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Elegia em prosa

por Torradaemeiadeleite, em 12.06.12

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

De novo na minha primeira escola encontro, prestes a assumirem outra natureza, dois livros infantis. O edifício materializar-se-á, ele próprio, em outra coisa brevemente, algo com menos de meias paredes, primeiro uma tortura para o olhar e depois para a alma.

As capas e as folhas rasgadas, outras à deriva fora deles mesmos, estão imersas no que outrora foi pó seco e depois misturado com chuva entrando de través pelas janelas abertas, os livros, quem diria. Trouxe-os assim mesmo.

Convenci-me que resgatava órfãos literários e também uma parte da minha memória, esta que mantém a estante com as portas de vidro no canto ao fundo da parede à direita de quem entra, a brevíssima biblioteca de que dispúnhamos para ir além dos montes e do castelo.

E reparo numa ironia: décadas mais tarde, a sala onde aprendi a ler e a escrever é um espaço de desamor aos livros.

Postos abandonados e letras ao rés da invisibilidade, oh! Aquilino Ribeiro  e Maria Isabel César Anjo e os ilustradores Luís Filipe de Abreu e Maria Keil. Misturados com madeira apodrecida, cal esboroada das paredes, formas poliédricas amassadas, a tampa da caixa dos carimbos e a tampa partida da almofada dos carimbos ( animais, objectos e horas que aprendi a escrever ), papéis rasgados debotados, os esforços de aprendizagem em fichas avaliadas e dispersas. Como se a sala de aula se amalgamasse e resumisse num monte amorfo de matérias em decomposição.

O modesto recheio da escola deveria ter sido salvaguardado e preservado muito para além do seu tempo útil. De alguma forma a memória dos que ali ensinaram e aprenderam e a dos pais e avós que ajudaram a colmatar falhas de conforto e de aprovisionamento haveria de ser honrada. Sem vandalismo, sem abandono, sem desprimor.

O lugar onde antes vibrava a ladainha da tabuada e das serras e o texto que tacteava sentido e ritmo, dá agora volume à minha indignação e agride os meus sentidos.

Tenho visto mais escolas abandonadas com as portas escancaradas e as janelas partidas. Não sei se lá dentro também se esqueceram dos livros. Só não entendo por que as transições assumem, às vezes, a semelhança dum insulto ao passado duma comunidade, aos seus esforços, às suas crianças. Entendo ainda menos que nasça da própria comunidade ou que não seja por ela mitigada.

Volto quase ao princípio, à "História do Joli cão francês que boa caçada fez" e ao "O Verão é o tempo grande", que roubei à sala para não perderem a capacidade de perdoar. Perdoar a quem não fez melhor porque não sabia nem estava avisado.

Livros que agora são um símbolo de resistência, de infância, de Natureza. São sobretudo guardiões dos dias bons, os que eu prefiro lembrar da minha primeira escola.

 

 

 

 

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2 comentários

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De F. a 13.06.2012 às 15:50

Perfeitamente relevada a ausência, mais prolongada que o habitual, por esta "Elegia em prosa" tão poética que "enche as (nossas) almas de dolência" e nostalgia. Os livros, esses não podiam ter caído em melhores mãos: uma Torradinha castreja exímia a preservar memórias do tempo e de si.
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De Torradaemeiadeleite a 14.06.2012 às 13:00

Nem sabe F. como custa ver tão belos exemplares, edições antigas, no estado em que os encontrei. Já os limpei e uni alguns fragmentos mas só um milagre lhes restituiria a integridade. Esfarrapados, manchados. Uma pena. Mas ainda assim transpira a beleza das imagens e a qualidade dos textos.

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