Crastejos e galegos partilham crenças e saberes e "bailham" juntos na dança do falar. Pelo trabalho documental de Vanessa Vilaverde, Eduardo Maragoto e João Aveledo confrontamo-nos de novo com as histórias de estântegas, acompanhamentos e candeias que nos arrepiavam noite dentro até aos sonhos. Mas como eram magnetizantes estes "passos" contados "achegados ó lume", davam-nos tanto medo como vontade de os ouvir. E ei-los que se eternizavam nos olhos baixos e passagem apressada que fazíamos nos locais onde tinham sucedido, tudo era familiar, tudo era perto. Podíamos ser os próximos a "especar" perante um acompanhamento.
Descubro que as palavras finlandesas podem acentuar o mistério das serranias crastejas, do seu pôr-do-sol de Inverno ou do silêncio que acirra um cão com boca negra.
Já conhecia esta curta-metragem desde 2008 e com legendas em português mas não conseguia reproduzi-la até que no fim-de-semana passado entrou de novo no meu coração pela artéria You Tube.
Mesmo sem tradução, envolvo-me na perspectiva que os olhos do realizador Aki Kaurismäki me apresentam da aldeia que bem vivi, dos rostos conhecidos, do fiar que vi reproduzido também pelas mulheres da minha vida e da música do tio Abel que várias outras vezes escutei.
Deixem a minha ternura pelo meu chão impor-vos uns minutos de Inverno.

Foto da mãe de Torradaemeiadeleite ( vista sobre a capela e Pena d'Anaman - 1985 ).
A estrada despretensiosa que nos leva a Anaman é de terra lavrada pelas águas de Inverno. É contudo um fruto da modernidade comparada com os carreiros e rodeiras desenhados no monte, chão outrora bem batido pelos passos castrejos e carros de bois. À "troula" e carregados com merenda percorriam-se, nalguns locais, autênticos trilhos para chegar ao local da festa onde a Senhora d'Anaman é homenageada. Eu própria vivi essa experiência peregrina com os meus avós. Não, não se sentia a força dum sacrifício nessa jornada, pelo contrário, era o gosto simples de passar um dia num local cuja geografia e natureza são singulares. Acrescia a vantagem de no dia da festa não faltar convívio e música.
Se há recantos que convidam naturalmente à contemplação e meditação, que detém um véu de mistério e uma capa de protecção, a Anaman é um deles.
Mesmo sem festa, este é território familiar e amigo, ao qual se volta sempre que apetece e onde levamos os que acarinhamos, quantas vezes em forma de dádiva, partilha, que só os mais sensíveis podem compreender.
Tive também a fortuna de subir à Pena algumas vezes ( esse marco imponente do relevo castrejo ) e sentir-me no alto dum firme pedestal a observar sem medo, mas com respeito, a capelinha à escala da formiga, o velho castanheiro à escala dum carrasquinho recém-nascido e os lugares à minha volta humildemente espalhados.
Que perene reino de granito nos envolve... lembra-me a fragilidade da minha matéria e o inevitável moldar da minha forma de ser.
Muitas vezes me sento à beira da fonte velha, olhando ainda o fragaredo que devolve o eco da festa ou o piar da águia e do "gabilan", colho nas mãos a redenção da minha sede e na memória os fragmentos daqueles com quem vivi este "meu" lugar.
Quanto tempo e quanto espaço posso ainda esconder nesta corga e nestas tocas, nas frinchas e nos côtos das fragas d'Anaman?
Dizeres castrejos:
à troula - acompanhado, com companhia.
gabilan - gavião.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
São modestas as searas... da minha terra, pequenas, laboriosas e nobres em cada mão que gentil parte o pão.
São de Julho os grãos pendentes, cabeças baixas sob o astro, altivas sobre a terra para depois, escondidos em arcas escuras, se esquecerem da sua divindade.
São assim de centeio humilde estes milagres da saciedade, de espigas prenhes que murmuram... promessas e de gerações que deles dependeram... sofridas.
Assim são hoje guardadas as minhas modestas searas... possuídas em cada olhar e memoradas em simples oração.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Chegou, inevitável, à boleia do tempo mas arrancando à mulata paisagem suspiros de êxtase e risinhos de antecipação. Um rosto prazenteiro e um brilho promissor. Parecia que o Inverno preparava a despedida e entregava o reino ao cavaleiro de armadura reluzente. Porém um bafo frio desenganou a ansiosa pretendente. É Fevereiro, a geada espreita em qualquer canto sombrio e ainda não é hora dum novo rei aqui mandar.
Os verdes estão ainda desbotados, as flores ainda tardam, os ramos parecem mortos mas multiplicam-se os castanhos em diferentes nuances e todas lembram uma miríade de sabores : canela, noz, sultana e cacau, castanha, avelã, baunilha e café, chocolate, amêndoa, caju e pinhão.
