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Intervalo lunar

por Torradaemeiadeleite, em 29.04.15



 

 

lunática

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite. Abril 2015.

 

 

 

 

 

 

 

 

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Liberdade, um retrato a cores

por Torradaemeiadeleite, em 25.04.15





Liberdade. Celebrar-te com as botas gastas e descoradas das meninas da fanfarra, que da cor branca pura passaram a cinzento, ao baço brilho e viço perdido. As cores da corporação não auguram horas saturadas de ânimo, antes a lonjura desse teu dia que será cada vez mais reclamado. Desfilam ao som da cerimónia.

Liberdade. Não trazias tu no teu peito a força dum emblema-flor, o vermelho transbordando dos silêncios finalmente rendidos? Na vez de balas, a explosão das vozes e das armas apontando corolas e a união que ninguém poderia jamais voltar a vencer, eras tu, não eras?
A tua cor continua num fio desde essa madrugada de Abril até este branco puído das botas das meninas da fanfarra, que não sabem que a liberdade também está nos seus pés e segue arrastada nas capas e meias-solas há muito devidas, que vai com o som dos passos que se condoem a compasso, quando o que fazia falta era ir mesmo no grito que alguém soltasse a dizer do estado do calçado que a Liberdade usa. O rapaz da corneta anuncia o fim da desfilada e o princípio do engano. Discursam.
A tua cor chega desde essa quinta-feira clara, mas não no anil do céu low-cost ou da albufeira tardia do Alqueva, nem nos lenços amarelos dos coros que ecoam as profundezas do ser, os corpos unidos numa cadência interior que hoje não conhece fronteiras nem precisa de tradução. Chega, sim, no azul ímpio dos mares onde se afogam as esperanças, na cor da bandeira com círculo de estrelas esquecida de si mesma e do seu verbo, vem na cor dum litoral cada vez mais distante do Sol que se põe atrás dos montes da nossa incompreensão.
A tua cor inefável continua hoje, discretamente igual à dos olhos das crianças que têm fome neste tempo de abundância, discretamente igual à dos corações apertados dos pais que não vislumbram dias mansos para os seus filhos e discretamente igual à cor da pele de todas as mãos que, em garra sobre as pernas, se acham perdidas de utilidade e transidas de esperas vãs.
Ainda não chove. A fanfarra recebe o diploma. As botas gastas permanecem em formação.
A tua cor, liberdade, feita de muitas cores, é hoje um estandarte agitado ingloriamente por figuras que não te conhecem, que não sabem do que és feita e para o que foste feita, os mesmos que pretendem, mesmo na tua celebração, obnubilar os dias de quem te quer, usando como armas o medo, a culpa e o esquecimento.
Eras tu, Liberdade, que combatias o medo, a culpa e o esquecimento, não eras? Fizeste-o desobedecendo, saíste da formação e levavas as armas sem balas na câmara. Agarraste o cravo rubro que a senhora te estendia e a essa cor juntaste a mais bela, aquela que a esperança tem quando um peito aberto não teme as balas.
Isso foi naquele dia, o do princípio da possibilidade. E hoje, que tom queres dar ao retrato que eu te pintei?




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Guarda meu verso

por Torradaemeiadeleite, em 22.04.15

 

 

 

Albrecht Dürer


Desenho de Albrecht Dürer, 1512.

 

 





Guarda, meu verso, este peito, como o precipício, onde caem sem grito as aves exemplares rendidas.
Duas centenas e mais um instante, os séculos entre cada tentativa, para tornarem plano esse vale de angústia funda onde caem, feridos, os poemas como as vidas.
E um bater de asas distancia-se no fim de cada tempo, consegue com a leveza da sua agitação somente, raspar da poeira fina os átomos duma nova ponte, a forma suspensa da revelação que resolve este precipício, e aproxima-nos de um outro onde jazem, já silentes, velhos, gritos visíveis.
Guarda, meu verso, este peito, como um poema incompleto onde se perfilam as aves caídas depois de cada vida interrompida. Guarda-o até ao novo século que trará ligeiro esse bater de asas foragido, o instante irreversível de céu e som que fará a ponte entre os gritos adormecidos e os fará necessários na vez de perdidos.





 

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Outro Jardim

por Torradaemeiadeleite, em 17.04.15

 

 

 

WinterFieldsAWyeth

Pintura de Andrew Wyeth - "Winter Fields", 1942.

