, uma história, uma quimera, talvez uma loucura. Ando a perseguir fantasmas. (...)"

 

 

 

Ser companheiro de viagem em outofedenwalk.com e no facebook.

 

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Quá-quá

por Torradaemeiadeleite, em 23.01.14

 Fotografia de Torradaemeiadeleite.

Os Patinhas. Fossem ou não histórias com o Tio Patinhas, eram sempre os Patinhas. Balões, quadrados e rectângulos de mania colorida e acessível que às vezes brindavam raros saberes, mas na maioria das leituras sobrevinham os mais previsíveis desfechos. Durante muito tempo "andaram falando brasileiro" para depois assumirem uma europeia portugalidade e estranhou-se, no princípio, ver velhos amigos com novo discurso. Os tiques brasileiros ficavam tatuados nas composições da escola e fizeram gastar tinta vermelha, permitiram as costumadas e velhas reprimendas, que não se aprendia nada com tais livrinhos, só se desaprendia, que desorientação cultural ali nascia.

Tão leves, tão portáteis que iam para todo o lado. Sujeitavam-se os pequenos livros a rigorosas condições de ocultação e habilidades "origâmicas" para poderem ser lidos onde e quando não era permitido fazê-lo. Gargalhadas abafadas e cúmplices, mesmo quando não havia graça que se aproveitasse, eram apetecíveis porque eram profanas e desafiavam as regras, as convulsões em crescendo para rebentar sem controlo.

Os Patinhas. Emprestados, trocados, vilependiados, abusivamente vincados, pintados, rasgados. Ainda assim, guardados. Ainda assim, acarinhados.

Não alcanço a total compreensão de como seria a minha experiência literária se não tivesse lido tais pergaminhos. Parece-me que teria agora um erro para emendar, isso sim, certamente uma história a menos para partilhar. Em todo caso, li e ri. Juntei um pequeno acervo que continua vivo porque já "contaminou" mais uma geração.

E longa vida aos Patinhas.

 

 

 

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Impressões made in Iceland

por Torradaemeiadeleite, em 20.01.14

 

Que tira a serenidade de espírito - é este o sentido que quero dar a esta perturbação que as imagens da realizadora me trazem. O espírito sereno, deixado na sua paz, não questiona com a frequência que deveria, ou então, fenómeno singular, já encontrou todas as respostas e não tem mais que indagar. Sereno também se desistiu de saber.

As imagens da realizadora. Hipnotizam-me. São cruas e empáticas, a uma só vez. Belas e, pois, perturbantes. Aplaudidas por muitos e banalizadas por outros tantos, indiferentes para poucos, é sempre assim quando o artista se exprime livremente.

Quero percebê-las e saber se o que me inspiram estava nos propósitos de quem as idealizou e dramatizou. Não fiquei longe do âmago. Viciosa dependência, cíclico estado de consciência seguido de inconsciência. Confusão e perda de controlo, desmemoriação. Eterno retorno.

Para além do par protagonista principal, mais dois intervenientes que manipulam, empurram - as forças que não vemos.

Mais simbolismos: as borboletas, os chupa-chupas que inebriam, toldam o discernimento e têm pequenos escorpiões no interior e, fundamental, a dança coreografando sentido ao mais pequeno, leve, movimento.

As relações de dependência e domínio, sentir que é preciso rematar algo e não ser capaz, não sem estropiar, magoar ou cortar. Quando ficar dói e sair também dói.

A estas variáveis humanas se prende o olhar e o ouvir, daqui se pode indagar sobre as diversas tonalidades do viver e ser.

A música: minimalista, com piano difundindo ambiência melancólica, desesperançada nostalgia na maioria das cenas mas ainda com pontos de luz, o suficiente para orientar ( ou desorientar ) e divisar que não há condenação eterna - ainda não.

As cenas que obrigam a aviso de conteúdo para alguns públicos, os mais novos, porque ainda não conhecem todas as valências do sentir e têm de conquistar maturidade para separar o trigo do joio. Aviso também para os serenos.

As palavras que orientarão as buscas do vídeo são islandesas: Sigur Rós - Fjögur Píanó ( do álbum "Valtari" de 2012 ).

A realizadora que eu não conhecia chama-se Alma Har'el. No "micro-filme", para mim um conto, a expressão magnetizante de Shia LaBeouf.

 

Para acompanhar este texto, a música, só.

 

 

 

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Lapso Solar

por Torradaemeiadeleite, em 19.01.14

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Sol com Lua dentro.

Eclipse da razão, do verbo habituado, da divindade.

Suspensão da imortalidade: medo de morrer-me sem saber(te).

A claridade num limbo, adivinhada, fina - um excesso.

O centro sombrio, secreto, provocador - o que eu quero.

Olvido a dor, ela só. As certezas não, elas plurais.

À meia luz. Amei as minhas fraquezas. É meia vida, aquela que não tiver sonho.

Sonho-me sonhando-te sonhando-nos - o beijo, inteiro.

Num diáfano confinamento. Musicado, encenado. Inominado.

 

 

 

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Cabeça nas nuvens

por Torradaemeiadeleite, em 17.01.14

 

Para sempre fã de Carl Sagan.

Para sempre uma curiosa da nossa história que implicitamente contém a do universo.

Enquanto houver terra e mar, perguntas para fazer e mundos para sonhar.

