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Intervalo selvagem

por Torradaemeiadeleite, em 30.06.14

 

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

 

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A demanda

por Torradaemeiadeleite, em 28.06.14
"Great Expectation" de Susana Blasco.

 

Procuro perguntas. As que eu costumava fazer estão tão gastas como as respostas que vou desistindo de ter. Quase, quase a deixá-las ficar onde quer que caiam, é assim que me encontro. E sinto-me cansada, tanto assim que logo me entregarei à inércia. Tenho que formar outras perguntas ( será que tenho? ) e isto é outro grande esforço, cansativo também porque me manterá em corropio, mas este ao menos é agradavelmente extenuante. Será um movimento permanente até novo desgaste.

As respostas sei que não as terei em minha mão, não no tempo em que me deveriam ser úteis, e ainda consigo prever que se em algum dia se manifestarem será para eu me aborrecer. Mas as respostas são a miragem que persigo para não sentir que pergunto em vão. A curiosidade é uma força que me esteia.

Sigo ordens próprias para abraçar só uma dúvida, digo, uma só fuga para a frente de cada vez. Erráticas por modo de uma  natureza imprevisível, as dúvidas não me servem se as assumir todas a um só tempo, dar-me-iam uma mão cheia de angústia e pouco ar para respirar. Por isto as interiorizo pouco a pouco, num ritmo que me permita a ilusão e a esperança, pouco a pouco para não me encostar no canto, parada sem perguntar.

 

 

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O papel da revista

por Torradaemeiadeleite, em 26.06.14

 

Entre o primeiro e o número 25 estão dois anos de sementeiras da Blimunda, a revista digital da Fundação José Saramago.
Todos os meses a consulto e guardo numa pasta do meu ambiente de trabalho que só a ela lhe pertence e personalizei desde a primeira hora com uma árvore ( a mania é minha e o ícone é de muitos sentidos ). Chega Junho à sua recta final e despede-se com este agrado que será ter a minha senhora que vê o interior das pessoas e colecciona vontades em corpo de papel para eu folhear e ler com tacto e em contacto.
A partir de amanhã, dia 27, estará disponível nas livrarias a Blimunda nº25. A celebração assim o justifica e depois volta à morada digital.

Um número excepcionalmente raro. É pôr-lhe as mãos antes que fuja.

 

 

Imagem googlada.

 

 

 

 

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...

por Torradaemeiadeleite, em 24.06.14

"Talvez sejas a breve

recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora."

 

"Não o Sonho" de Manuel António Pina.

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite, balão de São João, 2014.

 

 

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Bamos ó Som Juom

por Torradaemeiadeleite, em 23.06.14

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite - Porto.

 

A Sé é linda e à sua volta a dissolução da sombra. Não há noite, só interminável o dia.

Onde o recorte dos Clérigos impõe o farol deste mar está a torre a cotejar alturas com os balões de papel. Atrevidos. Passam-lhe rente às pedras, ameaçam destruir-se e incendiá-la, mas é tudo artifício do mais trágico e cómico que as senhorinhas com sede de atenção conseguem encenar. Passam afectados em direcção ao Sul. Não querem que lhes toquem e por isso vão alto, quanto mais alto melhor, mas deviam já adivinhar o fim que os espera. Senhorinhas ou ícaros descuidados, ambicionando sem tino ser o Sol que ofusca a Lua quando hoje se exibe voluptuosamente, ela cheia e fosforescente dá nas vistas mesmo que não o quisesse. A Lua como uma lanterna emprestada que João não larga para ver melhor os festejos. Tenho vontade de lha roubar e deixá-lo a adivinhar, pelos cheiros e pelos sons, se é santo que convém ser-se numa noite com sentidos extravagantes. Dança menino, corre, salta a fogueira, leva na mão os ramos de cheiros e o alho-porro para provocar as moças, esbanja agrados, fertilidade e palavreado.  A noite ainda é breve para tanta vontade de ser.

