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Apetece-me fazer uma birra

por Torradaemeiadeleite, em 26.02.14
Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Em três dias passei de um estado de quase delírio a este de amuo de criança a quem foi prometido um brinquedo, desejado há muito, e que agora se confronta com um "olha, afinal não, não me apetece dar-to". É o efeito APEL - a Feira do Livro do Porto tinha sido anunciada para este ano na Rotunda da Boavista, mas voltamos a um impasse e à quebra de confiança.
Uma das memórias que prezo é esta dos livros na Rotunda,  com a minha mãe,  onde me estreei a escolhê-los para levar, e um deles foi este, "As Origens do Homem" de Richard E. Leakey ( Ed. Presença ), que dá rosto ao meu desabafo. Foram 520 escudos muito bem empregues, mãe. Deste voei para outros à roda do tema, em diferentes escalas e perspectivas, e nunca esta curiosidade sobre nós se deu por satisfeita.
Por um dia, tive a esperança de lá voltar com o meu filho e com os meus pais, por um dia. Nesse dia acreditei.
Será que o entendimento entre a APEL e a Câmara Municipal do Porto é possível? Terá a feira que nascer de outro modo? Então que nasça e cresça saudável. Eu quero o meu brinquedo, já.

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Intervalo Musical

por Torradaemeiadeleite, em 25.02.14

 

"Suzanne" de Leonard Cohen interpretada por Nick Cave.

 

 

 

 

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Revisitar o Entroido

por Torradaemeiadeleite, em 24.02.14

( Fui ao sótão buscar um texto que escrevi e publiquei no blogue há um ano a propósito do Carnaval de outros tempos. Sacudi-lhe o pó, distribuí alguns pormenores na roupagem e reedito-o com o mesmo pretexto, celebrar e recordar. )

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Entram os farrangalheiros com cara rendada e andrajos às cores, uma ponta arriba e outra abaixo. As vozes alteradas adensam o mistério. Os tchistes cabeludos soltam as gargalhadas, mais os saiotes garridos que sacodem o ar pesado do fumo do lar, as momices com pernas e braços a gingar ou então não, se o actor faz de velho que manda paulada em tudo que mexe porque lhe aborrece tanta genica dos outros.

Ai que fronças esta da panoleta às flores, voz fininha de cana rachada, cinta redonda de pipa pesada. Ai não é esta, é este -  deix'ás moças ca lebas uã arrotchada! Chora o enjeitado, leva o mandil à cara p'ra secar as lágrimas ruidosas de tanto responso aturar, e desabafa com mui dramática pena, que ninguém o quer, que tem corpo airoso mas pernas de garabato, escatchadas e tortas de tantos anos bailhar.

Batem com os socos no sobrado, acertam sentidas galhetas uns nos outros e encenam desfile de namorados que vão à Vila casar. As perutchas de papel a abanar no cocuruto  vão também sem parar e seguem o ritmo dos saltos, aprimorando o  fato já de si galhofeiro, um prolífico atentado à elegância e ao bem trajar.

Saem p'ró caminho, lá vão aos tropeções. São velhinhos arrebitados que ainda roubam moças p'ra dançar, vão pelo braço a morrer de riso, melhor fora se para longe da vista dos pais.

Chegam outros a desfilar as caretas de cavalo, de bicho medonho ou de diabo com dentes arreganhados, não são só os dentes, é o demo também no corpo ou corpo de demónio à solta, à procura da beleza fresca para tentar e condenar. 

As varas e cajatas, os chocalhos e as campainhas anunciam de longe tão grotesca chegada. Vem a canalha à roda tentando  desapossá-los de tudo o que têm, destituí-los do medo, do poder e das proibições. Desassossegados, urrai agora vós da desfeita que vos fazemos, ide corridos, ide perseguidos batendo os calcanhares no farto e disforme rabo, ao menos uma vez provai vós o amargo gosto da humilhação. Libertador.

Nas eiras, nas casas e pelos caminhos a cirandar noite adentro sem parar, correm aos lugares de fora para que ninguém fique privado do folguedo. Quatro dias com sete bailharicos p'ra cumprir, o tocador à mercê da mocidade que roda e roda, esbanja energia e bebe do vinho. Nos campos não andam eles assim, não, que é preciso picá-los co'aguilhada para pôr o trabalho em dia.