 

 

 

 

P.S.: Dez episódios, um tributo a Carl Sagan, também em saganseries.com.

 

 

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De Magris, sobre a utopia

por Torradaemeiadeleite, em 14.01.14

 

Da entrevista de Ana Sousa Dias (ASD) a Claudio Magris (CM), revista LER nº130.

 

"(ASD) : Defende "um verdadeiro Estado europeu", defendeu-o aliás quando discursou na entrega do Prémio Europeu Maria Helena Vaz da Silva...

 

(CM): ... sim, um verdadeiro Estado, como o Estado italiano, ou o francês, ou o português.

 

 

ASD: Acha mesmo que é possível criá-lo? Não é uma utopia?

 

 

CM: Uma utopia não é necessariamente uma coisa abstrata, ingénua. Para mim, a utopia é uma necessidade muito realista. É como o caçador que para matar a lebre tem de apontar para dois metros à frente, porque só se nos projetarmos para diante podemos atingir os objectivos.

Creio na necessidade de uma utopia razoável, irónica. Não podemos limitar-nos a obedecer à chamada "realidade". Porque o que nós consideramos realidade, todos nós, é a realidade mais recente, a última, imutável. Do ponto de vista psicológico, somos todos conservadores cegos. Não acreditamos realmente que o mundo, tal como estamos habituados a vivê-lo, possa mudar."

 

.

 

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Janeiro II

por Torradaemeiadeleite, em 12.01.14

Fotografia de Torradaemeiadeleite. Porto, Janeiro 2014.

 

Aqui, contornos de solidez e altura que ensombram penosas ruas, e lá, a perspectiva translúcida, onde o Sol se aperta e empurra.

É diáfana num tempo e soturna em outro, a dualidade que um corpo desta natureza de amanhecer e de poente com a eternidade de permeio deve forçosamente manter.

Emoção de pedra e de atmosfera, de encontros com a ancestralidade sob o peso dos estratos e da indómita vontade. Mais alta. Mais forte. Desde sempre cidade, timoneira, será incansavelmente invicta enquanto o tempo for tempo e o mundo um rabelo a navegar.

Fere-lhe a vaidade não ser capital, mais agora, inflamada por desejos estrangeiros que lhe ofertam elogios e prosas. Seguirá porém a marchar no seu próprio passo e sem submissão, espalhando em cada gesto dos seus amantes a contemplação, o orgulho e os requebros na voz. 

Não a corrompo com a imagem de si própria ou com o que julgo que quer ouvir. Não. Tento-a com mudos galanteios, respirando só um provocador silêncio, e ganho vida em vê-la quebrar a pose, pouco a pouco, porque não adivinha o que eu sei ler na sua pele.

 

 

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Tempo frio pede quentura

por Torradaemeiadeleite, em 09.01.14

 

Arousa. Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Cinco anos volvidos e do lustro de completa ausência física nasceu uma nova Arousa, a da cumplicidade. Assumindo já o direito de ser ponto de encontro estival, este rechan galego reservou encontros e partilhas que, vislumbro, não estão ainda resumidas.

Os primeiros êxtases levam os segundos e os terceiros, e mais quantos uma rede de amizade pode apanhar. Assim nas margens das águas transparentes, idas e regressadas com as marés do Atlântico, permanecem pegadas que nenhum tempo pode lavar.

"Mira, uã de mexillóns pa Portugal!", sim, o prefácio para um livro de honesta volúpia. É bem provada a comunhão à mesa que a nossa espécie cultiva, negócios e amor, amizades e sonhos tantas vezes construídos com a perenidade dos sabores. 

Culpada de não menosprezar este manancial sensorial que um acaso cósmico ( e quem é Deus? ) me permitiu, vivi a ilha de uma forma diferente daquela de 2008, ano em que a conheci.  Degustar, rir, apimentar, fintar o Sol nas horas quentes, aconchegá-lo nas horas do nascer e do morrer, torturar os pés nas conchas volvidas ocas, conhecer pessoas, embalar a amizade, caminhar e pôr as cañas a correr, charlar ( muito ), respirar a sombra do pinhal a estalar de calor, musicando batucando, ler, sugerir, descansar, descansar, descansar.

A vida não deve jamais esgotar-se nestes breves testemunhos, mas as horas de Arousa rodaram sobre si mesmas com pronúncias lusas, galegas e apetites exemplares, numa justiça que as faz assim, sem pecado.

Nós, natureza, quem se atreve a separar-nos? Uns com os outros mitigámos os males do Mundo, por breves dias, numa pequena ilha, uns com os outros, deixámos as conchas e explorámos caminhos que nos levaram de regresso a nós mesmos.

 

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Tetratentação

por Torradaemeiadeleite, em 06.01.14

 

Depois d"A Paixão" e de "Cortes", a inabalável certeza de querer "Lusitânia" e "Cavaleiro Andante". Dizem que é uma tetralogia, nomeada Lusitana, de Almeida Faria. Para mim, é a descoberta de um novo mundo literário e, como nos descobrimentos, só me apetece mais e mais resolver a sua desconcertante raridade.

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

 

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Espírito de Ano Novo

por Torradaemeiadeleite, em 02.01.14

 

   

"Ousar é perder o equilíbrio momentaneamente, não ousar é perder-se."

 

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