Olhando da Sé, a multidão é pequenina. Escondidas da Sé, as ruas parecem pouquinhas.

A praça é um promontório sobre ondas de gente e ondas de bairros, ondas em escadarias, mais alto que o fumo das sardinhas lá em baixo a respingar gordinhas, atiçam o lume do Zé e ó moço! andas a dormir, bota aqui mais binho que já se m'arranha a garganta.

Em ascenção a música, o fragor das ruas, as conversas nas casas abertas à cidade, a risada, os martelinhos, em ascensão como os humores licorosos e mesmo o povo que chega à dimensão dum rei, que o é porque assim se sente. Não há fome, não há sede. Nesta noite ao menos, não há fome nem há sede.  São João do cordeirinho a todos dá providência e lembra, a quem quiser ouvir, que há reino nos céus e está ao alcance das mãos terrenas. É assim neste início de Verão.

Vendo da Sé, os astros caíram do infinito e estão cá na terra, nas roulottes de outro mundo e nos adereços psicadélicos que piscam em mandarim com sutaque do Puorto: corninhos de diabrete, laçarotes da rata "Mine" e mais uns o.v.n.i. que saracoteiam sem direito a nome próprio mas piscam muito, enquanto a pilha der, e é isso que importa. Céu de ficção científica e estrelas de plástico. Carago, não se sabe o mal que o santo fez para agora ter que aturar um carnaval fora de tempo.

Vamos a pé procurar outras luzes e roubar um bom lugar, olhó fuogo, filho, bem cá ber que já bai começar. O Douro ficou mais  escuro,  as suas margens também, a ponte apagou-se e está tudo a postos para um fogo prometido, mais vistoso que o de Prometeu, com música e sem castigo. Se o som fosse visível era aqui o seu lugar. Primeiro sobem as luzes num clássico ribombar, depois em rock e mais na canção inglesa, com a Adéle que está na moda e é muito cantada. Com tantas energias no ar, troando mais altas que a serra do Pilar, tanta explosão de estrelas e bichas a rabear, é admirável, é memorável o Big-Bang à moda do Porto. Olhá a ponte que chuba branca dá. Parece uma cascata, mãezinha. E é, uma cascata de brilho fátuo.

Visto da Sé, o rio não tem foz mas sabemos que ela está lá. É hora de dar corda aos bitorinos que a festa não acabou, seguir até ao mar e ficar por lá até o Atlântico clarear.

Agora sim, é noite. O areal finalmente adormece quando o Sol se atreve a acordar.

 

 

 

( nota: este texto foi publicado em 25 de Junho de 2013 e resgatei-o para este dia com algumas alterações )

 

 

 

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Quando o Sol pára

por Torradaemeiadeleite, em 21.06.14

 

 

Fotografia de Georges Dussaud.
Solstício de Verão.
Os dias com tempo, os dias com tudo.

 

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Interrupção do ruído

por Torradaemeiadeleite, em 19.06.14

 

 

Pintura de Nikolay Dubovskoy - "Silence has settled", 1890.

 

 

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Sobre o princípio e o fim num mar de palavras

por Torradaemeiadeleite, em 17.06.14

 

Fotografia de Joel Santos - Dettifoss Waterfall, Vatnajökul, Islândia.

 

 

A água escreve o mundo nas correntes e na espuma, nos lodaçais e nas chuvas. O verbo, porém, é pronto dissolvido. Na liquidez nada permanece escrito e poder-se-ia dizer que, mal nasce, o texto está condenado a ter fim. Só que desta natureza não se pode inferir essa certeza. E sem desespero, a água reescreve.

Não deixa de ser irónica esta condição de Sísifo da água escrevente, mais ainda porque carrega em si o advento de nós, os amos e servos da palavra, inventores da urgência de torná-la eterna, nós os que procuramos sentido: a angústia da solitude e um perene inconformismo não nos deixam actuar de outra forma; todavia a água faz e refaz, sem urgência e sem guardar. É o mundo que ela escreve e mais a continuidade e o retorno. A água é esta verdade - em si tudo é recomeço, muito poderá sobrevir. Que morte pode, assim, ser temida? Nem sequer a da palavra.

