Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Antes de Domingo

por Torradaemeiadeleite, em 03.10.14

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

 

Antes que chegasse Domingo, propunha-se a revelação dum mistério e a participação do divino. Tratava-se de religar pelas mãos femininas e perpetuar os gestos antigos, tratava-se de nutrir para não deixar de sentir e, sem saber, permitiamo-nos fazer parte dum eterno retorno.

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Génesis

por Torradaemeiadeleite, em 02.05.14

 

Fotografia com memória de Torradaemeiadeleite.

 

 

Os caminhos eram os nossos teatros. Não eram só feitos para andarmos neles, serviam também as tábuas do nosso enorme palco. Encenávamos as casas onde repetíamos o que víamos todos os dias. Dos adultos trazíamos os afazeres e as ordens que proferíamos, todos os planos que mantinham a rotina como chave mestra da vida, mais os gestos, e os palavrões que ouvíamos chicotear o ar. Já nos era perceptível então que  viver não era fácil, mas ser adulto era a melhor ideia que tínhamos da força e do poder e é tão sedutor ser forte e poderoso.

Dirigíamos também nos caminhos as profissões que conhecíamos, se compras, vendo, curas gente e arranjo carros, pilotas aviões e sou pedreiro, és polícia e levamos ladrões p´rá cadeia. Ensinámo-nos uns aos outros.

O medo de ir para a cadeia. Queixo-me a si, senhor guarda, para que prenda este passado que atenta agora contra a ordem dos meus dias, estes dias assépticos da minha terra que não tem crianças com canelas sujas e ranho nas mangas da camisola, crianças que massacravam o chão e urravam e faziam de conta que eram peregrinos em procissões, que responsavam sem entenderem o que diziam, que eram os chorosos doridos de animaizinhos mortos levados a enterrar com muita cerimónia e menos dor, estes namorados a bailar e a brincar aos pais e às mães - venha senhor guarda, prenda-o, que este passado tem culpa grande e grave, a de não voltar a ser presente.

Nos caminhos injuriávamos os animais que se cruzavam connosco. Para eles, o nosso palco era uma travessia de imprevisível dificuldade e provável ignomínia. Ilustro com exemplos básicos - acirrávamos os cães para os ver engalfinharem-se, ter espectáculo de assombro, até mesmo de sangue, que atraía raios que nos partiam saídos da boca de quem nos apanhava e, em dias de mais cândida inocência, gostávamos de pôr os galináceos a fugir espavoridos, alvos em movimento errático para os que provassem ter mais destreza e pontaria fina, cacarejavam-nos impropérios com certeza, como os donos que calhava de aparecerem, e os lagartos,  escapuliam-se pelos buracos das paredes com menos corpo do que quando chegavam à nossa vista. Mas estes eram os mais felizes porque, nos dias de memorável arroubo, tudo o mais que respirasse e tivesse locomoção, desde que em escala menor que a nossa, servia para saciar a despótica natureza infantil e a vontade de experimentar novas bizarrias. Nós, os pequenos loucos cientistas, dos que sonham o mundo à sua mercê, nós, os pequenos césares vaticinando vida moribunda ou morte lenta aos bichos que se perfilavam na nossa presença.

Nos caminhos adiávamos a hora da merenda porque era mais urgente procurar nos pardieiros os objectos renegados e lançados para o degredo de silvas e pedras, outrora reinos íntimos depois rendidos à anarquia e à invasão das hostes imberbes. Procurávamo-los e, sem suspeitar que o fazíamos, devolvíamos-lhes as suas identidades, readmitíamo-los à sua função e havia ainda aqueles que adaptávamos para outras utilidades, generosamente reciclados e ajustados, umas vezes baixando de posto, mas noutras, em raras fortunas, elevados a um destaque jamais sonhado pela sua humilde essência. E às partes atribuíamos-lhes o todo - o caco da tigela era a tigela inteira, o gargalo da garrafa ia à mesa como garrafa capaz, o farrapo da saia era a saia mais que perfeita para a boneca.

Nada disto assimilávamos como sendo ensaios da vida, disso encarrego-me agora eu espreitando por esta fenda para a minha memória.

