Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Laranja colhida

por Torradaemeiadeleite, em 14.04.17


Colhe-me uma laranja 
para que eu rasgue a cor madura
que tolhe a sua lividez
e esconde a morte pronta do fruto.
Colhe-me uma laranja
e espalharei o grito impossível da ferida, 
que nenhum poente é agora doce 
e o fragor interno ficou menos
do que um breve choro inaudível.


 

 

Torradaemeiadeleite

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.


Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Não leio, não escrevo

por Torradaemeiadeleite, em 24.03.17

 

 

Não leio, não escrevo
ressaco
alucino
dilacero.

Não leio, não escrevo
amordaço
diminuo
fustigo.

Não leio, não escrevo
brutalizo
saqueio
e mutilo.

 

Vivo
nas vezes que me mato
Adiado
nos segundos que vivo.


                                                                       *(de Setembro.2014, reescrito)


torradaemeiadeleite


Fotografia de Torradaemeiadeleite.



 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Condenação

por Torradaemeiadeleite, em 29.04.16

 

 

 

Entre escolhos, navegamos as marés sem mapa, certos apenas da incerteza abissal.
Na amurada, sentimos as vagas que gelam a temeridade.
Confirmamos a ausência dos fogos no lar da noite e antecipamos:
tudo pronto para nos atirarem, ainda a respirarmos, para um mar de impossibilidade que coagula a nossa compreensão.


 

Torradaemeiadeleite

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.




 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Poema sem título

por Torradaemeiadeleite, em 04.06.15

 

 

Poema

Fotografia de Torradaemeiadeleite.


 


Vagas incendiárias e foragidas
atiram-se dum tempo sem corpo
aos cultos de areia 
e às torres de osso

Ouço-as, são loas a heróis feridos

 


Das velhas demandas, já puídas
de invernos, repetem os possíveis
e guardam as auroras,
os seus tons infungíveis

Cintilam ali, no intervalo de ondas ruídas


Menos que pó, seria já o nobre sentir
mas dizei-me que ele é escondido,
um átomo vibrante e só
nos recessos do útero fendido

Esse embrião do magno devir


Que nos rasguem a pele, o sangue a fulgir,
e na preclara fome da noite
morreremos, sem nome

Para do nada tirarmos a vida e

do absurdo a razão de sentir.




 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Formas especulares

por Torradaemeiadeleite, em 03.11.14

 

Dalí - mulheres imitando uma escuna, 1940

Salvador Dali - Mulheres imitando escunas, 1940.

 

 

 

Infladas velas de escuna

trementes esteios de sal

em procissão

para os rumos abissais

 

reflectem ao longe

( espelho milenar )

 

os vultos negros em terra
que lapidam a face do medo

com grãos finos de imensidão.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

...

por Torradaemeiadeleite, em 17.09.14
 
Greg Dunn - Células Neuronais e Hipocampo.

 

 

Não leio, não escrevo.

Ressaco

alucino
prevejo.

Não leio, não escrevo.

Brutalizo
diminuo

faço desaparecer.

Não leio, não escrevo.

Mastigo
despojo
mutilo.

Não leio, não escrevo.

 Corrompo-me
todas as vezes que mato

Adio-me

em cada hora que vivo.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

...

por Torradaemeiadeleite, em 17.09.14

 

 

 

Greg Dunn - Células neuronais.

 

 

Esteios de corpo moribundo, 

armadura com guerreiro caído,

contraforte em parede ruída.

 

Assim tanto em vão,

 

reanimar a vontade exaurida. 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Da filosófica poesia

por Torradaemeiadeleite, em 20.08.14
 
 
 
 
 Vincent van Gogh, "A Estrada de Poplars ao Pôr-do-Sol", 1884.

 

 

"A todos o Céu esconde o livro do Destino,

Salvo do seu presente a página prescrita;

Quem poderia viver sabendo o que ignoram
Dos humanos os brutos e os homens dos espíritos?

O teu prazer condena hoje o cordeiro à morte,

E se ele salta e brinca é que ignora a sua sorte.

Feliz até ao fim, no prado ei-lo a pastar,

E lambendo depois a mão que o vai matar.

Ó cegueira do porvir, que apiedado o Céu doou
A cada ser do círculo que ele traçou:

Deus sobre todos, ao qual só é dado ver

O pássaro cair como o herói perecer;

Átomos e sistemas que em ruínas sucumbem,

Ora uma bolha de água, ora depois um mundo."

 

 

 

Alexander Pope - de "Ensaio sobre o Homem", 1733-34.

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Poesia e animação

por Torradaemeiadeleite, em 06.07.14

 

 

Domingando para lá da chuva.

Poema "The Man With The Beautiful Eyes" de Charles Bukowski em filme de Jonathan Hodgson e animação de Jonny Hannah.

