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Não quero fechar os olhos, não quero ficar indiferente ao que me rodeia, não quero esquecer.
Também me interessa o que se passa fora do meu rectângulo de ( ainda...) sossego e livre direito à oposição sem temer pela vida. Também me interessam os pensamentos dos outros povos e os caminhos que escolhem para o futuro.
Não entendo a linguagem do terrorismo, os ideais que lhe dão corpo e as pessoas dispostas a perpetuá-lo...
No entanto, acredito que há vozes que falam ainda mais alto quando tentam silenciá-las!
Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Este era o recorte da noite que emoldurava o meu sentir.
Sempre o mesmo desejo: repetir momentos irrepetíveis...
Portas antigas, de madeira castigada ostentam ainda o ferro frio acariciado por um Sol de Dezembro. Fecham-se com ruído de ferrolhos em protesto, exibem o seu cansaço e esperam...São portas de casas, palheiros ou moinhos que se abrem para vidas e promessas idas. Posam para a máquina como resistentes do tempo e das intempéries, presto-lhes homenagem e penso naquelas que se fecham sem ruído, em silêncio dorido... as da alma, do coração ou da memória.
Fotografia de Torradaemeiadeleite ( Rua 31 de Janeiro, Porto ).
Esta rua nunca me é indiferente: quando a subo ou desço reparo sempre em pormenores "novos" e as impressões são diversas consoante a hora do dia, o dia da semana, o tempo ou a companhia. O seu declive acentuado e a sua situação geográfica emprestam-lhe um rosto e proximidade únicos. Ostenta ainda os traços das mãos que a desenharam há já mais de 200 anos ( entre 1787 e 1793 ) e guarda no seu chão arcadas de pedra, túneis e estacarias.
A sua actividade comercial mudou muito, perderam-se estabelecimentos de referência do Porto ( a "Casa Prud'homme", por exemplo ) e o glamour que Camilo Castelo Branco tantas vezes presenciou, mas como ignorar os tesouros que ainda persistem?
Os anjinhos rechonchudos que trocam jóias na porta da "Ourivesaria Machado", o testemunho "belle époque" da loja "Vicent", o busto dourado na esquina com a R. de Santa Catarina e os alçados do arquitecto Teodoro de Sousa Maldonado são testemunhos de tempos e gostos idos.
Nasceu "Rua Nova de Santo António" mas carrega no nome actual ( estabelecido primeiro em 1910 e, em definitivo, após o 25 de Abril ) a 1ª revolução republicana portuguesa: nas suas pedras tombaram os revolucionários de 1891 sob a reacção opressora da Guarda fiel à monarquia.
Enfeitada para o Natal e com o burburinho das compras parece ganhar outra vida, mas é-lhe ainda devida a reabilitação de alguns prédios e lojas.
Quem ama o Porto não esquece esta rua.
O concerto não deslumbrou pelo aparato das luzes, pela qualidade técnica do som, pela decoração de cena ou pelo guarda-roupa do artista... Viveu e encantou pela interpretação de Peter Murphy das músicas mais novas e mais velhinhas, pela sua voz com 50 anos de qualidade, pela "mis-en-cene" dos seus gestos, pela atenção ao público, por uma presença que preenche todo o palco ( talvez por isso não sejam necessários "biblots" ) e pelo ambiente intimista.
O espectáculo começou sem qualquer atraso e nunca esmoreceu. O público era abrangente nas idades (embora maioritariamente na casa dos 40 e 30) e trazia a lição bem estudada.
Para os que tinham algum medo de encontrar Peter a arrastar a voz, a noite surpreendeu. No final, as notas mais difíceis soavam ainda frescas e o rodopiar sobre si mesmo parecia não o cansar. Brindados ainda com rosas brancas, os fãs rendiam-se à sua energia e à sua teatralidade levando dessa noite a promessa de novos sons com a entrega de sempre!