Os caminhos eram os nossos teatros e neles também escrevíamos o nosso Génesis. Criámos neles mundos à imagem desse tempo primordial e rural e por isso desfalcados de bibliotecas, de computadores e de internet, de cinema e de centros comerciais, destituídos de telemóveis, mundos-filhos de um universo com propriedades únicas porque são irrepetíveis.

As casas têm agora portas fechadas e chaves escondidas, os teatros de então são só caminhos para andar e estão muito mais limpos do que naqueles anos. As galinhas estão confinadas a espaços vedados à cobiça da raposa porque já não há movimento de gente nem cães que as defendam da natureza selvagem que chega cada vez mais perto da soleira das portas. Os lagartos andam tão tranquilos que qualquer hora já nem sabem que podem perder e ganhar os seus rabos.

As crianças voltam de vez em quando, já não formam hostes, nem em número chegam para agrupar e invadir tudo à sua volta. Sei de aldeias que não têm nenhuma criança. E então quando chegam, não dizem palavrões, não limpam o ranho às mangas, respeitam os animais porque lhe têm medo ou porque percebem que têm direito à vida, e não correm porque os caminhos estreitaram com tantos ramos por podar, esburacaram-se porque não há quem os repare mas, sobretudo, porque não têm motivos para correr - não têm companhia que as desafie para provas de velocidade e de força, para uns saltos no vazio das varandas de granito, outros que lhes digam que em tal sítio encontram muitos enredos e o primeiro a chegar lá terá a sorte de escolher os melhores cacos. Mas, que cacos? Não se brinca com cacos e não se apanham coisas do chão. Mas, que cacos, insisto? Se não há gente, não pode haver cacos.

Nos caminhos vivemos mais horas do que em casa e agora eles estão em ruínas, como os pardieiros em que nos aventurávamos. Os caminhos estão a perder gente, mas há muitos anos que perderam as suas crianças.

E ainda como os pardieiros, os meus primeiros palcos já são só pedras e pó, com silvas a enredarem-se em si próprias.

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

A princesa insensível

por Torradaemeiadeleite, em 27.08.12

La fille du roi encore une fois

Dans son théâtre va s'ennuyer

 

Car l'amuser est impossible

Rien n'interesse la princesse insensible

 

Les plus doués ont tout tenté

Même c'est en vain pour le d'évince

 

Vive le prince irrésistible

Qui interésse la princesse insensible.

 

Pela sensibilidade de Vasco Granja, inesquecíveis o trabalho e o homem, conheci esta pérola da animação que tatuou a minha infância. Revivo-a no Youtube  pela generosidade de quem lá pôs o vídeo e me deu a oportunidade de reviver uma aposta marcante da programação da RTP.

Escolhi o episódio final porque reúne a solução do mistério e as diferentes tentativas de "sensibilizar" a princesa, tarefas que se reproduziam ao longo de breves episódios que seguia no programa do mestre e  dos quais sobressaía distintamente a música do genérico cantada fininha em francês. Como pôde o príncipe jardineiro e o que andava numa mota imaginária terem persistido até  este momento mais do que os outros pretendentes? Como puderam o tamanhinho da princesa e a imensidão do seu trono terem gravado uma imagem tão perene na minha memória?

Só anos mais tarde reparamos no nome dos talentosos da animação. Prazer em conhecê-lo monsieur Ocelot e obrigada.

 

 

 

 



Autoria e outros dados (tags, etc)

Sobre um fundo de quase Outono

por Torradaemeiadeleite, em 15.04.12

As fotos "oficiais" que tenho respiram a solenidade do estúdio fotográfico e das manobras que o fotógrafo encetava para a dignidade do registo. Figuras estáticas contra cenas pintadas de natureza, jardins apalaçados ou ainda breves composições com pequenas floreiras e cadeiras escultóricas. Os corpos compostos à espera do passarinho e descompostos assim que se desistia de o ver.

Mas é sobre o cenário em fundo de uma delas que vos vou escrever. Nesse tempo, no estúdio que hoje me inspirou, reinava um bucólico fundo de Outono, ou quase Outono porque as árvores mantinham as folhas verdes miudinhas viçosas  mas quase todo o espaço à sua volta era de vários tons de castanho esfumado e assim  imprimi na minha memória aquela meia-estação. Não deve existir casa no município que não tenha fotografia com fundo de tons outonais daquele bosque de parte incerta onde ficávamos entre árvores emolduradas por céu um pouco azul, muito castanho e branco ainda pelo meio, as nuvens talvez.

