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Reconstituição de menino Neandertal. Foto de Ph. Plailly / Atelier Daynes, 2008.
O nosso passado biológico vai sendo conhecido através de retalhos e descobertas desencontradas no tempo e no espaço, com as quais tentamos estabelecer um fio condutor, um caminho evolutivo lógico e a razão palpável para ser o que somos.
Quanto mais descobrimos, tantas vezes acidentalmente, mais questionamos e a medida do nosso conhecimento deveria encontrar a mesma medida de humildade... Afinal, somos jovens, muito jovens nesta Terra e já outras espécies provaram a sua adaptação ao longo de milhares de anos às transformações do planeta, persistindo com sucesso... E nós? O que teremos ainda de enfrentar?
Uma questão, de entre muitas sobre a nossa evolução, tem a ver com os nossos parentes desaparecidos. É com estes que nos entusiasmamos pois eles podem revelar a parte do caminho percorrido que é menos iluminada e que nos ajuda a perceber de onde vimos.
Um dos parentescos responsável por muitas voltas ao cérebro dos paleoantropólogos é o Homem de Neandertal.
Só há mais ou menos 150 anos, com provas encontradas no vale de Neander ( a cerca de 13 km de Düsseldorf ) é que percebemos que não fomos o primeiro tipo de humanos a habitar o território que agora se chama Europa. Outros se anteciparam, muitos, mas muitos anos antes, seres com várias características humanas mas com outras tão próprias. Confrontámo-nos, assim, com a nossa chegada tardia, emigrados de África, a um espaço já ocupado e explorado por primos robustos e adaptados a outras altitudes, que faziam fogueiras, caçavam animais de grande porte e se movimentavam no território ao sabor das estações, eventualmente mirando-nos com estranheza.
Este ano, com a ajuda de descobertas em El Sidrón, nas Astúrias, acrescentaram-se dados aos retalhos que já existiam e reconhecemos que os nossos primos Neandertais possuíam genes relacionados com a fala , com a cor ruiva dos cabelos e com a pele branca, eventualmente até sardenta. Parece pouco mas é relevante se nos lembrarmos do estereótipo "feios, brutos e maus" que tão secularmente lhe associámos.
O facto de ter um gene associado à fala, ainda que em moldes diferentes da nossa espécie, delega mais capacidade intelectual aos seus cérebros, confere-lhes a possibilidade de terem tido mais relações sociais do que se supunha e torna o Homo sapiens sapiens menos singular do que julgávamos, não será?
Achados anteriores a estes revelaram que também eles ritualizavam a morte, mostrando-os mais emocionais aos nossos olhos e que a sua capacidade para fazer instrumentos pode afinal ter sido subestimada.
Outras provas sugerem uma interacção cultural com os antepassados directos do homem moderno e até cruzamento genético entre as duas espécies, mas seria necessário encontrar mais dados para tornarem provada essa teoria.
Afinal, sabemos pouco sobre os Neandertais, mas aprendemos que não podemos menosprezar a sua história, e esta torna-se cada vez mais interessante à medida que vão surgindo achados que rompem com o estabelecido previamente.
O acaso poderá expor outras descobertas, mais peças dum puzzle que sempre achei apaixonante e que estão espalhadas pelo planeta, escondidas ou nem tanto... O nosso raciocínio poderá também perscrutar imensas hipóteses, desde que nos libertemos de preconceitos e rótulos e nos reconheçamos humildemente como mais uma espécie em vez dos "todo-poderosos" da biologia, aqueles que têm de percorrer um caminho completamente à parte dos outros seres...

Fotografia "Outono" de Torradaemeiadeleite.
Já aqui escrevi sobre o efeito benéfico que um parque urbano pode ter sobre os seus utentes. Parece-me que é consensual a sua importância ambiental, recreativa e pedagógica.
É tempo de reafirmar esta convicção, rendendo-me à roupagem outonal que encontrei no fim-de-semana passado. Com jogos de luz e sombra, tons contrastantes no chão e nas árvores, entreguei-me ao lazer. Desfazia os tapetes de folhas, tentava captar na máquina a atmosfera que nos rodeava e protegia-me do vento frio que, por vezes, nos saúdava.
Não resisti a este pedacinho do palco, um possível cenário para tropelias de duendes ou contos efabulados...
Primeiro conheci um dos cenários e bem mais tarde conheci o filme. "Quantum of Solace" é um Bond fora do comum ( já o era "Casino Royale" mas este é ainda mais invulgar... ) e, pelo que me apercebi nos pareceres que ia lendo, não é consensual, ora desilude ora arrebata. A mim, prendeu-me a atenção do princípio ao fim e acrescento que só não me colou à cadeira porque tinha instantes em que a surpresa ou a intensidade dalgumas cenas me fez estremecer...
