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Reclamo os livros que não li, os caminhos que não percorri, as vidas que não conheci, os beijos que não dei, os abraços que não senti, os momentos que não retratei, tantas perguntas que não fiz, tantas certezas que afirmei... Lamento palavras que disse e toda a alma com que ouvi outras, lamento ainda esses reflexos que não reconheço já com os meus sentidos... No fundo, compreendo a versão de um Deus cineasta: queremos realizar o nosso filme, escrever um guião a nosso gosto mas, por mais que planeemos, há sempre linhas que "alguém" escreve por nós... O nosso filme nunca será como o desejámos, não terá todas as cenas que sonhámos, os diálogos não serão sempre como os que escrevemos, a fotografia pode ser desfocada e até os actores podem desiludir. Apesar de tudo, podemos sempre escolher um desempenho sincero, esquecer os duplos, apurar os sentidos, ouvir a nossa voz... e a dos outros, confiar no director e, no final, ao apreciar toda a obra, ter razões para sorrir.
As minhas recordações são tecidos guardados num armazém: algumas são toalhas requintadas, de fino labor, com debrum de prata e ouro; há aquelas que uso no dia-a-dia, fiáveis e práticas. Mas que dizer dos meus farrapinhos? Perderam a côr, nalguns mal adivinho o desenho, têm buraquinhos aqui e acolá, mas resistem teimosamente!
Até dá pena destinar-lhes um fim, agarro-os com cuidado e volto a guardá-los. São preciosos os meus farrapinhos! Alguns são a única prova de que alguém, algum gesto, algum lugar, alguma árvore, alguma palavra, algum sorriso, algum olhar, vontade ou sonho existiram.
Ganham força precisamente porque algo lhes falta... Foram tecidos com fios de vida e morte, luz e sombra.
Volto a guardá-los nas caixas mais humildes do meu armazém, na prateleira mais discreta e só eu sei onde estão. Só eu? Bem, por enquanto, pois chegou o meu fiel depositário, guardador do meu armazém. Tu, meu pequenino... meu ser maior, um anjinho que eu roubei ao céu. A ti vou revelar como encontrar todas as caixas do armazém, como abri-las e arejar os tecidos. Assim, quando um dia as portas se fecharem, eles não se perderão... os meus farrapinhos!
Com brincos de cereja serei a tua princesa num Junho de amor e enlevo. As suas tardes longas trazem tantos desejos que só as noites de Dezembro os poderiam realizar.
Trago os teus gestos presos na pele e ainda provo do medo original... Lembras-te? As conquistas de então não são as mesmas de agora, mas continuamos a aprender como tecer o Amor.
E como cerejas rubras acariciadas pelo Sol de Junho, também eu quero guardar o teu calor e a tua luz no interior do meu ser.
Podes levar-me, apertar-me no teu abraço, matar o meu medo com teu beijo apaixonado... Se quiseres, nada mais levarei que os meus brincos de cereja, rubros no meu pescoço marfim.
Certas palavras conquistam-nos de imediato. Pode ser a sua sonoridade, o seu ritmo, o seu grafismo ou o seu significado. Acredito na vida das palavras, acredito que pode acentuar-se quando lhe juntamos outras ou, então, perder-se se a companhia for má...
Apanhei estas duas palavras ( as do título ) no refrão duma música, conhecida para os mais atentos ( os nossos "Xutos" também são poetas ). Na verdade, quantos gritos são afinal mudos? Mas quantos, mesmo mudos, podem dizer tanto?...
"Gritos mudos chamando a atenção..." continua a letra. Achei fantástico! Tanta vida em palavras tão pequenas...