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No café

por Torradaemeiadeleite, em 20.05.14

 

De Graça Morais - "A Caminhada do Medo", 2011.

 

 

Aguardava já sentado o seu pedido. Não havia mais mesas livres e ao balcão demoravam-se os indecisos que espreitavam uma luminosa variedade de doces e salgados, tão diferentes como os idiomas que habitavam nos últimos dias as horas deste café. Aqui não é perceptível, como acontece logo ali na rua de baixo, se há horas de ponta para o galão e horas mortas. Parece, isso sim, que o mundo se pôs em permanente descontracção, só sai uns minutinhos para ir trabalhar e volta logo a seguir. Aqui o bulício habita todo o dia nas mesas e no balcão, só pára na hora de fechar, mas valham-nos ao menos os estrangeiros para pôr estas máquinas todas a mexer. As máquinas. Entretia-se com estas considerações, procurava entender o corpo de um mundo ao contrário quando o empregado lhe deixou o pão com fiambre e o café e seguiu com outros pedidos a tilintar. Começava a chover. Abriu o caderno e escreveu "a sede tilinta e chovem pedidos". Deteve-se e olhou em volta, adiava trincar a sande e rodava a chávena sem parar. A televisão debitava imagens de discursos, dedos apontando culpas a alguém ausente, legendas em rodapé de crimes e das artes em cena - é tudo vida, sim senhor, e tudo imitando-se. E, ao mesmo tempo, noutros canais, estarão as superficialidades repetidas até à exaustão. Das resoluções profundas e de arroubos de criatividade é que nada nem ninguém parecem querer saber.

O corpo do mundo ao contrário. Não era preciso procurá-lo mais, viu-o bem ali, exposto nos cafés de ruas tão próximas, uns com tudo e outros com quase nada, divididos por rotas turísticas e bufando de canseiras diferentes. Vários países na mesma cidade. Viu-o bem ali nas imagens, a essa corpo virado do avesso que a habituação e o conformismo conseguem, enfim e sorrateiramente, tornar direito, viu-o na distância sem medida que a televisão desenha entre as casas do poder e as casas do sofrer.

Levou o pão à boca e começou a mastigar, intercalava com o café. Os modos portugueses e seculares. Mastigava o pão e as impressões que lia de todos os ângulos. Ás vezes custava-lhe muito engolir e de ano para ano custava-lhe ainda mais sonhar. A chuva não parava.

Na folha do caderno continuou a escrever "nenhum alívio virá dos céus".

 

 

 

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