 

 

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Cega Anatomia

por Torradaemeiadeleite, em 11.05.14

 

 

Penso que de todos os sentidos a visão será o que mais se revela em ditados populares, expressões e metáforas, mas também aquele que do seu principal verbo ( ver ) retira muito mais que só olhar.

Assim me levei até a um jogo de palavras onde os olhos e o homem são dimensões maiores que a sua anatomia:

 

 

Wyeth_Eight_Bells


Pintura de Andrew Wyeth.


 

 

Nu, magra sombra

logo morto de cor,

assim ao espelho - eu

menino de meus olhos

 

                      perplexos

 

Uma forma apenas

sem coração que vê,

a mente escurecida

e alma cega também.

 

Vítreos, só profundo mar,

dois olhos anoitecidos

minhas quietas moradas

meus perenes olvidos

 

             ainda perplexos

 

Estes frios despojos

os náufragos de mim,

sombras lisas do ser

já esquecidos de ver.

 

 

 

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Tags:

Poemando

por Torradaemeiadeleite, em 07.05.14

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

"Volta até mim no silêncio da noite
a tua voz que eu amo, e as tuas palavras
que eu não esqueço. Volta até mim
para que a tua ausência não embacie

o vidro da memória, nem o transforme
no espelho baço dos meus olhos. Volta
com os teus lábios cujo beijo sonhei num estuário
vestido com a mortalha da névoa; e traz
contigo a maré cheia da manhã com que
todos os náufragos sonharam."

 

 

 de Nuno Júdice - "Volta até mim no silêncio da noite"

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

Peripoemando

por Torradaemeiadeleite, em 03.02.14

 

Fotografia de Eugene Atget, 1901.


"Eu contarei a beleza das estátuas - Seus gestos imóveis ordenados e frios - E falarei do rosto dos navios Sem que ninguém desvende outros segredos Que nos meus braços correm como rios E enchem de sangue a ponta dos meus dedos." Sophia de Mello Breyner Andresen, Eu Contarei. Em "No tempo divivido" (1954).

Autoria e outros dados (tags, etc)

O Som do Silêncio

por Torradaemeiadeleite, em 13.09.13

Hello darkness, my old friend
I've come to talk with you again
Because a vision softly creeping
Left its seeds while I was sleeping
And the vision that was planted in my brain
Still remains
Within the sound of silence

In restless dreams I walked alone
Narrow streets of cobblestone
'Neath the halo of a street lamp
I turned my collar to the cold and damp
When my eyes were stabbed by the flash of a neon light
That split the night
And touched the sound of silence

And in the naked light I saw
Ten thousand people, maybe more
People talking without speaking
People hearing without listening
People writing songs that voices never share
And no one dared
Disturb the sound of silence

"Fools", said I, "You do not know
Silence like a cancer grows
Hear my words that I might teach you
Take my arms that I might reach you"
But my words, like silent raindrops fell
And echoed
In the wells of silence

And the people bowed and prayed
To the neon god they made
And the sign flashed out its warning
In the words that it was forming
And the sign said, "The words of the prophets are written on the subway walls
And tenement halls"
And whispered in the sounds of silence

 

 

                                         

                                            Paul Simon, The Sound of Silence - 1964.

Autoria e outros dados (tags, etc)

...

por Torradaemeiadeleite, em 11.07.13

Homem para Deus


Ele vai só ele não tem ninguém
onde morrer um pouco toda a morte que o espera
Se é ele o portador do grande coração
e sabe abrir o seio como a terra
temei não partam dele as grandes negações
Que há de comum entre ele e quem na juventude foi
que mão estendem eles um ao outro
por sobre tanta morte que nos dias veio?
E no seu coração que todo o homem ri e sofre
é lá que as estações recolhem findo o fogo
onde aquecer as mãos durante a tentação
é lá que no seu tempo tudo nasce ou morre
Não leva mais de seu que esse pequeno orgulho
de saber que decerto qualquer coisa acabará
quando partir um dia para não voltar
e que então finalmente uma atitude sua há-de implicar
embora diminuta uma qualquer consequência
O que deus terá visto nele para morrer por ele?
Oh que responsabilidade a sua
Que não dê como a árvore sobre a vida simples sombra
que faça mais do que crescer e ir perdendo vestes

Oh que difícil não é criar um homem para deus



Ruy Belo,  "Aquele Grande Rio Eufrates" - 1961.


Autoria e outros dados (tags, etc)

Related Posts with Thumbnails




subscrever feeds




Pesquisar

  Pesquisar no Blog

Torradas com bolor

  1. 2017
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2016
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2015
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2014
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2013
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2012
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2011
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2010
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2009
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2008
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2007
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D