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Do espanto,

por Torradaemeiadeleite, em 13.12.15

 

 

o seu peso. Não como um fardo, não como a condenação sisífica.


Cumpra-se o seu fim:

o espanto a ser ele mesmo em cada novo palco e função da trupe. Acrescentado irregularmente de esquissos e de perspectivas, é um desenho indelével feito por cada sensação, feito por mais do que um estímulo a cada sentido, e pela morte, a grande maestra, mas a menor das actrizes, a ritmar sobre cada corpo de sentimentos uma pauta incompreendida ou rasurada.

E em mim, o espanto a fazer-se pensamento e pele, infinito e dor, elevação e queda. A folha a cair-se desgarrada, a voluta a subir-se diáfana e, entontecido, o sino a rasgar-se mais esta vez. Bofetada no ar, o último dia de alguém.
As formas de espanto recolhidas e plasmadas de novo, por mim já transfiguradas, devolvo-as assim ao que, todavia, não foi teu nem deles em primeiro modo. Confirmo que é assim, sem pedir tiro, puxo, roubo e torno a deixar. E nisto não há crime algum, porque tudo o que levo não tem dono, apenas é escasso, apenas é espanto e mundo para ser espantado.
Às costas dum rio, nos espelhos das janelas, no clangor de ramagens secas, no perfume do mundo, tudo se atira a mim por estes dias vorazes. Os mártires e os algozes, todos se atiram a mim, para minhas minuciosas erosões e para lembrarem-me de que comecei como montanha íngreme e acabo tal e qual o chão, e já chão, um sino depois ( e para quê, pergunto, se eu me sinto já o que o silêncio deve ser, um arrepio sem sino ). E é hipócrita o sino, abre o peito só no fim, sob as próprias mãos, para deixar, para largar, para gritar o que nem a pedido educado, nem por piedade do ser, ele deveria ter calado durante anos e anos dessa qualquer função num teatro qualquer como uma peça mais num jogo com regras obtusas. Mas que espanto foi, esse nada mais que fazer ver.
E espanto de terra, de fogo, de água e de ar conjugando-se para outras imanentes realidades, naqueles mundos além brilhando no vago e inquietante negrume, elementos rearranjados para que o sofrimento seja reconduzido por outros trilhos. Mas sempre sofrimento. Mas sempre espanto.
E querer ainda, como só este querer pode admitir, sem obrigação ou prova dele termos que dar, de a tudo tocar, mesmo sem tacto, e de a tudo o que é complicado, contraditório, absurdamente humano, propormo-nos conseguir arrancar um resto de beleza, um gesto propagador do nosso espanto.
Oh! as mãos na boca aberta, os olhos arregalados, mas de quê? Da inaudível beleza. Da inaudível beleza de um peso que suportaremos para permanecermos de pé.



https://youtu.be/9dz4UYZIQps

 

 

Torradaemeiadeleite

 

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Fuga luminosa

por Torradaemeiadeleite, em 12.12.15

 

 

 

 

Torrada

 

 

 

 

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Uma teia para a incompletude

por Torradaemeiadeleite, em 08.12.15

 

 

 

molduras

 

       Fotografia de Torradaemeiadeleite. Óbidos.

 

 

 

Todos os dias escrevo a minha incompletude. Nem sempre no papel, raramente com tinta permanente.
Nesta escrita, é a mão da angústia que reincide, e também esta presença, noto
uma presença: reaparenta-me algo que nunca teve corpo e vem da minha maior distância. Ela mesma, porém, me entregará ao que nos tempos se denomina futuro, sei-o. Pensada e  sentida. Morrerá também, mas só depois de mim.
Nessa ausente presença de corpo escrevo, com a angústia a pulsar, e por elas participo de tudo que é desde o momento em que o nada foi pronunciado. Arranco-me frases que perpassam de umas essências para outras, e a minha de permeio, desnorteada, sem lugar fixo, a repetir o absurdo para que o absurdo seja jamais saciado.
Queria eu lançar teias a todas elas, para prosseguir mais firme do que sobre este vazio que estonteia.
E convenço-me de que posso fazê-lo, e prosseguir escrevendo, de mim, em mim, para lá de mim, até mais perto desse ponto onde o tempo não tem morada, até mais perto desse ponto tão somente intuído. Chegarei aí onde a incompletude faz da angústia um ser criador, e criando sinto que religo e, criadora, pertenço a mim e ao mundo.
Imagino, e imaginando apago os limites do que eu vejo. A incompletude, sim, aumentará e é imperativo que ela nunca se resolva.

 

 

 

 

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