Nunca me pareceu, disso tenho certeza, mata portuguesa e eu gostava mesmo daquele "exotismo".

O cadeirão de vime entrançado com costas em arco generoso, desenhos retorcidos, muito da moda, também fazia parte da composição quando era preciso distribuir vários figurinos na mesma fotografia ou ainda quando um recém-nascido se apresentava pela primeira vez ao pai emigrado, com anteparo de almofada grande e fofa, o olhar preso à luz da máquina habilmente oportuna ( Verão ou Inverno, com eterno Outono ao fundo, nasci para ti ).

As caras ou as poses mais fotogénicas tinham direito a figurar na montra do pequeno estúdio ou então aquelas que assertavam as qualidades singulares do fotógrafo experimentado. De facto, era honroso destacar-se alguém por entre tantos iguais Outonos, quase Outonos, mais ainda na vizinhança de baptizados e casamentos com caras pomposamente adequadas à ocasião. Era também nesta montra que eu demorava algumas vezes e sempre gostei de ver aquelas fotografias com fundo quase Outono, mesmo de pessoas desconhecidas, pelas razões imaginadas ou comprovadas para ali terem ido fotografar-se.

E via que posavam as moças solteiras ( para mandar a foto ao namorado secreto? ), aprumadas e bem penteadas, cabelo solto em eterno feminino, ah Rapunzel de olhos doces, sorriso acanhado, em sedução camuflada ou inocência enlevada ( Verão e Inverno esperarei por ti e  com o Outono por testemunha saberás que penso em ti ).

Voltava meses ou anos mais tarde a mesma moça para posar, já com o seu bem esperado, ou então poderia ser outro que não aquele para quem ultimamente posara, mas tudo o tempo compõe e o tempo é feito de mudança, vamos fotografar o namoro que depois nos casamos e a próxima será uma nova andança.

Verão ou Inverno, com eterno Outono ao fundo, a vida era geminada nas fitas dos negativos, mostrada aos vindouros e emoldurada solene sobre o móvel da sala ou na parede do quarto.

Os anos passavam afinal e aquela estação continuava presente na montra, destronada só às vezes pelos que tinham a certeza de merecerem ser diferentes e exigiam um fundo de fotografia mais raro.

Noutros estúdios outras estações estacionaram, outros gestos gesticularam, outros flashes flasharam e muitos passarinhos foram mesmo vistos e voados. Mas escrevo-vos agora que todos vinham depois bater asas para estas ramagens de Outono ou quase Outono de paragem incerta, naquele estúdio agora fechado, poisavam entre as folhas verdes viçosas em animada chinfrineira, perscrutavam o céu castanho, posavam com muitos dos meus conhecidos nas suas fotos oficiais e serenavam por fim naquela ingenuidade bucólica. Ficaram para sempre nos lares daquele interior minhoto.

 


Autoria e outros dados (tags, etc)

Sob o signo d'Anaman

por Torradaemeiadeleite, em 25.09.10

 

                Foto da mãe de Torradaemeiadeleite ( vista sobre a capela e Pena d'Anaman - 1985 ).    

   

A estrada despretensiosa que nos leva a Anaman é de terra lavrada pelas águas de Inverno. É contudo um fruto da modernidade comparada com os carreiros e rodeiras desenhados  no monte, chão outrora bem batido pelos passos castrejos e carros de bois. À "troula" e carregados com merenda percorriam-se, nalguns locais, autênticos trilhos para chegar ao local da festa onde a Senhora d'Anaman é homenageada. Eu própria vivi essa experiência peregrina com os meus avós. Não, não se sentia a força dum sacrifício nessa jornada, pelo contrário, era o gosto simples de passar um dia num local cuja geografia e natureza são singulares. Acrescia a vantagem de no dia da festa não faltar convívio e música.

Se há recantos que convidam naturalmente à contemplação e meditação, que detém um véu de mistério e uma capa de protecção, a Anaman é um deles.

Mesmo sem festa, este é território familiar e amigo, ao qual se volta sempre que apetece e onde levamos os que acarinhamos, quantas vezes em forma de dádiva, partilha, que só os mais sensíveis podem compreender. 

