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Flanar à roda dos mundos

por Torradaemeiadeleite, em 25.09.14


Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Flanar é um luxo e é um modo de ser atento, permite-nos assumir os mundos que nas ruas da cidade, por exemplo, se agigantam, colidem e revelam.
Dos pequenos grandes mundos também podemos esperar satélites e luas, os corpos mais discretos, que são tudo menos acessórios porque, se falhassem, muito do que é dos mundos maiores que eles gravitam se alteraria irremediavelmente. Mundos maiores no tamanho porventura, maiores porque nos foram apresentados primeiro mas não necessariamente completos.
Salto entre figuras de estilo para concretizar enfim: em estado flaneur, a força gravitacional duma pequena lua pode desviar-nos o olhar para uma montra e nela para um nome que costuma vestir outras roupagens. De Sylvia Plath não procurava livros infantis mas assim se revelou este pequeno novo mundo que desejei que me pertencesse. A família Nix ilustra bem como o corpo celeste que cada pessoa é difere dos outros mas sempre sujeito ao preconceito e à necessidade de aceitação, energias que desenham órbitas às quais só com dificuldade, mas também com muita convicção e sonho, poderemos escapar. Aponta-o Sylvia Plath, imensamente Sylvia Plath.
As ilustrações, elas próprias, um outro universo a um tempo expressivo, exponenciador e simbiótico, arquitectado por Rotraut Susanne Berner.
Flanar é um luxo porque obriga a ter tempo mas o tempo é o que torna os mundos, o universo, numa visão arrebatadora, irrepetível e vital.

 

 

 

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Esboço para uma introdução ou para um final

por Torradaemeiadeleite, em 22.09.14

 



Fotografia de Eugene Atget - Parc de Sceaux, 1925.

 

 

A janela aberta interrompeu o acto porque deixou que a chuva tomasse o protagonismo daquela hora. O livro continuava aberto na página mas era o olhar que se tinha fechado ao primeiro intento, ao sentido do texto, ao sossego previsto. Em bátega desalinhada pelo vento, os fios aquosos atiravam-se contra o parapeito, penavam, padeciam e pariam pequenas gotas empurradas pelo ar arrepiado a entrar no quarto. Arrepiado, como fez a pele sob a guarda dos impulsos e a agitação dos reflexos. E foi com o olhar fixo naquela abundância de gotas e com a pele arrepiada que a memória sobreveio e o tempo se interrompeu, deu meia volta atrás e fixou-se no mês anterior. Por quanto tempo mais as interrupções do tempo estariam de mãos dadas com a chuva e a chuva de mãos dadas com o dia de todos os seus dias era outra forma de perguntar até quando conseguiria ele driblar a evidência: que naquela fracção do mês anterior teria cometido suicídio por amar demais a vida.

 

 

 

 

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Beijo

por Torradaemeiadeleite, em 19.09.14

 

 

Ilustração de Travis Bedel.

 

 

 

Eu escrevo porque quero beijar.
Eu delego nas palavras escritas o debelar das minhas provações nos desertos do medo e nas fronteiras racionais,
a travessia da voragem moral. E elas, já revoltas, intensas, seguem - ainda que debilitadas mas mais firmes do que eu - com o sopro suficiente para só nos teus lábios findarem - nos teus lábios - imanentes à redentora anatomia que tem no beijo a suprema razão de existir.

Nomear é fragmentar. Eu escrevo porque quero beijar inteiramente e é inteiro o que não consigo pronunciar.

 

 

 

 

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Ópio

por Torradaemeiadeleite, em 18.09.14

 

 

Dead Can Dance - Opium.

Do álbum "Anastasis" de 2012.

 

 

 

 

 

 

 

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...

por Torradaemeiadeleite, em 17.09.14
 
Greg Dunn - Células Neuronais e Hipocampo.

 

 

Não leio, não escrevo.

Ressaco

alucino
prevejo.

Não leio, não escrevo.

Brutalizo
diminuo

faço desaparecer.

Não leio, não escrevo.

Mastigo
despojo
mutilo.

Não leio, não escrevo.

 Corrompo-me
todas as vezes que mato

Adio-me

em cada hora que vivo.

 

 

 

 

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...

por Torradaemeiadeleite, em 17.09.14

 

 

 

Greg Dunn - Células neuronais.

 

 

Esteios de corpo moribundo, 

armadura com guerreiro caído,

contraforte em parede ruída.

 

Assim tanto em vão,

 

reanimar a vontade exaurida. 

 

 

 

 

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Intervalo filatélico

por Torradaemeiadeleite, em 12.09.14

 

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Selo desenhado por C. Costa Pinto. Emitido em 1970.

 

 

 

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Gerador de amor a Castro Laboreiro

por Torradaemeiadeleite, em 08.09.14

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite. 

  

 

Em Castro Laboreiro temos cafés geograficamente centrais mas nenhum patronimicamente "Central". Nas mesas dos nossos cafés geramos conversas, batotices e estados futebolísticos, geramos mitos e chistes, mas também geramos crenças em futuros despovoados. Futuros como os nossos caminhos, as nossas eiras, os nossos montes e os nossos estendais. Despovoados.
É também nas mesas dos cafés que Castro Laboreiro tenta reinventar-se, principalmente com o turismo, com os "de lá de baixo" e com os galegos, com todos aqueles que tantas vezes gostariam de encontrar aqui, para além da natureza arrebatadora, aquilo que muitos de cá preferiram esquecer e perder - a cultura portuguesa nem sempre foi o guardador das  diferenças que agora urge abraçar, reabilitar e assumir como nossas. Essa "cultura" e muitos dos seus intervenientes foram preconceituosos durante demasiado tempo e nós mesmos, os castrejos, atarefados na adaptação e na assimilação do que é de outros, fomos diluindo cada vez mais a nossa identidade nesse seguro e conforme mar da igualdade cultural. Aprende-se cedo que, na maioria das vezes, ser diferente dos outros não é fácil nem confortável.

