Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Na mesa do lado

por Torradaemeiadeleite, em 29.04.14

 

 

Columbano Bordalo Pinheiro - "O Grupo do Leão", 1885.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Das minhas leituras

por Torradaemeiadeleite, em 28.04.14

 

Sobre os homens de letras, esses seres perigosos:

 

"(...) tem febre nos canhões, não presta. Não voltámos a ouvir-lhe aquela frase até depois do ciclone, quando promulgou uma nova amnistia para presos políticos e autorizou o regresso de todos os desterrados, excepto os homens de letras, claro, esses, nunca, disse, têm febre nos canhões como os galos finos quando estão a emplumar, de maneira que não prestam para nada a não ser quando prestam para alguma coisa, disse, são piores do que os políticos, piores do que os padres, imaginem, mas que venham os restantes, sem distinção de cor, para que a reconstrução da pátria seja uma empresa de todos, (...)."

 

 

De Gabriel García Márquez, em "O Outono do Patriarca" ( ed. Dom Quixote, 5ª ed. Março 2003 ).

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Breve história das pedras

por Torradaemeiadeleite, em 26.04.14

 

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite - Castro Laboreiro.

 

 

Prontos mundos, germinado verbo.

O granito em estado selvagem e o granito domado.

Grande o génio, maior o tempo, infinita a poeira que em tudo é.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

As asas servem para voar

por Torradaemeiadeleite, em 25.04.14

 

Gravura de Albrecht Dürer, 1512.

 

 

Aqui está uma casa iluminada num promontório obscurecido, que tem palavras imóveis no momento em que deveriam sair, a adiarem indefinidamente os seus passos, privando-se de circular mundo afora até que o cansaço as esgotasse, ou a vontade as saciasse. Mudas, paralisadas, sincopadas, na soleira da porta da casa que resplandece.
Precisarão de energia, uma forma qualquer de energia que seja eficaz para resolver desacertos de movimento. Até empurrá-las servirá, a pontapé irão, ameaçadas com castigos antigos, riscadas em azuis, torturadas. Terão de ir porque ficar é um despropósito. Estáticas, congeladas, catalépticas. De que serve podermos sair se não nos aventuramos para lá da soleira da porta?

Estão cegas pela escuridão, é isso, ou então será um vento forte ou uma chuva invisível sem tino que arrepiam mais porque só são sentidos por dentro; detidas aqui na porta, mas desejando uma oportunidade para caminhar.
Algo mais, porém, me
desconvence destas hipóteses de imobilidade e levo-me a espreitar para além delas e nenhuma razão palpável acolhe os louros da impossibilidade que me arrelia.

Procuro então outros motivos, outros que talvez lhes atenuem a culpa de não se mexerem, outros que não precisam de corpo para se manifestarem e existirem.

Sinto que estão muitas outras palavras lá fora, invisíveis após tanto desgaste e mau uso, teimosamente avolumando-se como um ar pesado que não vemos mas ocupa todos os lugares, palavras destituídas de poder e empoleiradas umas nas outras. E saudosas. Palavras em desuso e remetidas para a memória. Inconformadas. Palavras que ninguém quer voltar a ouvir e palavras abandonadas. Estão encurraladas à porta de uma casa que não quer readmiti-las e rejeitadas por um mundo que quer progredir. Ocupam uma área de eterna transição. Não podem entrar e não querem deixar sair.

Há ainda outra hipótese, menos evidente e mais abstracta que explica o inusitado fenómeno da casa iluminada com palavras que não saem. Acredito que pode nem haver chão para lá da porta e será a evidência duma queda livre sem fim à vista que torna as palavras angustiadas, a certeza do embate que espalha a sua densidade e multiplica o desvario da queda, que faz das palavras umas temerosas súbditas da morte e da incompreensão, que são uma e a mesma coisa no mundo verbal. E assim, desejosas de escapar mas manietadas pela incerteza do que será ainda, não avançam para lá da soleira da porta, tementes duma força invisível que deixa lastro mesmo quando ameaça afundar-se de vez.