Tive também a fortuna de subir à Pena algumas vezes ( esse marco imponente do relevo castrejo ) e sentir-me no alto dum firme pedestal a observar sem medo, mas com respeito,  a capelinha à escala da formiga, o velho castanheiro à escala dum carrasquinho recém-nascido e os lugares à minha volta humildemente espalhados.

Que perene reino de granito nos envolve... lembra-me a fragilidade da minha matéria e o inevitável moldar da minha forma de ser. 

Muitas vezes me sento à beira da fonte velha, olhando ainda o fragaredo que devolve o eco da festa ou o piar da águia e do "gabilan", colho nas mãos a redenção da minha sede e na memória os fragmentos daqueles com quem vivi este "meu" lugar. 

Quanto  tempo e quanto espaço posso ainda esconder nesta corga e nestas tocas, nas frinchas e nos côtos das fragas d'Anaman?

  

 

Dizeres castrejos:

à troula - acompanhado, com companhia.

gabilan - gavião.  


 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O devir

por Torradaemeiadeleite, em 09.12.09

 

 

                                                              Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

À espreita, com os fantasmas por sua vez atentos aos nossos gestos.

Mamã, que 'tás a ver? Nada, tudo. Vejo o tempo em círculo eterno, a Natureza que se repete, a imagem nova que a tua curiosidade me revela.

Eles, os fantasmas que nos observam, também tecem pensamentos: estes somos nós, ua forma de nós. Ua vida despois d'outra. Estan ali porque nós já ali estuvemos antes deles.

Nem tábuas, nem pedras, vidraças ou teias, nem luz, nem sombra, escadas ou portas ameaçam um momento que contém todo o Tempo. Este. Este momento exactamente. Nada à nossa volta nos pode amedrontar, nem rangendo, nem enegrecendo, finas ou frágeis, nem rara, nem imensa, tortas ou esburacadas. Porque nos envolvem ternamente e nos saúdam com seu abraço, colocam-nos com sentido num espaço de tantas vidas e muito acertadamente nos ramos duma árvore singular.

Mamã, que 'tás a ver? Nada... tudo. Absolutamente tudo.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Compact Cassette

por Torradaemeiadeleite, em 23.09.09

 

 

 Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

Li recentemente na Ípsilon online um texto de Mário Lopes sobre a relação entre a tecnologia e a música. Aconselho a sua leitura. O começo é original: "A Cidade e as Serras" de Eça de Queirós introduz um assunto que aparentemente não tem nada a ver e continuamos por aí fora até chegar ao "upgrade informático".

Releio o texto mas é nas cassetes que me detenho. Vou buscar as minhas e pego na máquina fotográfica. Mais tarde comecei a escrever.

 

Não foi nos anos 80 que mais  as utilizei , nessa época contentava-me com os "discos pedidos" na rádio e com o "Top Disco" no canal 1. Ironicamente foi já na era do compact disc que as minhas cassetes cresceram e se multiplicaram.

Na primeira metade da década de 90 "acordei" para a música e para a escrita ( a primeira inspirava frequentemente a segunda ), adquiri livros com as letras dos U2 e dos Pink Floyd e foi nesse tempo que senti a necessidade de "transportar" a minha música preferida. O meu walkman era muito mais económico que  o leitor de CD portátil e   a cassete continuava a ser o meio mais acessível e universal para difusão e troca de música com os colegas de escola. Foi com as suas gravações que conheci os Doors, os Guns n' Roses, a "Angie" dos Rolling Stones ou ainda o "Stairway to Heaven" dos Led Zeppelin. Foi com os registos do namorado que ouvi pela primeira vez Gary Moore, Sisters of Mercy e All About Eve.

Fazer selecções "especiais" para oferecer, apurar a qualidade da gravação, adicionar ao vocabulário  mono ou  stereo,  noise reduction, write protection, auto reverse, embelezar a caligrafia para os nomes das músicas, escolher as cassetes da marca X porque tinham mais qualidade de som e as de 90' porque davam para mais que as de 60'... todos estes rituais fizeram parte da minha adolescência ( fisiológica e musicalmente falando ).

Mas como resistir à mais-valia da tecnologia? Um MP3 é muito mais pequeno que um CD ou uma cassete e nele cabem, como diz Mário Lopes, "20 mil orquestras e 40 mil bandas", já para não falar na limpidez dos sons que reproduz.

