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A pergunta em volta

por Torradaemeiadeleite, em 30.12.14

 

 

Planalto

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

Os intervenientes são essencialmente os mesmos e a linguagem que partilham veicula afinal as mesmas impressões, todavia os campos da sintaxe denunciam a era desta reflexão, esta escrita e a sua forma moderna não pertencem a todos os tempos, só a aspiração do registo - cotejar com o tempo universal e ser veículo de interpretação e perpetuação.
É possível encarar o Sol da origem e o recorte repetido da paisagem que sustém as raízes deste dia, as cores e as linhas erodidas que desenham o velho horizonte, o solo a estalar, como as plantas geladas, debaixo dos pés, que não são todavia as únicas figuras cristalizadas nas sombras perenes do arco baixo de luz; é possível, com todo o corpo, elencar o que se manteve imutável na paisagem até hoje e arriscar o que será diferente.
Sem o calor do sangue, porém, toda esta terra não seria mais do que as suas esculpidas formas milenares, as suas reiteradas gerações de carbono, muitas mais vezes certas do que erradas e dos erros ainda aproveitando as promessas dos melhores e dos mais aptos. Mas nem mesmo isto seria se não houvesse consciência e dúvida razoável para interpretar e exprimir, isto e o tempo, que cinzela todas as matérias, a da consciência inclusive.
Com afluentes de vária ordem que o caminhar livremente pode proporcionar, forma-se a constatação de que é breve o período terreno para perceber e presenciar tanto que se revela ante nós e de como, apesar da explosão da consciência e da técnica, não nos situamos ainda além do que é meramente superfícial.
Reflui o caudal deste rio que é o pensamento para se aproximar da origem da paisagem e para que alguém repita que nas horas especulares desta que é imprimida, os homens da pedra e do fogo, os homens do bronze, os homens do ferro que aqui moraram, detiveram o seu afã e renderam os seus sentidos e a sua razão ao que era à sua volta - uma imensa pergunta de terra e de gelo, sombra e céu, ossos e coração.
As vistas navegando ao largo foram, e são, tão essenciais à vida como a urgência instintiva da sobrevivência, e procurando respostas, e no correr imparável de novas perguntas, os homens alteraram o relevo do solo que estala e as plantas ciclicamente geladas aproximando os seus mortos dos candelabros celestes. Não é debaixo da terra que a luz nos invade e eleva. A luz, sempre a luz, que interromperá a incomensurável noite.
Aos mortos o posto mais alto, aos mortos a autorização para se individualizar da matéria e da multidão, aos mortos a entrega de muitas dúvidas na esperança de que eles nos devolvam respostas que não alcançamos vivendo.
Contra os factos académicos pode argumentar-se que, afinal, entre o perene e o efémero e entre o sensível e o racional, não haverá maior distância do que aquela que une as letras de um mesmo alfabeto que revisitamos e exploramos sempre que nos detemos perante a imensa pergunta à nossa volta.


 

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Planalto com poente

por Torradaemeiadeleite, em 26.12.14

 


 Planalto

Fotografia de Torradaemeiadeleite.


 

A quietude chega envolta em farrapos de neblina que os ventos da raia arrastam, agiganta-se nos brilhos silentes do poente e, eterna, renova-se.
O planalto, nesta quietude, sabe da água a correr nos veios e sabe da terra marcada em contra-luz pelos ritmos dos últimos vigilantes.
O planalto traz o tecto do mundo para os dedos das mãos. O tecto do mundo é frio e grave.
Tudo respira ainda entre as pausas dos ponteiros do relógio - nada se excede e nada fica aquém daquilo que deveria ser.





 

 

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Teoria avulsa

por Torradaemeiadeleite, em 16.12.14

  Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

Cada mundo tem, pelo menos, um postigo com vidros líquidos que derrama o interior num outro interior ( que será dos mundos estanques? ). Muito provavelmente só há interiores e interiores, quase nada exteriores, que se justapõem, submergem ou colidem. Entre estes caóticos mares, os raros universos, privilegiadas sortes, que se completam e agigantam, que dão corpo a singularidades e revolvem velhas generalidades. São estes interiores que nutrem a dúvida e que servem a ousadia.
E é nesta completude de mundos, com o acaso na sua origem tal qual os celestes ainda em formação contínua, mas insista-se, é nesta completude de mundos que estão guardadas as leis das dimensões invisíveis à razão - agora latentes, só adivinhadas, serão um dia tão preclaras como inelutáveis.
Na fórmula que hoje desespera porque não responde, entrará o tempo pelo postigo de vidros líquidos que derrama o interior e tudo se precipitará, ou então tudo se dissolverá.

Entretanto, somos átomos na escuridão, estes solilóquios instáveis, ofegando por luzir e desesperando por não ruir.

 

 

 

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Na aparência da quietude

por Torradaemeiadeleite, em 12.12.14

 

 

As noites de Dezembro estendem-se, recostam-se e pedem num só tempo a demora leve dos gestos e a urgência ferina do sentir.
Nestas noites, mais do que arremedos de bem-estar, o que há nas dobras das mantas e nos vapores das bebidas são desejos velados e ânsias que persistem - esperam por se cumprirem nos dias áureos dum magno devir, sabem da sua beatitude pronta a explodir.

 



( com Chet Baker - "If I Should Lose You" )


 

 

 

 



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Lugares para ler IX

por Torradaemeiadeleite, em 04.12.14

 

 

( E lugares para serem lidos. )

 

Porto

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Parque da Cidade, Porto. Novembro 2014.

 

 

 

 

 

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