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Entre noite e dia

por Torradaemeiadeleite, em 17.07.17

 

A temperatura cai e denuncia a luz diurna, mas o silêncio mantém-se - a queda não move ar, nem chão - só a pele vibra essas notas inaudíveis da rotação sobre si mesma.
Mas breve, o filtro impõe-se: sublima o véu que resguarda o corpo da transição dos sentidos para a consciência.
E a cor muda, e a cor acrescenta, e a cor sobre tudo se engrandece.
E a noite muda, e a noite emudece, e o acorde puro cala-se.
Neste despertado senso, frente-a-frente com a denunciada queda, há pardais que resolvem o sobressalto imitando, dentro de seus bicos abertos, o amarelo quente da certeza do dia e os estilhaços da visão estelar agora fendida.

 

 

Travis

 

 

Ilustração de Travis Bedel.

 

 

 

 

 

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Quase tudo

por Torradaemeiadeleite, em 11.02.16

 

 

 

Sentámo-nos a ver tudo. Tudo.
Tínhamos o fio fundo e requebrado por guia do olhar, fio de água corrente e tranquilizador, a segurança dum fluxo que não estia, pensámos. Até a imponência declivosa e ríspida dos baluartes antigos nas suas margens não fez mais do que conferir a esse fio um respeitoso lugar que se move, que continua, continua, continua, continua. Com tolerância, e sem se oporem, aquele fio de fluxo e o granito estático sublimavam-nos e sublimavam-se. E ambas gostamos de os ver, será sempre assim.
O rasgo da luz vai mansamente bebido pela distância, mas visto de perto é amor impetuoso despedaçando-se em milhões - milhões de gotas vaporizadas sobre os espórulos enregelados, milhões de sons surdos e baques minúsculos nos ouvidos da terra silente, milhões de nós mesmas nuas de frio em corpos de ondas distorcidos durante o choque.
Enquanto houver fio de água fluxo de luz fluindo em mim, tu estarás nele, sobre ele, submergida por ele e eu vejo-te debatendo-te contra ele, por ele, com ele. Nenhuma morte por esse fluxo causada, e nenhuma morte longamente nele planeada ou decidida ao momento, o escurece ou amaldiçoa. Cada vida que com ele se funde, mesmo pela morte, o faz ainda mais fio brilhando, distantemente próximo de nós duas, e tu nele, sobre ele, submergida por ele, ouvindo-me falar assim como só tu própria consegues compreender e jurar ser verdadeiro o que estou a dizer.
À nossa volta e do fio corrente de água, estava toda a visão dum paraíso que não deve nada à perfeição porque, para nós, a perfeição tem que ser disritmia, tem que ser diálogo e tem que ser mutável. Só a antiguidade nos dificulta o abandono das pegadas que temos de cumprir para inventar as nossas mesmas, mas é uma força maior que exercemos quando por fim as deixamos a apagarem-se sobre essa terra. Fazêmo-lo para seguirmos a imagem da água-sangue em fio fluindo por entre as cristas das fracturas expostas ( a nossa paisagem como paraíso do corpo inteiro da dor ) e fazêmo-lo sem conhecermos aonde vamos depois do éden. 
E estávamos sentadas a ver, eu e tu.
Mas dizia-te ( enquanto víamos tudo, e respirávamos tudo, e pensávamos tudo ), vamos esconder com o polegar o fio de água distante, brincar aos donos do mundo, e ora pondo ora tirando o rio do nosso ponto de mira - com um simples rodar de pulso, o polegar para cima que deixa seguir, com um simples rodar de pulso, o polegar para baixo que o apaga da face da terra. Experimentadas ambas as possibilidades, insolentemente por nós experimentados os futuros, decidimos, enfim - que o polegar há-de servir o fio corrente que se distancia e ele destruirá tudo aquilo que não deixe o fluir essencial seguir-se a si mesmo.
Deixámo-nos ficar mais um pouco, lado a lado, as duas a ver o luzente amor despedaçando-se e desperdiçando-se do interior das águas para tudo ao seu redor e acabamos por tomar o gosto a essa razão que se comove. E acabamos a tomar o gosto dessa razão que se comove.



Travis Bedel

 

 

Ilustração de Travis Bedel.

 

 

https://youtu.be/gMNB8BqAJdY

 

 

 

 

 

 

 

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O epitáfio

por Torradaemeiadeleite, em 06.07.15

 

 

 

travisbedel14[2]

Ilustração de Travis Bedel.

 



Perfilo-me nesta desmesurada ausência de texto, já exangue do turbilhão dos afectos e dos sentidos. Foi no exagero de mim próprio que soçobrei perante a vida e o desconhecido.

Não haverá epitáfio porque nenhum serve com justiça este intérprete da peça inexplicável, dos diálogos surdos e dos monólogos de angústia.
A lisura da minha lápide acentuará, sim, a existência dessas linhas vazias que hão-de peregrinar pela eternidade, buscando o espelho que as desenganará de serem diferentes de outras.
A viagem segue invisível porque o princípio também o foi. Do que nada soube nada deverá ser relevado. Nenhum epitáfio, já disse.

Eis apenas a desmesurada ausência de texto como reflexo das sensações despercebidas, desenraizadas, sem verbo, apenas veemente sentidas por mim, com desarme e pungência. É um fardo da sensibilidade que a torna ainda numa arma tão letal quanto impune. Morre-se de tanto sentir. Eu morri da força perfeita que executa um crime tão velho como a humanidade.
Acentuo, de novo, poupem um epitáfio. Onde não se escrevem mementos, não se usam projectores nem se adensam as sombras - este peregrino seguirá sem notas sonantes, com honestidade e equidade de tudo o que viveu.
Todavia,
aquele que morre duma morte assim, do exagero de si mesmo, não é vítima, é cúmplice. De nenhum crime posso legitimamente falar, então, só desta desmesurada ausência de texto. E do epitáfio, não quero o epitáfio.




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