Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]




Figurações

por Torradaemeiadeleite, em 09.02.15



Fresco de Esztergom

Fresco de Esztergom, Hungria - As Quatro Virtudes.

 



O eléctrico 22 passa com dois ou três passageiros sentados às janelas abertas e a publicidade em tamanho grande acrescenta-o de cor. Reparo nas intrincadas ferragens debaixo do habitáculo, os freios chiam e há uma grade que tremelica mesmo sem solavancos na via. Quando passa, fico com a vista do teatro, o Sol como um resplendor do edifício e em contra-luz a Fortaleza, a Justiça, a Temperança e a Prudência - as virtudes, sim, talvez sejam - todas juntas e altas na sombra, na sombra e assombrando.
Aqui convergem os que rondam a hora de encontrar, entrar ou sair e os que pedem moeda, cigarro, sentido. Há esplanadas, comércio, escritórios e trânsito.
De bandeja sai um café e um bolo, noutra mesa as bolhas do fino sobem e juntam-se na espuma arrastada do bordo do copo. Entre golos, os lábios murmuram o que lêem e os dedos escrevem na margem da folha. Um caderno num colo. A cidade. ( Agora, toda a cidade és tu. ) Antes que o pé me falhe e eu fique sem retorno, agarro rápido estas letras desta urbanidade com tarde e minutos de calor nas costas das mãos livres no cabelo em desalinho mais curto que o meu lápis e anoto. As horas da modernidade têm menos minutos que as horas dos dias antigos. Mas a revoada de pombas toma-me de súbito o raciocínio e projecta as suas sombras aladas sobre a esplanada inteira, o espaço fica cada vez mais pequeno e o brilho entrecortado. A tarde todavia agiganta-se porque há muito para acontecer ainda. Mesmo na míngua de horas a variedade de tarefas não cessa e, contudo, não é verdade que se viva mais intensamente. Sigo-lhes o voo por mais uns segundos, até que o movimento alado se esconde no brilho daquele mesmo resplendor atrás dos coruchéus e da cegueira da luz. Ei-los, os dias modernos e os velhos, sentados, estão imóveis nos bancos da praça.
O meu olhar desce ao copo com marca de bebida na imagem da ponte Luiz I. Sobre as águas minerais destacam-se as linhas breves, estilizadas, verdes, na caligráfica "D. Luís I". Sei bem que o "Dom" não pertence ao baptismo da ponte, mas pertence à vida, ao arrebatamento desassossegado e doloroso com que lucidamente amamos as breves eternidades. Rápido, anoto. ( A eternidade transpira, somos eu e tu. )
No sentido inverso do primeiro, outra vez um eléctrico a cortar o espaço, leva mais passageiros, de novo as janelas mais ocupadas que, assim abertas, são o istmo das metades da praça separadas na passagem como as de um mar dito Vermelho. Lembrei-me desta comparação porque a publicidade que leva é a das letras brancas em fundo vermelho - a cor não estará desta vez pelo destino de um povo, mas pela referência ao desculpado prazer duma bebida nas ruas e nas esplanadas. Não adiar a nossa sede. É mais fácil adiar o futuro, como o destes rostos novos que conscientemente se convencem, debaixo do Sol e das ensombradas virtudes, de que a espera não é uma rendição. E não é. É uma migalha de dignidade. As dores continuam a doer mas é assentido que doa em tragos na vez duma corrente contínua e há justiça nesse contrato solitário. 
Os contornos físicos da tarde são infungíveis: o que se observa para lá dos gestos que prolongam o corpo num pedido de algo, e para cá dos olhares estendidos que envergonhados substituem esses gestos, continuará imperturbável, apesar das nossas esperas ou dos nossos méritos.
Esta tarde não muda nada. ( Só nós dois transfiguramos o mundo porque assumimos a sua incompletude. )




Autoria e outros dados (tags, etc)

Related Posts with Thumbnails








Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Torradas com bolor

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D