Como não reparar num filme do 007 que não teve uma única referência a este código ( ou era "James" ou "Bond" ou "James Bond", portanto o famoso espião já ascendeu ao estatuto de pessoa em vez de número... )? Como ignorar um Bond que não se envolve amorosamente com a Bondgirl principal? Como ficar indiferente perante um espião com motivações pessoais, dúvidas quanto ao dever e a braços com a desconfiança dos seus superiores? Como esquecer um filme Bond que acentua e dramatiza alguns picos de acção com actos da ópera "Tosca"? E que dizer da ausência de gadgets nunca experimentados e muito XPTO? AH!!... e o bem mais precioso pelo qual os bandidos matam e manipulam... qual é, qual é?? Não digo...
Enfim, não quero tornar o texto monótono usando interminavelmente o esquema das interrogações, penso até que já revelei demais, mas quero assim evidenciar e justificar o meu contentamento por um formato que já não é "chapa 5" dos seus predecessores ( e são muitos... ) e que, quanto a mim, refresca sem desiludir!
Para ouvir nas alturas!!

Fotografia "Tempo" de Torradaemeiadeleite.
Depois do primeiro, um outro registo dos efeitos do tempo... Uma porta novamente. Não é à toa que as escolho, para mim revelam-se plenas de significado e transfiro-lhes até algumas humanidades.
Portas escancaradas, entreabertas ou teimosamente fechadas... reveladoras, cúmplices ou secretas... podem castigar, proteger ou libertar e mostrar-se ainda exuberantes, sinceras ou envergonhadas. Do interior manifesta-se a sua matéria: maciça, aglomerada ou oca... original, remodelada ou inventada.
O mesmo objecto com diferentes propósitos e muitas personalidades!
Mas o encanto que encontrei na da imagem reflecte-se sobretudo nas suas vestes, primeiro uma cor, depois outra, tons contrastantes e indecisos, como quem não sabe que exterior ostentar. As cores são fragmentadas mas a tábua é inteira, trabalhada pelo homem e pela Natureza, marcada por mãos rotineiras com o mesmo jeito de abrir, dia após dia, ano após ano... Os hábitos e as tarefas que habitualmente nem merecem reflexão também deixam as marcas da sua existência.
De outras portas poderei escrever no futuro mas hoje registo a rusticidade e a beleza envergonhada que esta me transmite.
Além de salientar a existência, no passado, dum muro berlinense que dividia mais do que o espaço físico duma cidade, quero enfatizar a ausência actual do mesmo. Importa-me destacar esta perspectiva porque quero que seja a mais perene e também a mais relevante.
O meu gene utópico desabafa apontando que o destino deste muro deveria ser copiado para outros semelhantes que ainda persistem ( Gaza, E.U.A/México, Coreia do Sul/Coreia do Norte,... ) e para aqueles que, não sendo de cimento e arame, podem ser mais difíceis de derrubar.
Utopia à parte, foi com ironia que aprendemos: primeiro constrói-se e conhece-se o rosto dum muro para só depois valorizar a cicatriz deixada pela sua transformação. Onde antes existia um obstáculo ao sonho e à comunhão e cuja transposição se pagou mesmo com vidas, desenha-se agora um rasto de memória, uma linha no chão de Berlim, discreta mas inspiradora e plena de significado.
Faz sentido que exista para evocar um episódio da história mundial marcado por uma guerra fria, estados de tensão quase permanente e privação de liberdades individuais. Faz sentido que exista também para provar que é possível mudar o que está mal.
Aproveitando para apelar para o fim de outros muros, celebre-se então o princípio da ausência deste, chamado de Berlim, a 9 de Novembro de cada ano e relembre-se uma noite plena de sentido humano que ecoa desde 1989!
ESPERANÇA é a palavra que mais vezes ouvi hoje... Não posso deixar de compreender a sua repetição e, assim, escrevo-a para lhe acentuar o valor. Não escrevo confiança, garantia ou facilitismo, apenas esperança...
Mas mais do que um resultado eleitoral fora do comum, testemunho uma vontade de mudança que um povo manifestou e o cansaço geral que lhe deu razão de ser.
A herança é pesada, desanima qualquer um, e a fasquia do sucesso das políticas internas e externas dos E.U.A. está agora muito alta, fruto também dum discurso empolgante. Por isso, e pela minha natureza "pés na terra", não lanço foguetes nem alimento demasiadas expectativas mas não consigo alhear-me deste sentimento, desta crença em dias que poderão chegar mais risonhos...
Fotografia gentilmente roubada ao Google.
Revejo-me neste candidato e mais ainda nesta atitude pensativa... Espero com curiosidade o desfecho das eleições dos E.U.A., um país com eleitores e um processo eleitoral sui generis. De uma campanha já por si histórica espero um desfecho também ele memorável, mas não me sai da cabeça esta frase que também o Big Brother usa muito: "Tem cuidado com o que desejas, pois os teus desejos podem tornar-se realidade"...