As minhas cassetes continuam a ocupar o seu ( e meu ) espaço, ouvi-las será um acto puramente revivalista e, tenho certeza, quantas vezes cómico!

Corre  por aí o rumor de que a cassete voltará à ribalta... E se o vinil consegue, por que não aquela caixinha plástica com fita magnética?

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

"Koniec"? Não... "a continuar"!

por Torradaemeiadeleite, em 05.05.09

É incontornável falar de Vasco de Oliveira Granja neste espaço pessoal. Mas sinto que já o deveria ter feito pois muito do meu gosto pela animação foi  incentivado pelo seu programa "Cinema de Animação" na RTP.

Curiosamente os desenhos que mais lembro são aqueles cujos autores tinham nomes quase impronunciáveis, vinham de terras que, na altura, me eram estranhas e cujos traços e técnicas eram os mais invulgares. Estes e muitos mais, reportam-me ao ecléctico e memorável momento televisivo dum senhor que se recusava a subestimar o mais novo dos seus públicos e lhes apresentava e explicava o trabalho das diferentes escolas de animação.

Por deixar indiscutível marca na minha formação cultural e por todo o trabalho que desenvolveu além da TV ao nível da BD em Portugal, lhe agradeço e o saúdo: até ao próximo programa, Sr. Vasco Granja!

 

                                    

 

                     "Seasons" - Filme de animação de 1969 de Ivan Ivanov-Vano ( Rússia ) 

                                       Música de Tchaikovsky.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O que dizem as nossas fotografias

por Torradaemeiadeleite, em 06.02.09

 

Não me refiro às fotografias "oficiais" ou tiradas por mão profissional, escrevo sobre aquelas que da mão dos meus pais retratam, pela primeira vez, os momentos banais, o dia-a-dia, os cantos da casa, os meus brinquedos, os espaços exteriores, os amigos, as rotinas e até os humores.

Anoto ainda a essência irónica dessas fotos que, alheias à sua natureza instantânea e simples, pretendem reclamar para si uma espécie de eternidade...

Processadas no interior duma Kodak Colorburst 300, com mais ou menos 90 segundos de distância entre o click e o futuro, foram o prelúdio da fotografia na minha família e representam também  o primeiro assédio da tecnologia fotográfica ao espírito curioso e oportuno dos meus pais.

Viciámo-nos  com esta liberdade de tirar uma fotografia quando nos apetecia,  em qualquer lugar e com a vantagem de não ter que esperar muito pelas imagens. Que melhor fórmula poderíamos encontrar, à data, para iniciar esta mania familiar de desafiar o tempo e a imprecisão da memória?

A velhinha "explosão de côr" instantânea era fabricada nos E.U.A entre os anos 1978 e 1980, mas o seu reinado parecia ter, logo à partida, um fim anunciado. A Kodak pretendeu concorrer com a Polaroid no contexto das instant cameras mas esta alegou violação dos direitos da patente e em 1986, por decisão judicial, a Kodak teve que retirar as suas máquinas do mercado.

Permanece-lhes associada porém esta aura cultural e o valor sentimental que os donos espalhados pelo Mundo lhe depositam.

Quanto à nossa primeirinha máquina fotográfica, tem em mim a sua guardiã e a vontade de salvar as fotos que gerou nos seus escassos anos de actividade, antes de ser substituída, no início dos anos 80, por uma hiper, super-moderna Canon AE-1 Program.

Presto-lhe então esta singela homenagem, partilhando um pouco do que ela captou.

Obrigada por  nunca teres falhado um click e por proporcionares testemunhos fotográficos duma época especial nas nossas vidas!

Como ensinava o vídeo, vou agora ouvir o que as fotografias têm para me dizer e, quem sabe, assim, não estarão mais perto de viver para sempre?

 

 

 

 Fotografia e composição de Torradaemeiadeleite.

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Mais um tema esp(e)acial...

por Torradaemeiadeleite, em 09.01.09

O Espaço é um tema recorrente no meu blog mas faltava-me esta pièce de résistance...

 

                               

 

A música e respectiva letra compõem um par  soberbo e ganham vida na versão portuguesa com a voz de Pedro Malagueta. A série nasceu em Janeiro de 1982 e o seu autor é Albert Barille.

