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Balões incan(descentes)

por Torradaemeiadeleite, em 23.06.17

 

 

Fotografias de Torradaemeiadeleite. Junho 2014 e 2015.

 

 

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...

por Torradaemeiadeleite, em 24.06.14

"Talvez sejas a breve

recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora."

 

"Não o Sonho" de Manuel António Pina.

 

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite, balão de São João, 2014.

 

 

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Bamos ó Som Juom

por Torradaemeiadeleite, em 23.06.14

 

Fotografia de Torradaemeiadeleite - Porto.

 

A Sé é linda e à sua volta a dissolução da sombra. Não há noite, só interminável o dia.

Onde o recorte dos Clérigos impõe o farol deste mar está a torre a cotejar alturas com os balões de papel. Atrevidos. Passam-lhe rente às pedras, ameaçam destruir-se e incendiá-la, mas é tudo artifício do mais trágico e cómico que as senhorinhas com sede de atenção conseguem encenar. Passam afectados em direcção ao Sul. Não querem que lhes toquem e por isso vão alto, quanto mais alto melhor, mas deviam já adivinhar o fim que os espera. Senhorinhas ou ícaros descuidados, ambicionando sem tino ser o Sol que ofusca a Lua quando hoje se exibe voluptuosamente, ela cheia e fosforescente dá nas vistas mesmo que não o quisesse. A Lua como uma lanterna emprestada que João não larga para ver melhor os festejos. Tenho vontade de lha roubar e deixá-lo a adivinhar, pelos cheiros e pelos sons, se é santo que convém ser-se numa noite com sentidos extravagantes. Dança menino, corre, salta a fogueira, leva na mão os ramos de cheiros e o alho-porro para provocar as moças, esbanja agrados, fertilidade e palavreado.  A noite ainda é breve para tanta vontade de ser.

Olhando da Sé, a multidão é pequenina. Escondidas da Sé, as ruas parecem pouquinhas.

A praça é um promontório sobre ondas de gente e ondas de bairros, ondas em escadarias, mais alto que o fumo das sardinhas lá em baixo a respingar gordinhas, atiçam o lume do Zé e ó moço! andas a dormir, bota aqui mais binho que já se m'arranha a garganta.

Em ascenção a música, o fragor das ruas, as conversas nas casas abertas à cidade, a risada, os martelinhos, em ascensão como os humores licorosos e mesmo o povo que chega à dimensão dum rei, que o é porque assim se sente. Não há fome, não há sede. Nesta noite ao menos, não há fome nem há sede.  São João do cordeirinho a todos dá providência e lembra, a quem quiser ouvir, que há reino nos céus e está ao alcance das mãos terrenas. É assim neste início de Verão.

Vendo da Sé, os astros caíram do infinito e estão cá na terra, nas roulottes de outro mundo e nos adereços psicadélicos que piscam em mandarim com sutaque do Puorto: corninhos de diabrete, laçarotes da rata "Mine" e mais uns o.v.n.i. que saracoteiam sem direito a nome próprio mas piscam muito, enquanto a pilha der, e é isso que importa. Céu de ficção científica e estrelas de plástico. Carago, não se sabe o mal que o santo fez para agora ter que aturar um carnaval fora de tempo.

Vamos a pé procurar outras luzes e roubar um bom lugar, olhó fuogo, filho, bem cá ber que já bai começar. O Douro ficou mais  escuro,  as suas margens também, a ponte apagou-se e está tudo a postos para um fogo prometido, mais vistoso que o de Prometeu, com música e sem castigo. Se o som fosse visível era aqui o seu lugar. Primeiro sobem as luzes num clássico ribombar, depois em rock e mais na canção inglesa, com a Adéle que está na moda e é muito cantada. Com tantas energias no ar, troando mais altas que a serra do Pilar, tanta explosão de estrelas e bichas a rabear, é admirável, é memorável o Big-Bang à moda do Porto. Olhá a ponte que chuba branca dá. Parece uma cascata, mãezinha. E é, uma cascata de brilho fátuo.

Visto da Sé, o rio não tem foz mas sabemos que ela está lá. É hora de dar corda aos bitorinos que a festa não acabou, seguir até ao mar e ficar por lá até o Atlântico clarear.

Agora sim, é noite. O areal finalmente adormece quando o Sol se atreve a acordar.

 

 

 

( nota: este texto foi publicado em 25 de Junho de 2013 e resgatei-o para este dia com algumas alterações )

 

 

 

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