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Curta-metragem

por Torradaemeiadeleite, em 12.05.09

 

  Fotografia de Torradaemeiadeleite ( Castro Laboreiro, Maio 2009 ).

 

Nestas escadas quase abandonadas demoro-me mais.

A sua intimidade antiga gera na minha mente imagens que a técnica pode mostrar apenas em parte. Nada, a não ser que eu soubesse realizar filmes, poderia aqui juntar as vizinhas que se cumprimentam enquanto sobem a escada para casa, talvez com um braçado de lenha para compor o lume ou com as couves para o caldo aconchegadas no mandil dobrado... "quê, Maria? ai que se chegar ó lume..." e a saia negra balouçando com o movimento dos joelhos em esforço, o lenço a descair da cabeça, a trança comprida e matizada de branco a espreitar o  anoitecer.

As sombras precipitam-se muito cedo no Inverno e já se cruzam no caminho os cães de boca negra que acompanham o gando até à corte. Ladram anunciando a sua chegada e sobrepõem-se às vozes dos pegureiros e aos chocalhos das vacas e dos rebanhos.

É tempo de ultimar as tarefas.

Sente-se o frio da noite chegar mansinho mas decidido, o fumo espalha-se na casa como lá fora, é como um manto de névoa que se insinua devagar  e não tem intenção de sair.

A candeia revela os vultos no escano, arqueados sobre o fogo mortiço ladeado pelos potes e só o vai-e-vem da colher, que tilinta na malga e o sôfrego sorver daquela quentura nutritiva quebram a solenidade do recolhimento.

A conversa flui aos poucos, hoje não há novidades. Corta-se mais um bocado de pan ( este ano foi rico em centeio ) e mais um bocado de carne de porco.

Pelas frinchas do sobrado velho vem o bafo quente dos animais na corte; o chocalho teima em acompanhar os movimentos dos que ruminam.

E ruminam pensamentos os que na casa determinam ainda as tarefas do dia seguinte.

Talvez a Maria e as filhas venham fazer seran...

Ouve-se claramente  o ladrar dum cão numa aldeia vizinha que acompanha fielmente as horas desta noite antiga.

Nestas escadas quase abandonadas...  

 

mandil = avental

gando = gado

pegureiro = o que guarda o gado, pastor

pan = pão

seran = serão, fazer serão

 

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6 comentários

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De j.a. a 12.05.2009 às 17:14

"...a não ser que eu soubesse realizar filmes..." ainda tens duvidas ????? tens aqui um filme magnifico :-) parabéns torrada!
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De Torradaemeiadeleite a 12.05.2009 às 21:34

Sempre elogioso, j.a.!!
Filmes na cabeça até me sobram mas pôr os bonequinhos a mexer é outra coisa... e já agora a render também!!
Beijinhos!
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De Moira a 15.05.2009 às 00:32

Torrada,
Hoje tenho que confessar que o teu texto me comoveu, pela força das palavras, pela singeleza, pela carga emocional que carrega.
Acredita que quem sabe realizar filmes raramente pega em coisas tão singelas e se eu tivesse que escolher um realizador para o teu filme só me ocorre um, o único, o maior, o mestre Manoel de Oliveira.
E depois disto, cada vez me aguças mais a vontade de visitar Castro Laboreiro.
Beijo
Moira
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De Torradaemeiadeleite a 15.05.2009 às 01:18

Ops... deixaste-me muda...
Obrigada, Moira... muito!!
Beijinhos...
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De Patrícia Esteves a 22.05.2009 às 19:07

Olá ;) Um bonito texto!…ainda há tempos pensava, que a minha geração será talvez das últimas que saberá os significados destas palavras daqui para o futuro. Engraçado vivermos esta dualidade linguística.

Gosto sempre de visitar o teu blog.Um grande beijinho.
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De Torradaemeiadeleite a 24.05.2009 às 19:19

Olá, princesa! Tens razão, a língua vai-se diluindo por variadas razões, mas cabe a nós falá-la e escrevê-la para não a deixar morrer. Transmiti-la aos vindouros é a forma mais eficaz de a perpetuar. É muito importante que a conheçam e que compreendam o seu legado cultural e histórico. Estou certa que assim farás com os teus descendentes!
Muitos beijinhos para ti, minha "lela"!!

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