Obrigada, M. Albert por ter contribuído de forma inesquecível para o despertar da minha curiosidade por aquele assunto e por estes ainda:

 

  

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Berliner Mauer

por Torradaemeiadeleite, em 09.11.08

                     

 

Fotografia "Berliner Mauer" de Cheguelo.

 

Além de salientar a existência, no passado, dum muro berlinense que dividia mais do que o espaço físico duma cidade, quero enfatizar a ausência actual do mesmo. Importa-me destacar esta perspectiva porque quero que seja a mais perene e também a mais relevante.
O meu gene utópico desabafa apontando que o destino deste muro deveria ser copiado para outros semelhantes que ainda persistem ( Gaza, E.U.A/México, Coreia do Sul/Coreia do Norte,... ) e para aqueles que, não sendo de cimento e arame, podem ser mais difíceis de derrubar.
Utopia à parte, foi com ironia que aprendemos: primeiro constrói-se e conhece-se o rosto dum muro para só depois valorizar a cicatriz deixada pela sua transformação. Onde antes existia um obstáculo ao sonho e à comunhão e cuja transposição se pagou mesmo com vidas, desenha-se agora um rasto de memória, uma linha no chão de Berlim, discreta mas inspiradora e plena de significado.
Faz sentido que exista para evocar um episódio da história mundial marcado por uma guerra fria, estados de tensão quase permanente e privação de liberdades individuais. Faz sentido que exista também para provar que é possível mudar o que está mal.
Aproveitando para apelar para o fim de outros muros, celebre-se então o princípio da ausência deste, chamado de Berlim, a 9 de Novembro de cada ano e relembre-se uma noite plena de sentido humano que ecoa desde 1989!

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Regresso à escola

por Torradaemeiadeleite, em 26.09.08

 

 

  Fotografia de Torradaemeiadeleite ( Abril de 1993 ).

 

A última vez que deambulei por esta sala de aulas, há 15 anos, tirei algumas fotografias que agora se revestem de maior importância do que naquele dia. Claro que os meus afectos, já na altura, me guiaram para esse registo mas foi ontem mesmo, quando as revi com mais cuidado que me apercebi da oportunidade desse momento.

Antes disso nunca tinha fotografado aquele interior e desde então não voltei a entrar porta adentro, limitei-me a espreitar pelas janelas e a resignar-me perante o abandono  daquele espaço...

Vislumbro ainda algumas lições, as brincadeiras nos intervalos, a lareira ( que era também o local onde íamos afiar o lápis ) e a nossa biblioteca, uma modesta estante com duas portas de vidro, mais baixa que a professora, onde repousava ainda o globo terrestre e outros volumes que na minha memória se apresentam desfocados.

Preservo ainda  um breve momento do primeiro dia de aulas, aquele em que me sentei ao lado duma colega um pouco mais velha do que eu, numa daquelas carteiras de madeira já sovada e com o banco preso, olhando a professora que falava ainda com a minha mãe. Senti-me pequena, um pouco perdida talvez.  A roupa aprumada e nova denunciava a importância do momento. O Sol comtemplava-nos com a luz de um Outubro iniciático e que estranho foi, anos mais tarde, começar as aulas em Setembro.

Os quadros de lousa, com tantas recordações apagadas, o soalho de tábuas tão torturadas por pezinhos de várias gerações, os enfeites de papel abandonados no tecto, as janelas altas que interrompiam as paredes outrora brancas, algumas carteiras tristes e até um ninho desabitado, foram os protagonistas das minhas fotografias. O globo sobrevivia ainda à época e não hesitei em fazer brincadeiras fotográficas tendo a minha priminha por modelo... paciente e solicitamente ela correspondia com perfeição aos meus devaneios.

Com o olhar e a vivência de agora com certeza acrescentaria outras perspectivas e elementos às  fotografias da minha primeira escola, mas também por isso aquelas imagens adoptam um significado próprio e irrepetível. A meu ver, uma fotografia pode revelar muito do objecto capturado, mas diz  ainda mais de quem a tirou e do momento em que se gerou...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

O meu 1º ( único ) solo de guitarra

por Torradaemeiadeleite, em 16.09.08

Muito antes de saber ler tudo o que estas palavras encerram, orgulhava-me de mim própria por saber de cor esta belíssima letra e atrevia-me até a imitar o solo da guitarra... Convenci-me a tal ponto da qualidade da minha performance que a apresentei àquele que agora é o meu partner in crime... para o impressionar, achava eu... mas ainda hoje ele não se atreve a dizer-me a verdade sobre o que viu e ouviu.

