Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




De bolso, de carteira, de ser e de estar

por Torradaemeiadeleite, em 04.09.14

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

Retenho esta narrativa naturalista de August Strindberg. Agora sim pertence-me porque me apropriei das imagens que as suas palavras criaram roubando-me a atenção e as minhas frágeis noções de poética. Mas para que conste, esta troca de roubos é justa.
Morei nos fiordes suecos durante três meses, o tempo que o livro me acompanhou e a que voltava nas mais insólitas ocasiões porque ele estava onde estivesse a minha carteira. Para não andar desconfortável na rua agasalho-me ou refresco-me com leituras também. Hábitos, palavra de que assumo a dupla significância.
Parar muitas vezes numa história pode ter um efeito contraproducente no prazer e na apreciação da mesma. Mas desta vez não aconteceu isso. Culpemos o autor que soube conduzir o enredo e culpemos a minha memória que a ele se agarrou como o gelo do Inverno cinzelado pelo vento à copa dos abetos atarracados.
Da culpa vou extrair o prazer e é este que deve agora ser rememorado. Fiz parte do dia-a-dia das gentes de Hemsö durante vários ciclos das estações e conheci-lhes as rectas e as curvas. Acrescentei-me do que a vida delapida pouco a pouco - caminhos para andar.

Ainda que a narrativa tenha os pés nos tempos idos, as suas mãos alcançam os rostos de hoje através da condição humana, da replicação dos sonhos e da empatia com outras vozes. E é isso que destaco, ouvir as vozes de outros, conhecer e ouvir as nossas, procurar caminhos que nos aproximam do que nem parece alcançável e não esperar um só final mas descortinar vários.

Consegue-se esse efeito mesmo com livros aparentemente simples ( e só aparentemente ). Esse efeito. Esse efeito chama-se ler, não é? Eu leio quando guardo em mim algo do que foi escrito e que passa a fazer parte da minha visão do mundo e não apenas quando decifro signos justapostos. Tal é válido para qualquer autor e em qualquer género literário. Continua válido para qualquer arte porque ler é decifrar e interpretar, reconhecer, mesmo até adivinhar. E guardar, nutrirmo-nos dessas leituras, crescer ou construir com elas. Mas é fundamental não reter só o que está de acordo com as minhas convenções e os meus ideais, isso seria uma grande batota, uma falsa construção. Se tudo correr bem, não permanecerei igual ao que era nem estagnarei de cada vez que leio. De novo, construo, construo e construo.

Dos culpados acima mencionados extrai-se ainda outro facto, o da reincidência.
Livros na carteira, portanto. Porque ler também acontece quando e onde menos se espera.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Related Posts with Thumbnails








Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Torradas com bolor

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D