Dias fartos de borga, de carnes e de pão, aguardados com ansiedade e celebrados com fantasia. Quem dera não acabassem nunca. Dias que não emprestam qualquer outro cuidado para além deste de celebrar o corpo vivo.

Saíram de vez os farrangalheiros da cara rendada. Levaram os andrajos, as perutchas e o mandil. Levaram as provocações e a vontade de virar o mundo ao contrário. Deixaram a noite. Deixaram a mudez.

Tivessem, ao menos, levado a morte e o medo com eles.

 

 

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Um desenho com vontade dentro

por Torradaemeiadeleite, em 19.02.14

 

Desenho de "Mini Me".

Num pequeno bloco de notas misturam-se bem os momentos de pausa - os que permitem sair das tarefas sem deixar o lugar e os que são geograficamente errantes. Mas visto o bloco com a têmpera do tempo, essas instantes revelam-se eles próprios como actividade principal e tudo o que aconteceu à volta foi só a desculpa para existirem. 

Apontar para lembrar. Registar para ser. Mesmo emprestar para deixar acontecer. E foi assim, por empréstimo, que nas folhas habitualmente minhas, apareceram também as expressões de outra mente. Porém, tolerantes as duas vivências, nenhuma reivindica protagonismo. Desde cedo trocam a vez e, cada uma com o seu espaço, fazem o melhor que podem e que sabem.

Primeiro por imitação e agora porque simplesmente sim, as suas mãos reproduzem o que as circunstâncias oferecem. Não é preciso complicar, o que a impressão fixou é o que transparece nas páginas que perdem os limites e agregam diferentes mundos. Assim vivem os retratos da cidade com as figuras da fantasia lírica e assim o rosto secular que cerca a praça suscitou a diferença que se quis memorar.

E eu leio um pouco mais neste singelo diário de pausas. Nos registos breves das pedras e dos traços, reproduz-se inconscientemente a história das cidades, fixa-se fragmentos que unem eras distintas. A criança de uma outra época acrescentaria à torre os cavalos e as diligências. A minha reproduz os automóveis, os sinais de trânsito e os edifícios justapostos. A torre sempre fascina com o seu traço recortado altivo, é a impressão fixada. Contextualiza o espaço, lembra que o tempo passa, que o espaço se transforma e que nós não percebemos sempre a sua progressão.

É provável que daqui a mais anos a torre ainda aqui esteja e à sua volta drones e pequenas naves voadoras. Outro desenho, a mesma espontaneidade. Ou então uma redoma. Também será normal. Pode inclusive nenhuma pedra ou qualquer papel permanecer e ainda assim algum registo há-de ser feito. E leio então a única variável que poderá parar a cidade e a sua história - a extinção da vontade, ou do homem, que é uma e a mesma coisa.

 

 

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Exílio

por Torradaemeiadeleite, em 14.02.14

 

 
Fotografia de Rui Palha.

 

 

Perdido, talvez. As fisionomias comparam-se mas são imprecisas. Parecia perdido e não era nem estava.

Dissipava-se a neblina e todos se moviam para lá dos que assumiam a imobilidade num banco, numa esplanada, no degrau da estátua, na paragem do autocarro, sem dúvida estando, falando, bebendo, pasmando as gerundiais existências, mas ele não. Suspenso com os pés no chão. Despropositadamente não vi banco, cadeira, estátua e paragem. Assim estava, sitiado em terra de passagens, de corridas e de nenhum transbordo. Homem, aliás, olhar, que mudava, sim, o olhar que escrevia, irrequieto saltava. Nenhuma cegueira, vos garanto. À sua frente o vento, por cima o Sol. Eu sei o que fazia. 