 

 

 

 

Repito o teu soneto, Sophia, como quem procura a força que empurrará a bicicleta e a resgatará da inércia dolente, do desequilíbrio tosco do aprendiz.
O meu corpo procurará sempre iludir a queda até que o movimento se torne constante e controlado, mas não sem antes tu voltares para acudires aos arremedos de confiança que o primeiro obstáculo aproximará da ruína perfeitamente redonda. Com renovada vontade virás lançar-me, e eu, com o velho intento, insistirei na entropia e insistirei na recusa do verbo que escreve amargo o desistir.
Poderá chegar, apesar de tudo isso, o dia, o meu momento uivante de solidão, da culpa que preside ao anátema, em que terei de assumir as vestes penitentes, dar corpo aos trapos invisíveis, pesados, sulfúreos, que queimarão perenes e renovados a minha pele.
Esse momento não é agora e o agora ainda não é nada - é o meu querer, o meu presente feito do fim para o princípio, como quando escrevo primeiro esse "Outro jardim possível e perdido" que suspendeste do "Jardim em flor, jardim de impossessão" da partida do teu soneto. Entre um e outro, todos os outros versos que repito porque neles me vejo sempre que os recito e encontro-me na imagem maior que deles colho.
Mas antes de todas as possibilidades, Sophia, a qualquer destes versos teus, morte alguma poderá tolher a força com que me empurram e ressuscitam.

 

 

 


Referência no meu texto a Sophia de Mello Breyner Andresen, na inspiração e na generosidade que o seu poema "Jardim Perdido" de 1944 me instiga.



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O Torrada gosta de iluminar os detalhes IV

por Torradaemeiadeleite, em 17.04.15



 

 

 

Floralia


Fotografia de Torradaemeiadeleite. Abril 2015.

 

 

 

 

 

 

 

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O Ícone do Torrada

por Torradaemeiadeleite, em 12.04.15

 

 

cafe-terrace-place-du-forum-arles-1888(1)[1]

 
Pintura de Vincent van Gogh, 1888.

 



O Torrada completará em Maio oito anos de conversas à mesa dum café.
Desde o primeiro minuto o seu ícone é uma pintura de van Gogh, que na sua versão longa se chama "Exterior de café, à noite, na Place du Forum em Arles", de 1888. A imagem da capa do Torrada ( ou o cabeçalho, na versão da vida para lá do Facebook ) teve imagens diferentes até eu ter estacionado na minha fotografia duma imperfeição outonal perfeita, captada nos jardins de Serralves, há muitos anos.

Mas o que quero salientar hoje prende-se e prolonga-se a partir da impressão digital do meu blogue, cuja página no Facebook é apenas um arremedo do corpo que vive e respira inteiro na plataforma do mui luso SAPO ( e é um prazer continuar lá, a equipa da gestão dos Blogs é um exemplo de dedicação e entusiasmo ). Às razões pessoais que fazem a ligação entre o Torrada e o artista van Gogh, junta-se esta descrição que o próprio fez do seu quadro numa carta ao seu irmão e que põe o laçarote neste ícone que adoptei com toda a alma.
E destaco: "AÍ TENS UM QUADRO DA NOITE SEM PRETO (...)".
Eu andei arredada da verdade durante muitos anos, porque a noite pode ser tudo, menos escuridão e muito menos ausência de dia.

 

Então, escreveu assim o mestre:

"Um café à noite, visto de fora. Na esplanada estão sentadas pequenas figuras a beber. Uma enorme lanterna amarela ilumina a esplanada, a frontaria da casa, o passeio, e lança luz até ao empedrado de rua que recebe uma tonalidade rosa-violeta. As fachadas das casas da rua, que se prolonga sob um céu estrelado, são em azul-escuro ou violeta; em frente uma árvore verde. Aí tens um quadro da noite sem preto, só com azul bonito, e com violeta e verde, e neste ambiente o sítio iluminado torna-se num amarelo baço de enxofre e verde-limão."

Vincent van Gogh.


Escolham a mesa, sintam-se bem aqui, as torradas e as meias de leite vêm
já aí.


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Wild Horses

por Torradaemeiadeleite, em 08.04.15

 

 

 

Garranos

 Fotografia de Torradaemeiadeleite. Abril 2015.

 

 


Suspirar um Abril recente e afirmá-lo naquela hora do dia que escreve poesia em tudo que toca, ver a luz filtrada pelas crinas soltas dos garranos a galope, um grupo como um só corpo e, então, saber do verso "a levantar poeira" como dizia o místico Ney do seu bandoleiro.
E podia eu ir por aqui mesmo, pelo verbo que o mar une, mas confesso de outro modo o ecletismo do gosto, a lembrar várias origens e a multiplicar possibilidades ( ah, grata e profunda liberdade de escolha ) - podia ser o Ney Matogrosso, dizia eu, de quem gosto e admiro, mas desta vez serão as pedras rolantes, que gosto e que admiro com igual intensidade, a seguirem, numa esteira de estrépito indomável, os cavalos selvagens portugueses.
Alterem, acrescentem a música que quiserem, nenhuma leitura se faz de um só leitor. Aproveitem, contudo, as rimas dos "meus" garranos com o chão e o céu que os envolve e os prolonga até ao futuro, colham a poesia dum momento tão literalmente belo quanto metaforicamente rico captado para cá da lente.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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