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Escreve o que vês e pronto

por Torradaemeiadeleite, em 21.03.14
Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Sentei-me a ver o mar. O resguardo desta imensa varanda tem menos um palmo de altura que a linha do horizonte. O paredão, os rochedos e a espuma das ondas ficam entrecortados pelas colunas beges, clássicas e simetricamente perfiladas. Dois candeeiros, de pé verde e com três lâmpadas cada um, têm todo o céu como moldura. Plasma cinzento, acabrunhado, só a breves recortes iluminado, está em crispado contraste com o a ternura deste mar.

Se olho um pouco para a esquerda, vejo as casas e os prédios ( olhem, pousou um passarinho no parapeito, destes comuns - é um pássaro - tapou o farol e já levantou voo de novo ) alinhados com o recorte da costa até lá longe onde adivinho a Granja e Espinho.

O arvoredo continua também, de folhas perenes perenemente verde-baças e as pessoas estáticas ou em volante figuração entrecortam os espaços varridos a vento. E por falar em estátuas, estas verdes salgadas rugosas, miram a mesma direcção de sempre, representam  memórias escolhidas e acrescentam elementos ao meu cenário marítimo.

Abre-se entretanto um feixe de Sol e espalham-se os raios nas minhas mãos. Apetece-me reescrever tudo. São como beijos nos meus dedos e mudam tudo o que sinto. Olho em simultâneo para aquele lago de brilhos, ao fundo das distâncias horizontais, onde já as silhuetas dos cargueiros traçam o limite da água e parecem ausentes de movimento. Não sei nadar, mas não me impeço de querer estar lá porque aqui, no banco vermelho de madeira, há sombra e ruído e ali parece quente e pacífico, no alto, mais alto que o resguardo, e plano mar.

Assim bem sentada a escrever, passam por mim as gaivotas e as pombas em voo próximo. Sou mais um figurino de pedra ou cimento e esqueleto de ferro armado, nada estranho para assustar ou espantar. A avioneta passando alta fez mais alarido do que eu e afugentou todas, mas nem o céu estremeceu a sua sorumbática fisionomia, caramba, que cisma antiga veio hoje ensombrá-lo.

Acrescento ainda os motores que arrastam o ar nas minhas costas, não os vejo, falam todos de modo diferente mas envolvem-se numa massa de ruídos que não me interessa e nem me choca. Se não existissem é que já não era normal. Passa a bicicleta a campainhar, deve ser a sua milésima volta, não preciso confirmar que é mesmo de criança pequena, das que têm rodas de apoio a pisar as pedrinhas e volteiam na mesma cadência, sem se apressar. Selecciono de todos os sons o das ondas suicidas, quando embatem contra os rochedos sem atenuar a vontade, como vêm assim se atiram a eles e estrondam sem controlo de si mesmas porque decidiram que não querer ter controlo as liberta enfim.

Já não me apetece descrever mais. Cansei-me. Vou só estar, por agora. Mais nada.

 

 

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