Eu quero construir-lhes umas asas. Se não há chão seguro para pisar, invente-se alternativas para sair. Cada uma das palavras teria modo de escapar à queda com voo impressionante, descoberto efeito planante, só para que renasçam do lado de fora da sombra de si mesmas.

E atentemos: que não espante a ausência de chão que provocou esta invenção escrita. As casas das letras são construções inusuais. Tenho mesmo por evidência segura que crescem em altura mais do que muitas outras construções pensadas como sólidas e inabaláveis, imutáveis - alongando-se dos seus alicerces, vão até aonde a gravidade não pode ter qualquer acção sobre as coisas, aonde as palavras alcançam transcendência e perdem o medo de cairem num fim ou embaterem nos atavismos da História.

A casa das palavras deverá ser livre para seguir a inacessibilidade das alturas do pensamento.

Muitas palavras são caladas, ameaçadas, ignoradas, humilhadas, desmembradas. Mas a liberdade tem asas de perseverança, e as asas, as asas servem para voar.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tempo para uma salada

por Torradaemeiadeleite, em 23.04.14
Pintura de Rogério Ribeiro.

 

No meu amado ajuntamento de lombadas, que eu insisto em transformar em biblioteca pessoal, noto uma correspondência com os objectos de estudo da Filosofia ao longo do tempo. Poderia parecer uma vã glória ou o intento duma vaidade começar, assim, este texto piscando o olho ao sublime mundo do saber. Mas não, não é, de todo. É uma partilha - duma coincidência ou, esticando as minhas hipóteses, da constatação de uma caminhada individual que mimetiza aquela que a humanidade empreende desde o seu nascimento. Mas veja-se, em traços largos e descomprometidos, ao sabor do meu momento e dando graças à indulgência dos que me lêem:

No princípio, agarrei-me às lendas e à revelação dos mistérios pelas narrativas orais que, vindas de outras gerações, me incluíam num grupo particular e me preparavam o conhecimento dos limites do nosso mundo. Mas mais tarde, porém, já na posse da leitura autónoma, eram outras as razões que eu queria conhecer, aquelas que não cabiam num lacónico "é assim e pronto!". Esquecer o Lobo Mau, que não tinha assim tanta barriga para caber lá dentro uma avozinha, foi o mais fácil.

Quis conhecer a terra, o mar, a natureza una, embora coberta do manto da diversidade, e o céu também, que restringir-me à terra parece pouco e finito, e com isto na ideia, fiz as minhas primeiras escolhas de livros, para saber de que é feito o negrume do espaço e o coração da Terra, donde vieram tantos seres e que coisa sou eu no meio de toda esta exuberância celeste.

Daquilo que me rodeava, voltei-me depois para a matéria finita que me compõe e, quase, quase de imediato, o porquê da minha mortalidade. Da evolução natural aos microscópicos componentes, dos cinco sentidos e do método científico à fresta aberta para a alma, andei por caminhos obtusos, rectos e agudos, perdida nas escalas, mas achada na beleza de tudo. Li o Carl Sagan e o Stephen Hawking, a Margulis e o S. J. Gould, devorei tudo pensando que saciaria enfim a fome. E viesse sem demora a psicologia e os que estudam sentimentos nos animais e o animal no homem, que eu quero perceber que é isto que tenho cá dentro, e tu também Damásio, traz luz a este ignoto recanto do meu ser.

Da razão ao espírito e do universal ao individual, eis que passou só um instantinho. De adolescência utópica também padeci, oh aulas de Filosofia, que danos causaram em certezas que, com firme vontade, eu tomara como inabaláveis. Liberdade, fraternidade, justiça, pensamento, moralidade - quem me explica o mal que vai no mundo e ainda aquele ser, dizem, que nos fez e logo nos abandonou nos braços do acaso e de nós mesmos.

Foram e vieram as teses, uma dose de "contra-teses", tantas perguntas, que transcendência, não percebo porque me dão a provar um gosto de eternidade para logo depois me condenarem a não viver mais.