Sem nuvens e sem fumo à distância é fácil perdermos o olhar nas estradas vazias, nos declives íngremes e nos reflexos azulados que mascaram a diferença condenando-a a um só tom. Parece que ninguém mora nas paragens do frio e que nenhum barulhar se manifesta aqui, mas é engano que cedo se desfaz. Ouvem-se as vizinhas que se encontram nas hortas, preparando sem demora a terra para os alhos e evitando sabiamente os caprichos da lua nova; ouvem-se os pastores e os cães que gravitam à volta do gando; chilream alguns resistentes que não conhecem as branduras de terras mais quentes e correm ligeiros os regatos de encontro ao rio valoroso. Tudo resplandece nestes dias de Sol e novo fôlego se pode tomar para continuar a acompanhar o ritmo do tempo.
E que seja generoso o correr dos nossos dias.
Fotografia de Carabineiro.
À distância, segue demorado o rebanho de ouro. De cabeças baixas e passos miudinhos, revolvem o chão e escondem-se no pó. Apenas a lã, nos lombos reluzente, quebra brilhando o tom monótono do entardecer. Parecem conspirar ou segredar e delongam, em surdina, a chegada a casa e a exangue luz do dia.
Na paisagem de fogo apenas dois vultos negros, sentinelas do crepúsculo, figurinos perpétuos do guardar e do cuidar. Caminho afora, vara em riste, recebem no rosto e na roupa a terra a esvoaçar, miríade de partículas com brilho suspensas no ar e, sob os passos resolutos mas abreviados pelo torpor do rebanho, o chão mais seco que a seca a torturar.
Resolve-se gradualmente a nuvem poeirenta em direcção ao Sol posto, vai perdendo o ouro, vai perdendo a luz, funde-se depois nas sombras dos penedos projectadas, de mansinho, até que um novo dia lhe restitua a preciosa envoltura.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Vulto franzino, dobrado sob o Sol da tarde, malha o centeio sem nunca se levantar. Aguardo uns momentos para ver outra posição, quero observar o corpo a refazer-se para nova investida, um braço mais alto ou um descanso merecido . Em vão porém esta espera marginal, pois aquele ser parece carregar sobre si o peso das malhadas de todos os anos anteriores, da sua vida e das que o precederam e segue dobrado de encontro ao chão.
Esta alma vestida de negro só mexe o braço direito em monótona tarefa, quase sempre à mesma altura e sempre com a mesma força.
Pam, pam, pam, pam... continuo a espreitar o ritmo deste labor que da espiga rouba os grãos e dos meus dias a modernidade emprestada. Penso nesta oportunidade e apodero-me daquele bater contínuo, transformo-o em minha memória e levo-o ao ( no ) peito.
Do banco de pernas para o ar e da vara mais hirta que a sua dona fazem-se os adereços deste cenário contido, onde giestas e ervas altas escondem de quase todos o palco rude desta solidão e deste viver.
Pam, pam, pam, pam... mais centeio se desprende sobre a manta de sacos, a palha vai-se juntando, o Sol continua altivo e os minutos repetem aquele afazer... interminavelmente.
Seguem-me depois os passos, estes sons secos e torturados, quando me afasto ligeira pelo caminho e sem certeza de os ouvir de novo, repetidos nalguma espiral do tempo ou do espaço.

Fotografia de Torradaemeiadeleite ( Castro Laboreiro, Maio 2009 ).
Nestas escadas quase abandonadas demoro-me mais.
A sua intimidade antiga gera na minha mente imagens que a técnica pode mostrar apenas em parte. Nada, a não ser que eu soubesse realizar filmes, poderia aqui juntar as vizinhas que se cumprimentam enquanto sobem a escada para casa, talvez com um braçado de lenha para compor o lume ou com as couves para o caldo aconchegadas no mandil dobrado... "quê, Maria? ai que se chegar ó lume..." e a saia negra balouçando com o movimento dos joelhos em esforço, o lenço a descair da cabeça, a trança comprida e matizada de branco a espreitar o anoitecer.
As sombras precipitam-se muito cedo no Inverno e já se cruzam no caminho os cães de boca negra que acompanham o gando até à corte. Ladram anunciando a sua chegada e sobrepõem-se às vozes dos pegureiros e aos chocalhos das vacas e dos rebanhos.
É tempo de ultimar as tarefas.
Sente-se o frio da noite chegar mansinho mas decidido, o fumo espalha-se na casa como lá fora, é como um manto de névoa que se insinua devagar e não tem intenção de sair.
A candeia revela os vultos no escano, arqueados sobre o fogo mortiço ladeado pelos potes e só o vai-e-vem da colher, que tilinta na malga e o sôfrego sorver daquela quentura nutritiva quebram a solenidade do recolhimento.
A conversa flui aos poucos, hoje não há novidades. Corta-se mais um bocado de pan ( este ano foi rico em centeio ) e mais um bocado de carne de porco.
Pelas frinchas do sobrado velho vem o bafo quente dos animais na corte; o chocalho teima em acompanhar os movimentos dos que ruminam.
E ruminam pensamentos os que na casa determinam ainda as tarefas do dia seguinte.
Talvez a Maria e as filhas venham fazer seran...
Ouve-se claramente o ladrar dum cão numa aldeia vizinha que acompanha fielmente as horas desta noite antiga.
