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Dois irmãos

por Torradaemeiadeleite, em 30.07.15



Torradaemeiadeleite

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 



As cartas eram as tuas mãos vencendo os declives que, a um só tempo, nos separavam e nos uniam. Evocavam aquela imagem dos barcos e dos aviões que víamos já esbatidos na distância, iam até aonde os nossos olhos não podiam acompanhar, nas tardes que eram as nossas estradas para o horizonte, linha irreal onde sentíamos tocarem-nos os mundos opostos ao nosso, a fronteira transponível para as vidas maiores do que as nossas.
Mas nas cartas chegavas-me com a existência cansada, mal escondida, logo esvaído de assuntos e a rematar a desilusão com um abraço alongado até à carta seguinte, assídua, breve, pontual.
Eu distinguia os odores que te rodeavam na hora da escrita, o fartum que me pungia, as manchas que cresciam e dissolviam as formas do sonho. Também o olor da tua pele a demorar-se na folha, sustido, à espera das palavras que conseguissem suavizar a minha percepção de que tu caías, e caías, e caías, e eu sem habilidade para levantar-te. Esgotados, tu e eu. Cerzidos um ao outro e às ganas de mudar de trilho.
Os anos moeram-se e sempre do mesmo modo, indiferentes a nós, inclementes. À margem dessa desmesura, juntei o bom que me contavas e todos os instantes em que reiteravas, como a sossegar a ti próprio, que não tinhas desistido do teu, nosso, futuro. Resultou daqui um magro embrulho, tão menor, até risível, do que esse outro engordado pelos longínquos rumores dos teus novos dias, os restos de tudo o que almejaste vir a ser, atado com cordel apressado e áspero, acrescentado mais e mais até à tua última hora. Nunca quiseste que eu carregasse às costas mais do que a minha própria sorte, essa assemblagem de imobilidade e silêncio feita para mim logo na infância. Só que, nunca soubeste mentir e eu lia-te com minúcia e para lá das palavras.
Regressaste ( não duvidei de que o farias ). Só, curvado, sem paixão de gestos. Depositaste à ilharga da minha mente, finalmente desencarcerada do meu corpo, o embrulho das coisas que não chegaram a ser, o das magras venturas, o das lutas honestas e infrutíferas, preparado para que as chamas nos acolhessem e nos devolvessem ao que nós fomos, eu e o embrulho, o embrulho, eu, breves suspiros do mundo. Poeticamente restituías ao fogo o combustível que dele tinhas sorvido para adiar continuamente a nossa rendição. Fogo da vontade, fogo da esperança, fogo de algo que se persegue e que sentiste não ser mais teu para continuares a perseguir.
Desde então, deixaste-te afundar nas águas ímpias dos "se": se tu não tivesses ido, se tu tivesses percebido mais cedo, se tu nem tivesses nascido. Mas estás aqui e continuas porque queres um castigo onde não houve crime, e não há maior castigo do que continuarmos vivos quando já nada nos anima. E a culpa. Esse caminhar sem alma nem coração, só porque sim, o peso que nada mais consegue suplantar, este de não nos perdoarmos a nós próprios, o maior, e quiseste-o todo só para ti.
Estoutro peso trouxe-o eu comigo, o de não ter podido nunca sair do meu silêncio para que ouvisses enfim o que eu sentia, que foste heróico em tudo o que a humanidade copiosamente falha de prometer, que foste o Sol onde eu era escuridão e que nenhum horizonte, como aquele que dissolvia os transportes e perdia o nosso olhar, poderá alguma vez ser desenhado sem uma luz recta e limpa como a que ardia dentro de ti, para além de ti e apesar de mim.



 

 A ouvir: Hans Zimmer - Day One ( Interstellar Soundtrack )

 

 

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