Na sua breve caligrafia revela-se o perpétuo adiamento dum fim e a inutilidade de uma justificação. Na água os textos escritos não acabam, só têm princípio e não cessam de existir.

 

 

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Sexta-feira 13 com lua cheia

por Torradaemeiadeleite, em 13.06.14

 

 

Pintura de Hiroshige ( Japão, 1797 - 1858 )

 

 

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Anotação para um mapa

por Torradaemeiadeleite, em 12.06.14

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Dobrei e guardei a folha na carteira. A revista é que perdeu, rasgada das suas páginas.

Eu ganhei um pensamento ao qual regressarei, desencontrada. Em meus desertos será um pensamento-bússola, em meus pélagos uma agulha de marear.

Porque identifico pontos cardeais nas palavras que outros escrevem, palavras que também são peregrinos que se revelam a quem se dispõe a acompanhá-los.

E guardei ainda a folha para mais tarde ouvir os silêncios e medir os vazios quando deles, como das palavras, dos pontos cardeais e dos peregrinos, derivam muitos rumos, uns para reflectir, outros para eu delapidar.

Para desenhar um mapa ou carta de marear - sirvo-me das palavras do papel dobrado e guardado.

Entre o que efectivamente estava escrito e o que era apontado, ousei uma leitura. Deu-me para sentir que minha dúvida não é desnorte, antes a sombra que no caminho refresca e renova e ainda o clarão celeste que reverbera infinito na esteira dum possante navio.

 

 

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Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

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Os dias que passam XVIII

por Torradaemeiadeleite, em 06.06.14
Pintura de Georges de la Tour.

 

Iguais, conformes, rotineiros. Dias, porém, que são corpos de possibilidades e que contém o perigo e a ebulição de qualquer novo mundo, guardados e usados para inesperadamente se impor. Passam horas, passam eras, passa algo que por conveniência medimos e o nutritivo caldo que exuberará passa, por enquanto, despercebido, pois erradamente desvalorizamos a normalidade, despercebemos as origens discretas do que nos fascina e insistimos em subtraír importância ao acaso.

Que só o extraordinário pode deslumbrar - cedemos afirmar inadvertidamente. E, contudo, relembro-me que o extraordinário não oferece apenas beleza. Abraça ainda o ambíguo e o grotesco, o perverso e o violento, as sensações que, como o belo, nos deixam presos, atraídos ou ofuscados, e que todavia não classificamos como deslumbrantes. Acredito que todas estas variações se aquietam nas circunvoluções do que é normal ou digo, pois, do que é ordinário, sem extra.

Eu aprimorava esta forma de cegueira que é atribuir aos dias iguais nada mais que a minha indiferença. Para ver esse mundo tão inteiro e novo que a rotina vela é importante divisar o que posso ser. E ficarei magnetizada, incrédula, agravadamente roubada ao conforto da normalidade, e perceberei que há muito mais arbitrariedade do que previsibilidade nas formas da vida. Nenhuma lei ou dogma me poderá resumir. As singularidades da vontade são copiosas e desconcertantes. E eis que a redentora beleza e a escura iniquidade habitam juntas o mesmo corpo, separadas só por cortinas de livre-arbítrio já puídas e na iminência de rasgar.

Nas manhãs dos dias banais penso o extraordinário que fermenta e cresce sem ser apercebido e antes sedenta de atalhos, ouso agora o vislumbre de mais mundo e mais possibilidade.

 

 

 

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Musicando

por Torradaemeiadeleite, em 03.06.14

Thomas Feiner & Anywhen - Yonderhead.

Do álbum "The Opiates - Revised", 2008.

 

 

 

 

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