Poesia, até que enfim, que bom encontrar-te, vejo que não sou a única com tanto a considerar, mas tenho pressa, vou deixar-te para depois, quando todos os outros saberes se esgotarem e eu confirmar que só tu podes fazer tanto para me sossegar.

Muito ruído e tão pouco tempo, ínfima luminosidade, espaço que aperta, em que buraco me meti, porque comecei a perguntar? Bem, ainda não vi na ficção. Científica? sim, também é um caminho mas, se ainda me perco com o presente palpável como vou orientar-me no amanhã imaginado? Vejo a outra ficção. Saramago, onde é que tu andavas, senhor, e olhó Kafka, como te lembraste dessa do escaravelho, e que é isto Sepúlveda, um velho que lia romances de amor, Joyce, anda cá, isto lá é maneira de saber do tempo, olha o Proust, esquece, tens razão, este passou-se e ninguém o entende. Pois sim, Borges, quero uma biblioteca como a que tu sonhas. 

Quero de tudo e de todos os géneros e continuar a perguntar.

Um facto, enfim: fui apanhada por um vórtice e não consigo, não quero, sair dele. Apetece-me ler o que antes se escreveu e influenciou tantas mentes a ousarem as profundezas da consciência, da memória, do conhecimento científico. Apetece-me ler os mistérios do amor e do tempo, as intermitências da morte, o que diz Voltaire e, porque não, o Molero. Quero ir à Grécia para beber dos clássicos, e depois irei ao fim do Mundo para continuar a surpreender-me. Nabokov, esta fome não ta perdoarei, tanta culpa que tu tens.

Pode ser que me encontre à beira do desnorte, mas até isso é como na Filosofia: a "fome" do absoluto e um ser para sempre inacabado, equilíbrios em desiquilíbrio, perguntas que levam a mais perguntas e a fugidias respostas.

Acabe-se a risota, pronto e ponto. Agora é sério - saber, saber, ainda não saberei nada, mas desconfio que progrido ( sim, sim, agarro-me a isto para não desesperar e, entretanto, venham mais livros que a minha biblioteca tem ainda muito por onde crescer ).

Mais uma torrada e meia de leite, se faz favor.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Na mesa em frente

por Torradaemeiadeleite, em 19.04.14

 

 

Almada Negreiros, "Auto-retrato com o grupo da Brasileira" - 1925.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Gabriel

por Torradaemeiadeleite, em 17.04.14

 

Não citarei as suas palavras e não replicarei as fotografias, os elogios e as memórias pessoais, a admiração por Gabriel García Márquez, as crónicas e reportagens, as homenagens que darão a volta ao mundo, por vários dias, em diversas línguas e registos. Sou mais uma admiradora das suas letras, redundantemente arrebatada pelo seu génio. Mas fica-me esta vontade de escrever sobre uma coincidência - esta de o dia em que conheci o final de "O Outono do Patriarca" ser o mesmo em que o autor, ao contrário do despótico general do seu livro, se libertou dos limites da morte e prolongou a sua vida pelos espaços da memória humana. Quem vive assim jamais morre.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O voo de Lúcio

por Torradaemeiadeleite, em 14.04.14
Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

Foi o vento, o menino, foi o vento que o levou. Pareceria uma brincadeira  se não tivesse mesmo acontecido, mas viam agora que outra coisa não seria expectável e, contudo, ninguém alguma vez o tinha sentido tão a jeito da ventania. Lúcio tinha um corpo tão leve que mais lembrava ar com forma de gente do que gente pesando passos em cima da terra. Ter-lhe-iam colocado pedras nos bolsos, tê-lo-iam atado com guitas ao pé da mesa e às cadeiras, tê-lo-iam engordado com pedacinhos de chumbo nas bainhas da roupa e  teriam até feito dele uma bandeira se o amarrassem dignamente a um pau. Mas não, nada assim foi resolvido porque nada de tão insólito foi considerado possível à partida. E como sem partida não há chegada, onde estaria agora a criança e a que sítios iria parar, sem lições de voar e muito menos de aterrar, que fosse pássaro ao menos, que fosse nuvem, poeira ou balão, e teriam mais certezas do que assim, vê-lo infância sem tempo, estrela nova numa vastidão de céu a brilhar.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Intervalo atmosférico

por Torradaemeiadeleite, em 08.04.14

 

 

Bem podia ser hoje - esta praça, ao sabor duma torrada e meia de leite, a mirar os brilhos primaveris e estudando o bulício portuense.

