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Resposta à crise.

por Torradaemeiadeleite, em 11.11.12

 

 

Fernando Assis Pacheco fotografado por João Rodrigues (anos 90).



Para palavras loucas orelhas moucas. Às frases mais infelizes que ouço sobre o contexto nacional deixo  que o meu queixo caia livremente porque não consigo verbalizar nada sobre o que não compreendo, menos ainda quando o incompreensível sai da boca de homens e mulheres que, pelos lugares que ocupam, deveriam ser sábios.

Os meus dias também são combativos mas ainda tenho a mente suficientemente sã para filtrar o que ouço e optar por fortalecer o meu cérebro com frases boas, muito boas. E da leitura de "Trabalhos e Paixões de Benito Prada" de Fernando  Assis Pacheco vieram tantas, tantas, tantas que  me atrevo  a escrever que ninguém deveria morrer sem antes o ter lido. Não porque o romance tenha a ver com preparação para "a" viagem ou a afirmação seja exagero estilístico de apreciação mas simplesmente porque é muito bom ler ( ou ouvir ler ) este livro que, mais do que de tudo o resto, fala de vida, pois claro. Eu não sei o que nos acontece quando morremos, poderemos depois não  ter usufruto dos sentidos ou então tendo-os poderá faltar-nos uma biblioteca. Assim, bem vêem, mais vale prevenir do que remediar.

Deste senhor já conhecia "A Musa Irregular", uma antologia poética de que partilhei parte de um dos poemas que me marcaram. Gostei da ausência de tabus, da verdade sem floreados, dos floreados sem pretensiosismo, do jeito arrebatado e das palavras inventadas quando a língua não as tem adequadas.

Mas da existência do romance sobre um "galego da província de Ourense que veio a Portugal ganhar a vida" soube pelo desabafo daqueles que já o tinham lido e lamentavam a inexistência de reedições. De facto, desde a primeira edição em 1993 pela ASA que não havia "Benitos" à venda. Decidiu a Assírio e Alvim pela reedição de toda a obra de Fernando Assis Pacheco e 2012 trouxe-me às mãos o tão elogiado livro.

Não vivem nas suas páginas palavras a mais ou a menos. São gráficas, ilustrativas, fotográficas até, muitas delas surpreendentes mas lá está, estas já eram características daquele escrever que me impressionou. As frases conspiram para nos transportar ao falar e viver do fim do séc. XIX e primeira metade do séc. XX, aos ares e caminhos da Galiza e do norte português, ao seu contexto histórico e cultural, à sociedade em geral e a alguns lares em particular.

Desfilam os prazeres do corpo, da boca e da alma, o valor da amizade e da palavra, a singularidade dos princípios (a)morais e a força dos ideais.

Perfilam-se os regionalismos, a têmpera dos personagens, as maquinações do orgulho e do preconceito e os retratos de ambições e frustrações.

E o que é tudo isto se não a vida, com tantas matizes e curvas de estrada? Escrita com palavras insubstituíveis, com humor, com muito humor, com ironia, com espontaneidade, com conhecimento de causa e com imaginação. Não é para todos.

A esta minha liturgia de impressões, falta ainda uma piscadela de olho aos meus conterrâneos que reconfirmarão a nossa múltipla irmandade com os galegos pelas linhas da vida de Benito Prada.

Nada é à toa. Ao talento do escritor aliam-se os genes ourensanos do lado materno que o inspiram nesta  narrativa ímpar.

Termino agora como comecei ( tirando o breve e austero preâmbulo ): ninguém deveria morrer sem antes ter lido ou escutado os "Trabalhos e Paixões de Benito Prada".

 

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2 comentários

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De F. a 12.11.2012 às 10:05


Que bom, de novo Fernando Assis Pacheco no Torrada!
Há  tempo que ando por aqui para comentar, com a intenção a desvanecer-se  na espuma dos dias. Hoje não posso adiar que Assis Pacheco marcou profundamente os amantes da literatura e da vida da minha geração. Não deixou obra extensa, mas intensa, que a morte levou-o cedo e não haveria de trocar o prazeres de viver por um verso:  "Sou o Fernando Assis Pacheco, 41  anos, um pasmado sem cura. Tudo me espanta, gramo a vida, quero morrer mais lá para o verão."
Quanto ao título,  ao "preâmbulo" do poste e à oportunidade da fotografia, ainda Assis Pacheco: "... Um homem tem de viver. / E tu não te fiques / um homem tem de viver /com um pé na primavera. (...)".
Piscadela de olho devolvida...Image 

Um grande abraço
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De Torradaemeiadeleite a 13.11.2012 às 12:47

Olá, F.
 Assim fazem os bons escritores, conquistam várias gerações. Vou continuar na procura dos outros trabalhos de FAP e nestae aprofundamento do enlevo literário.
E a ver se não me fico.

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