Resolutamente vertical, pescoço direito exposto ao ar e à avenida, as mãos guardadas a guardar o tempo que em  larga curva e imprecisa fisionomia demorava. Nem o vento mudou, nem o Sol dançou. O olhar, sublimou. Generosamente redondo revelado, finalmente fixou. O corpo não, deixou o chão. Perdido não era nem estava. Momentaneamente incompleto. Com os lábios dissolveu a ambiguidade, com os dedos resolveu o ser. Exílio ainda, mas com duas figuras dentro. Movimento em volta, circular, retornando. E logo pronto, tudo assim  invertido, era fora o exílio e dentro a perfeita morada.

 

 

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Musicalidades

por Torradaemeiadeleite, em 12.02.14

 

The Cinematic Orchestra - All that you give.

 Voz de Fontella Bass.

 Do álbum "Every Day" de 2002.

 

 

 

 

 

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Palcos

por Torradaemeiadeleite, em 10.02.14

  Fotografia de "Garl".

 

 

Reflectido na janela, um teatro adivinhado.

A paisagem urbana betonada explicita-se nesta hora em pretérito-perfeito: findou, desesperou, falhou. A visão alcança-a ainda sem ajuda de mais luz, directa e imanente, só que não lhe empresta muita atenção. É o teatro mais modesto, o do tamanho das janelas, que atrai sem outro remédio que não seja o de olhar. O que se vê são peças de puzzle desavindas, uns recortes, sombras, as semelhanças dos objectos que ali se despem das suas formas - onde cabe a árvore, caberá afinal a nuvem, onde as casas se perfilam, torres de reclusão e ameias de castelos se repetem, na continuidade do céu levita uma grua, no pôr-do-sol mergulha um sol-nascente sem que nenhum outro ponto cardeal o possa evitar e mais actos se seguirão com o aquiescer do fim do dia.

No mundo à volta não se desprende qualquer paixão ou é proposto qualquer desafio, mas no teatro reflectido nas janelas, o dos fragmentos indefinidos,  uma urgência voyeurista cresce, vem da disforme concepção, e é urgente como a atracção de um poço sem fundo, como as ondas de luz que assomam num abismo.

O Sol poente-nascente sumido, que breve dia, deixou devagar o reflexo sem contraste, dita finalmente borrões amorfos. Mas a cena ainda deve e não cessa de sugerir. Do fundo escuro aparecem pontos brilhantes e entre eles tudo pode ser. Dar forma, curar, sôfregamente dissolver, sentir, apaziguar: agora, a imaginação é arquitecta caprichosa, cativa do paradoxo, fonte sedenta de criação. Para a plateia curiosa, os actores principiam a função maior, o teatro das janelas vai aludir novas e reiteradas memórias. Lá dentro principiam os dramas, os de sempre, redundantes e seculares mas é a mente e é o corpo do espectador, com tudo o que este experenciou e guardou que darão aos actores a oportunidade de serem reais e primordiais.
As horas adensam-se e o clímax resolve-se. Tudo cessa até ao dia seguinte. À mesma hora, no mesmo palco, talvez outras plateias, as mesmas novas alegorias
.

 

 

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Dar a volta ao bloqueio

por Torradaemeiadeleite, em 05.02.14
Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Quero escrever e na estação não está nenhum comboio para partir. Podia a minha viagem começar de outra forma, num périplo citadino, por exemplo, que é quase infalível. Quero escrever, aconteceu-me, e escolhi a estação, não sei porquê. Embirro aqui na gare vazia com frases que querem compor-se sem qualquer carruagem e máquina que as puxe.

Parece terra de ninguém e ninguém veio ver os comboios, foram avisados que não haveria. A mim ninguém me disse nada. Desconfio, aliás, que avisada eu teria mesmo vindo, para ver o absurdo, um local de tantas palavras, as que chegam e partem nas malas e sacos, nas bocas de quem as não complica, no silêncio de quem as não realiza, palavras lançadas ao ar em chamadas e informações, local agora votado assim ao nada e à desinspiração. Só não sei se é temporário, não aparece ninguém que tenha sido avisado para eu lhe perguntar.