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite, Praça de Gomes Teixeira (quem?) - Praça dos Leões, carago.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Pequena história com cão

por Torradaemeiadeleite, em 06.04.14

 

 

Eadweard Muybridge: Animal stop motion - Dog Running, 1887.

 

 

Temos tempo. Disseste assim sem hesitar a única frase que eu precisava de ouvir. E o tempo estendeu-se pelo chão e pelas paredes, cobriu o tecto e as janelas, viu-se aos espelhos e sentou-se às mesas, ousou os colos de quem ali estava e extravasou pela porta que era a única saída possível. O tempo expandiu-se na rua, sem ter forma nem precisar de força, chegou a todos os cantos e dobrou todas as esquinas, subiu no ar e preencheu todo o céu, brilhava com o sol e chovia com toda a água, adensava o nevoeiro e soprava nas avenidas. O tempo estava em todo o lado e não havia lados que o pudessem conter. 

Veio o empregado com a conta, mas quem a pediu, senhor, já é noite, temos mesmo de fechar a porta, deixar o tempo no seu curso habitual e prontamente sair. Que seja lá fora então, preciso mais de te ouvir, temos tempo, ainda há tempo, disseste assim sem hesitar, há mais tempo cá fora do que poderia haver se nos deixassem estar a sós ali dentro. Fomos pelos caminhos que a cidade nos propunha, andámos pelos passeios que ainda serviam tempo e pelos jardins mal iluminados em cujas folhas e flores primaveris a descansar pendiam o tempo que eu queria e as palavras que dizíamos. Espalhámos os gestos e sussurrámos os olhares na via sacra deste velho e húmido e pesado burgo, tudo mirrando atrás de nós que não víamos o oxigénio que roubávamos por usar o ar tempo demais, para a frente, só para a frente olhávamos e um para o outro sem de mais nada cuidar.

Até que um cão embateria em nós, e vinha a correr a única espécie que vimos com meios para autonomamente se mover, não tivesse acontecido o estranho caso de passar incólume através da matéria que nos compunha e seguir a correria por onde tudo já definhara. Foi um vento que senti, foi um frio que me gelou, foi a abrupta interrupção do apressado animal lá longe onde tombou a arfar e a espernear de corpo deitado sem ar para respirar e com a agonia e o último estertor que me sacudiu a atenção.

Fiquei de novo à tua frente na mesa vidrada que reflectia o tecto, olhando-te sem perceberes enquanto viravas a asa da chávena para a tua mão direita e espreitavas o relógio discretamente revelado pelo punho da camisa. Tudo tilintava e a televisão acompanhava com desprezo os pedidos que seguiam e ocupavam o ar que devia conter o meu tempo, a minha vontade e a minha sede de te ouvir dizer temos tempo, ainda há tempo e todo o tempo é só para nós.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Siberiana

por Torradaemeiadeleite, em 05.04.14
Fotografia de Sebastião Salgado - tribo Nenet, Sibéria.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Êxtase

por Torradaemeiadeleite, em 01.04.14

 

Pormenor de quadro de François Boucher - O Banho de Diana, 1742.

 

Abeiras-te do rio e nele entras devagar. É meu o reflexo da agitação na tua pele. Os brilhos ondulantes, as cicatrizes domadas. Tens deuses e mitos que voltam à água e da água até às estrelas, onde o absoluto começou. Nada mais me importa. És tu e o teu balanço perfeito, no leito líquido que te renova e dissolve o cansaço.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Related Posts with Thumbnails




subscrever feeds




Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Torradas com bolor

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D