Nestas escadas quase abandonadas...
mandil = avental
gando = gado
pegureiro = o que guarda o gado, pastor
pan = pão
seran = serão, fazer serão
Estava preparada. Sabia com antecedência que o episódio a não perder seria o do dia 5 de Abril. Avisei os de casa.
Tínhamos até presenciado, em Fevereiro, a equipa técnica a assentar arraiais e toda a agitação que o logotipo RTP pode provocar numa terra menos conhecida.
Sou espectadora da série "Conta-me como foi" e o final do episódio anterior era já o prelúdio para este especial de domingo passado.
Os Lopes deixaram Lisboa rumo à aldeia natal do casal, mais ou menos a 300 km da capital ( sem pontos cardeais, que isso não é relevante ). A avó Perpétua encontrava-se gravemente doente.
Ei-los que vão, 6 amontoados no Austin Marina, sem cintos e com farnel, numa viagem longa e cansativa ( como tudo era distante há mais de 30 anos! ).
Os meus olhos brilharam em cada ponto da viagem, à vista das aldeias, das pontes, da igreja, dos caminhos e das casas, dos montes, das capas das mulheres e dos tanques de lavar a roupa. Tudo me pareceu ainda mais belo porque a televisão tem este poder. Jantei à pressa e colei-me ao ecrã. E ali ficaria, horas a fio.
Castro Laboreiro brilhou como cenário duma aldeia da qual não se sabe o nome, vivida à maneira de 1970.
O Sol envolvia toda a terra e revelou ainda mais o seu potencial.
Gostei muito, até caras conhecidas tiveram os seus segundos de fama como figurantes.
Se tiverem tempo vejam uma parte do episódio, já a seguir, onde estão algumas das imagens que mais gostei.
Os habitués do blogue poderão reconhecer alguns recortes da paisagem e o rio visto da ponte onde pai e filho conversam ( é logo no início desta gentileza encontrada no "tubo" ).
Dias consecutivos de neve, seguidos de chuva impiedosa, trazem esta oportunidade de ver o Laboreiro tomar corpo e percorrer veloz o seu leito acidentado e estreito. As margens densas e pedregosas são também o chão de moinhos dispersos, quase inacessíveis, que aqui moram em pacífica comunhão com o rio.
O Inverno revela-se no desconforto da atmosfera e do corpo mas agita esta natureza ímpar, põe à prova a sua resistência e esta acaba por revelar-se pungente e sofrida. As plantas e os animais que passarem neste teste, povoarão em seguida a Primavera e nunca, como então, a paisagem será mais bela e pulsante de vida...

Fotografia "Testemunhos Graníticos" de Torradaemeiadeleite ( Castelo de Castro Laboreiro ).
Paredes simples e robustas
Como o ser das tuas gentes
Revelam histórias antigas
De mil agruras e combatentes
Miro do teu despido interior
A imensidão da minha terra
E invejo desta herança
Toda a força da minha serra...
Aos ventos que fustigam
Respondes altivo e dramático
E às chuvas que desgastam
Ostentas teu ar enigmático
Tenho-te por guardião e cúmplice
Da nostalgia que trago em mim
És culpado deste desejo egoísta
De te querer só para mim!
P.S.: Para saber mais sobre a história do "meu" castelo espreitem aqui...

O meu “post” número 100 merece um tema centenário.
Mas bom, muito bom mesmo, seria um tema centenário, histórico, artístico e ( porque não? ) raro…
Perdoem-me esta ambição, mas “astronómico” é outro adjectivo que assentaria tão bem ao meu centésimo tema!
Exponho-me ao juízo de quem me ler mas, cá para mim, consegui o que queria . O relógio de Sol que mora na igreja que me baptizou e onde casei, cumpre todos os requisitos e assume hoje um lugar de destaque neste desfile das minhas vontades.
Luz e sombra repetem-se sobre o granito desde há séculos, o gnómon ( o ponteiro ) marca a sucessão dos dias alheio à concorrência do seu parente mecânico, já ali na torre e nunca, como agora, me pareceu tão solene o seu semblante…
Prezo este pequeno tesouro por permanecer numa era que já não é a sua e continuar a cumprir os desígnios para que foi esculpido. Se eu não soubesse melhor, diria que é de teimosia que se trata, mas disto o “meu” relógio não sabe nada. Para ele nada mudou: o Sol continua a nascer e a pôr-se, os dias grandes continuam a suceder aos pequenos, a terra continua a girar sobre si mesma e à volta do Sol e a “sua” igreja continua no mesmo chão. Por quê a admiração? Compreendo-o mas venero a sua longevidade…
Em todo o país estão inventariados poucos mais que 700 relógios de Sol ( nem todos em bom estado ) e são ainda mais raros aqueles que nasceram antes do séc. XVIII. Os seus estilos e ornamentos variam imenso, também consoante a cultura local, aglomerando no seu ser conhecimentos científicos, artísticos, históricos e técnicos numa simbiose que brilha!!
Longa vida ao “meu” relógio de Sol e que eu possa fotografá-lo daqui a muitos anos!
. Porque hoje também neva e...
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