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Dar a volta ao bloqueio

por Torradaemeiadeleite, em 05.02.14
Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Quero escrever e na estação não está nenhum comboio para partir. Podia a minha viagem começar de outra forma, num périplo citadino, por exemplo, que é quase infalível. Quero escrever, aconteceu-me, e escolhi a estação, não sei porquê. Embirro aqui na gare vazia com frases que querem compor-se sem qualquer carruagem e máquina que as puxe.

Parece terra de ninguém e ninguém veio ver os comboios, foram avisados que não haveria. A mim ninguém me disse nada. Desconfio, aliás, que avisada eu teria mesmo vindo, para ver o absurdo, um local de tantas palavras, as que chegam e partem nas malas e sacos, nas bocas de quem as não complica, no silêncio de quem as não realiza, palavras lançadas ao ar em chamadas e informações, local agora votado assim ao nada e à desinspiração. Só não sei se é temporário, não aparece ninguém que tenha sido avisado para eu lhe perguntar.

Insisto. O vazio fora do lugar ( se há lugares para o vazio morar sem espantar ) estendido num centro de viagens. Quero escrever e é aqui que o tento, porque às vezes sou teimosa e do nada quero que algo apareça. E algo apareceu. Por querer escrever e insistir na estação fracturei o ar e levantei a poeira fina arrastada da rua belicosa e buliçosa, ninguém aqui se atreveu a entrar mesmo com as portas escancaradas, afugentei o vazio e preenchi-me duma gare fria com sol mortiço. Alguém que espera e aquece as mãos com o bafo, torvelinho de ar quente com miríades de átomos mal iluminados, corpo inteiriçado de pés juntos e ombros encurvados. Olhos na rua. Mesmo sem tecto, a rua parece mais quente que esta monumental ode às não viagens. Mesmo sem carris, a rua parece mais eficaz a resolver distâncias que este literário espaço de fuga e chegada.

Continuo a quebra do vazio com as aves que acordaram tufões nas asas apressadas, corpos descendo atraídos, ruído flap flapante. Quem espera desespera, apertei nas mãos o papel e desfiz em farrapos a viagem que era para começar, migalhas parecem, só pombas iludidas atrás de migalhas caindo, e do texto - que aparece?

Nem comboios, nem viagens. Só queria escrever.

 

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2 comentários

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De F a 06.02.2014 às 13:05

Quem tão bem dança com palavras sempre consegue "Dar volta ao bloqueio" e mais depressa ainda quando escolhe uma estação silenciosa e quieta para iniciar viagem. "Só queria escrever" e escreveu lindamente.


Beijinho.
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De Torradaemeiadeleite a 06.02.2014 às 15:27

Querida F., é tão bom poder contar com o seu feedback, dá-me luz...
Obrigada.

Beijinho, pleno.

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