Hoje em dia, esta terra raiana é em si mesma um coração que recebe temporariamente, em cíclicas e ritmadas pulsações, muitos que precisam de oxigénio e de descanso e bombeia para as distâncias do Mundo o seu próprio sangue, forte e novo. É assim que, além-mar e além-terra, há castrejos geradores de rendimentos e de sonhos, geradores de saudades e geradores de descendência que volta uma vez por ano às mesas dos cafés onde muitos avós não chegaram a conviver porque estes cafés não são antigos.
Saio do café para um outro gerador de centralidade, aqui neste meu lugar, quando o central se refere àquilo que não é marginal. Sento-me à mesa que a vista me oferece a partir de um dos pontos abertos e desimpedidos. Não é, portanto, marginal todo o território fragoso e monumental que susteve, protegeu mas também alienou um modo de vida e uma forma de ser. Como não foi marginal a vontade de partir para onde o trabalho dava proveito. Partidas que melhoraram as nossas condições de vida e mudaram irrevogavelmente o modo de aqui existirmos. Foram-se os homens e foram-se depois as mulheres, e foi quando as mulheres partiram levando os seus filhos que o futuro castrejo passou a ser, ele sim, marginal.

E quase tudo isto se percebe mirando bem a paisagem e sentindo a inclemência dos climas de maior altitude. Depois, percorrê-la  a pé para lhe tomar de perto mais cores e idiossincrasias. Só que é com este mesmo exercício, e à luz do que se viu e se aprendeu noutras paragens, que ainda ouso ter esperança na reinvenção sustentável deste território e na preservação da nossa fala e das nossas memórias.
E assim, à mesa deste "Central" com vista desconcertante, leio a  promissora revista Gerador em Castro Laboreiro. Gerador de amor à cultura portuguesa, diz o número um. Faz sentido, mesmo tratando-se do amor.

Castro Laboreiro é cultura portuguesa e precisa mais do que nunca de acreditar na sua permanência, no seu futuro, mesmo quando os dias são de tormenta - não, sobretudo quando os dias são de tormenta.

Este tempo português é o de sair: saem as pessoas, sai a confiança no país, sai o ânimo para o exílio. Mas há os que ficam e os que chegam pela primeira vez. E há os que voltam. Que haja sempre os que, de algum modo, voltam. Todos geradores de vontade de mudar e de, na mudança, gostarmos de ser portugueses.
À espera do próximo número Gerador e entre amores e reflexões.

 

 

 

 

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De bolso, de carteira, de ser e de estar

por Torradaemeiadeleite, em 04.09.14

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

Retenho esta narrativa naturalista de August Strindberg. Agora sim pertence-me porque me apropriei das imagens que as suas palavras criaram roubando-me a atenção e as minhas frágeis noções de poética. Mas para que conste, esta troca de roubos é justa.
Morei nos fiordes suecos durante três meses, o tempo que o livro me acompanhou e a que voltava nas mais insólitas ocasiões porque ele estava onde estivesse a minha carteira. Para não andar desconfortável na rua agasalho-me ou refresco-me com leituras também. Hábitos, palavra de que assumo a dupla significância.
Parar muitas vezes numa história pode ter um efeito contraproducente no prazer e na apreciação da mesma. Mas desta vez não aconteceu isso. Culpemos o autor que soube conduzir o enredo e culpemos a minha memória que a ele se agarrou como o gelo do Inverno cinzelado pelo vento à copa dos abetos atarracados.
Da culpa vou extrair o prazer e é este que deve agora ser rememorado. Fiz parte do dia-a-dia das gentes de Hemsö durante vários ciclos das estações e conheci-lhes as rectas e as curvas. Acrescentei-me do que a vida delapida pouco a pouco - caminhos para andar.

Ainda que a narrativa tenha os pés nos tempos idos, as suas mãos alcançam os rostos de hoje através da condição humana, da replicação dos sonhos e da empatia com outras vozes. E é isso que destaco, ouvir as vozes de outros, conhecer e ouvir as nossas, procurar caminhos que nos aproximam do que nem parece alcançável e não esperar um só final mas descortinar vários.

Consegue-se esse efeito mesmo com livros aparentemente simples ( e só aparentemente ). Esse efeito. Esse efeito chama-se ler, não é? Eu leio quando guardo em mim algo do que foi escrito e que passa a fazer parte da minha visão do mundo e não apenas quando decifro signos justapostos. Tal é válido para qualquer autor e em qualquer género literário. Continua válido para qualquer arte porque ler é decifrar e interpretar, reconhecer, mesmo até adivinhar. E guardar, nutrirmo-nos dessas leituras, crescer ou construir com elas. Mas é fundamental não reter só o que está de acordo com as minhas convenções e os meus ideais, isso seria uma grande batota, uma falsa construção. Se tudo correr bem, não permanecerei igual ao que era nem estagnarei de cada vez que leio. De novo, construo, construo e construo.

Dos culpados acima mencionados extrai-se ainda outro facto, o da reincidência.
Livros na carteira, portanto. Porque ler também acontece quando e onde menos se espera.

 

 

 

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Entre marés

por Torradaemeiadeleite, em 02.09.14

 

 

Ilustração de Susana Blasco, "Tribute to Magritte".

 

 

Maré baixa,
a denúncia dos escolhos, a visão do imerso.

 

Bandeira amarela. Bandeira amarela.

 

O céu imensíssimo, a quem servil se diminuiria?

 

Maré, baixa!

lambe a terra e exuma o esquecido,

diminuta, aporta luz ao denso abismo.

 


 

 

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