Então, reza assim uma letra que nasceu para o público em 15 de Setembro de 1975:

 

 

 

 Imagem "emprestada" pelo Google...

 

                       So, so you think you can tell 
                       Heaven from Hell, 
                       Blue skys from pain. 
                       Can you tell a green field
                       From a cold steel rail? 
                       A smile from a veil? 
                       Do you think you can tell? 

                       And did they get you to trade 
                       Your heros for ghosts? 
                       Hot ashes for trees? 
                       Hot air for a cool breeze? 
                       Cold comfort for change?
                       And did you exchange
                       A walk on part in the war 
                       For a lead role in a cage? 

                      How I wish, how I wish you were here 
                      We're just two lost souls 
                       Swimming in a fish bowl, 
                       Year after year, 
                       Running over the same old ground. 
                       What have we found? 
                       The same old fears. 
                       Wish you were here.

 

               ( Waters, Gilmour - Pink Floyd, álbum "Wish You Were Here" de 1975 )

 

 

P.S.: farewell, Richard Wright...

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Imagens de Centeio

por Torradaemeiadeleite, em 04.07.08

 

Conheço o ondular das searas de centeio e a sua cor dourada pelo Sol de Agosto, parecem cabelos sedosos e soltos, lindos brinquedos do vento do fim da tarde.

Sei como se lamentam as suas espigas quando os braços de homens e mulheres as fustigam com o malho indolente e revejo em cada eira as mantas que acolhem os grãos em queda miudinha.

Conheci também os ruídos da máquina debulhadora nos tempos em que se semeava mais cereal e se dependia mais dos seus proveitos e como eram lindas as medas ordenadas à volta da eira, cada espaço cativo do seu dono, ano após ano! Várias eiras em cada aldeia e muitas medas, de diferentes tamanhos, em cada uma delas.

Lembro-me da confusão dos chamamentos, dos comentários apimentados, da poeira à volta da máquina e dos sacos de pano gordinhos de centeio. Havia tarefas para todos, graúdos e miúdos, e que longos eram os dias nesses verões transpirados…

Conheci os moinhos e os caminhos tortos que levavam até eles, as águas que comandavam as mós incansáveis e monótonas para torturarem o grão e torná-lo farinha, e lembro-me bem da fina camada branca que vestia o interior escuro das paredes de granito.

Na masseira grande com tábuas de carvalho já enegrecidas, a minha avó misturava os ingredientes. Os movimentos das suas mãos, fechadas em punho, obedeciam a uma cadência que ela ainda conhece bem mas já não consegue repetir. A massa ouvia solenemente uma reza: “São Mamede te levede/ São Vicente te acrescente/ São João te faça pão/ Nossa Sra. te ponha a sua divina mão/ Pela Graça de Deus e da Virgem Maria, Ámen “. Depois de afagada pelo calor de mantas e já levedada, era dividida em porções colocadas nas tábuas largas de madeira. Transportadas até ao forno comunitário, já limpo, quente e pronto para cozer o centeio preparado, novamente se rezava: “Cresça o pão no forno e o Bem de Deus pelo Mundo todo/ Saúde aos trabalhadores e aos benfeitores/ Bruxas e zângãos para debaixo do forno”.

Conheço bem o gosto que tem a “tenda”, uma porção mais pequenina  que se tirava mais cedo do forno para saber se a proporção dos ingredientes e o tempo de levedura tinham sido os correctos, antecipando assim o sabor do pão. Ainda quente, simples ou com manteiga, reconfortava os que aguardavam o momento certo para abrir a porta e transportar os pães de volta a casa.

Mas tantas tarefas e árduo labor são, enfim, coroados por este bem maior… fazer do ouro em grão o pão que nos sustém!

Para mim, faz sentido este elogio. Esquecemos com relativa facilidade a importância que o pão tem nas nossas vidas e quanto da história e cultura humanas lhe está associado. É ainda um alimento simbólico, cheio de religiosidade e com um elo muito especial ao ser feminino.

Faz também sentido porque lhe associo memórias pessoais e colectivas, como as que puderam ler, e faço dele  um testemunho intemporal…

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Related Posts with Thumbnails







Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Torradas com bolor

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D