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Do inconseguimento ( se a palavra existisse )

por Torradaemeiadeleite, em 01.02.15

 



Turner teria interpretado aquela luminosidade com instinto e sabedoria, na repetição das águas, na volubilidade das nuvens matizadas, nos barcos desbotados de lonjura. Da sua obra nasceriam, mais uma vez, primeiro impressões sedutoras das pinceladas e depois ensaios enigmáticos. Eu fico frustrada no êxtase, perplexa nos sentidos que transbordam de inexplicabilidade porque, consciente de que nada é insignificante, esbracejo descontroladamente numa vã tentativa de nadar entre ondas de inspiração. Por exemplo, esta areia varrida da marginal pelo vento inconforme do ponto norte, este delírio de grãos, não é um fenómeno normal e despojado de valor, é uma sementeira atirada para campos férteis com golpe resoluto de mão treinada, invisíveis campos férteis das antigas, mas perenes, auroras do conhecimento. E, como se fossem sulcos lavrados e húmidos que recebem as sementes, percebo as poças de água ( da água evoluímos ) intermitentes nos paralelos da nossa civilização, onde se confunde terra com céu e brilho com ouro e, lá está, paralelos com paralelos com paralelos.
Turner fundiria os elementos e a humanidade numa tela de duas dimensões mas multiplicaria os significados, com coerência, até à ordem do transcendente. E isso permaneceria imanente e belo, geração após geração.
Eu divido e subtraio porque não sei que nomes dar ao que me espanta e não sei que arroubo de vontade hei-de saciar primeiro. Pessoas, areia, nuvens e aves, vejo-os todos num mar revolto de emotividade e descoberta que eu preciso alvitrar.
Encosto-me, à laia de oportunista, aos ombros dos que tentaram dissolver a sua angústia com sais de génio e de coragem. Talvez percebendo-lhe o ritmo da respiração, as hesitações das mãos e o fremir mudo do corpo que antecede cada nova "eureka!", consiga decifrar, para já, a quantidade de energia que precisarei despender para não naufragar.
Por agora, a luminosidade é de Turner.

 

 

 

 

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