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Crime ao alvorecer

por Torradaemeiadeleite, em 18.09.15





A manhã partida. E a única prova são os estilhaços aqui espalhados, umas formas sem nitidez e que já não podem ser justapostas. Não se vêem as estrelas, lua e sol.

A manhã partiu-se e sem motivo aparente. De premeditação nada se pode afirmar. Terá sido acidental, adiantam.
No canto está uma criança, diz que viu tudo a acontecer. Vê tudo, desde o início.
A manhã dos fragmentos e os fragmentos da manhã estão aí porque as horas da madrugada foram esvaziadas e não podiam mais sustentar a forma densa do amanhecer que chegaria. Esvaziadas assim de quê estamos a falar?  Assim mesmo. Roubadas do seu sentido. Vocês não entendem porque já não sabem. É nesse tempo de meia luz e de meia sombra que se reconhecem as ilusões e que se preparam os nossos despertares. São as ilusões que nos preenchem as manhãs, quando não aceitamos que a vida é só, é pó e dói.
E foi a verdade que as roubou, acrescentou.
As horas da ilusão, as horas da madrugada, roubadas pela verdade, deixaram oca a manhã e logo esta ruiu sobre si mesma, sem ter mais alicerces construídos que continuassem a suportá-la.
Mas não foi a criança que assim falou, nunca soube dizer deste modo. Aponta apenas e tem expressões no olhar. Apontou. Lá fora, um campo de relógios parados, com os vidros partidos, todos com horas diferentes, como pessoas, todas, imóveis ainda, sem saberem da sua hora para despertar.
Alguém solenemente sentenciou - se foi a verdade que assim procedeu, nada mais poderemos fazer.
A porta fechou-se. A criança permanece lá dentro. E ela saberia o que fazer, só que ninguém se lembrou de perguntar-lhe.

 

Torradaemeiadeleite

 

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