Insisto. O vazio fora do lugar ( se há lugares para o vazio morar sem espantar ) estendido num centro de viagens. Quero escrever e é aqui que o tento, porque às vezes sou teimosa e do nada quero que algo apareça. E algo apareceu. Por querer escrever e insistir na estação fracturei o ar e levantei a poeira fina arrastada da rua belicosa e buliçosa, ninguém aqui se atreveu a entrar mesmo com as portas escancaradas, afugentei o vazio e preenchi-me duma gare fria com sol mortiço. Alguém que espera e aquece as mãos com o bafo, torvelinho de ar quente com miríades de átomos mal iluminados, corpo inteiriçado de pés juntos e ombros encurvados. Olhos na rua. Mesmo sem tecto, a rua parece mais quente que esta monumental ode às não viagens. Mesmo sem carris, a rua parece mais eficaz a resolver distâncias que este literário espaço de fuga e chegada.

Continuo a quebra do vazio com as aves que acordaram tufões nas asas apressadas, corpos descendo atraídos, ruído flap flapante. Quem espera desespera, apertei nas mãos o papel e desfiz em farrapos a viagem que era para começar, migalhas parecem, só pombas iludidas atrás de migalhas caindo, e do texto - que aparece?

Nem comboios, nem viagens. Só queria escrever.

 

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Peripoemando

por Torradaemeiadeleite, em 03.02.14

 

Fotografia de Eugene Atget, 1901.


"Eu contarei a beleza das estátuas - Seus gestos imóveis ordenados e frios - E falarei do rosto dos navios Sem que ninguém desvende outros segredos Que nos meus braços correm como rios E enchem de sangue a ponta dos meus dedos." Sophia de Mello Breyner Andresen, Eu Contarei. Em "No tempo divivido" (1954).

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Os meios de comunicação social

por Torradaemeiadeleite, em 01.02.14
Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Não foi assim há tanto tempo. Bom, é uma maneira de dizer, se há assunto que se presta a relativismo é este do tempo, mas percebo que a evolução tecnológica se dá por saltos.  Passinhos de bebé, lentos, hesitantes, ora para a frente ora parado ou a voltar ao princípio são mesmo próprios do bebé e, para já, iguais em todas as eras.

E é então nos saltos que sou apanhada de surpresa, não que me espante por ter vivido em anos que não contemplavam o uso banal de computador e telemóvel, mas surpresa porque percebo o vórtice em que me vejo mergulhada, sem saber o que prever, e procuro postes fortes onde possa apoiar-me um pouco e respirar, para de novo ser apanhada. Aqui pouco importa se quero ou não ser parte do vórtice, essa é outra abstracção.

Já se vê, este é um clássico das conversas da minha geração, a das transições de épocas, de modos e costumes, aqueles que ainda viram e viveram num teatro centenário no qual agora são empurrados, abanados, forçados mesmo a actuar, ou então ameaçados - fora de cena quem não é de cena. Geração das tantas certezas que nos contemplavam, tantas quantas as dúvidas que agora nos assistem em relação ao futuro, o nosso e daqueles que damos ao mundo.

Dou conta que a introdução vai demorada, ela própria já basta como reflexão e recorre a piscadelas de olho à actualidade nacional - as voltas que isto dá, não foi assim há tanto tempo, dizia eu. Assumo estas deambulações, seguem pelo caminho mais longo, como as deambulações devem seguir. Assumo que dialogo com o teclado e com o ecrã quando prefiro a conversa de viva voz com os olhos a embelezar os diálogos. Mas é abraçando esta espécie nova de comunicação que assumo ainda o desprezo pelo monólogo, porque estas palavras podiam morar só nos meus cadernos mas é nos vossos olhos que o fazem. Estas palavras, assim nadas e criadas, têm quem as leia e a conversa pode mesmo fluir, começa na minha cabeça e nos meus dedos e percorre o espaço de quem lhe presta tino.

Sobre este tema das novas tecnologias e meios de comunicação ou qualquer outro que escolha iluminar aqui, discorre esta certeza de que comunico cada vez que escrevo no Torrada. Sim, quando não é possível noutro lugar, invento o meu espaço de tertúlia com a ajuda dum computador e a certeza dos que me lêem.

E talvez o vórtice seja menos vórtice assim, quando eu encontro postes de segurança nestes pensamentos assistidos. O tempo e a distância mais curtos - ou mais fáceis de percorrer.

 

 

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