Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Fotografia de Torradaemeiadeleite
Charles Aznavour cantava "(...) a corps perdu, j'ai couru/ assoiffé, obstiné/ vers l'horizon, l'illusion, vers l'abstrait/ en sacrifiant, c'est navrant/ je m'en accuse à présent/ mes amis, mes amours, mes emmerdes (...) ". A viagem nascia para ser diferente de outras. Todas as viagens nascem com essa expectativa. As melodias seguiam-se na pronúncia gutural dos seus poemas e ocupavam o habitáculo para escaparem depois pelas janelas abertas. Este outro francês rugindo sobre rodas não sabe do ar condicionado, leva-nos só em conversa íntima com a estrada para ir aonde nunca tínhamos estado. Um quase maquinismo do tempo.
A paisagem revela-se em película cinematográfica antiga e desfila depois sob o foco dos projectores. O Sol a subir inclemente, as sombras cada vez mais pequenas. Os actores deste filme não ficam na sombra.
Imensidão, a imensidão. Nenhuns olhos poderão abarcar tanta lonjura num passar breve, ainda que rolando, ainda que em várias vidas. A oceânica imensidão transmontana. Entre ondas as Atlântidas perdidas.
Bela, voluptuosa, perfumadamente de Julho, a Terra Fria transmontana é uma mulher de espírito inquebrantável, e é ela quem nos subjuga e deixa indefesos, impreparados para tamanha vontade. Misteriosa. Provoca-me. Levo os cabelos em contradança e os meus ombros beija-os o Sol, com abuso de maneiras que atiro com coreografias na musicalidade e no incentivo dos Beatles "(...) come together, right now, over me (...)".
Até à primeira paragem a estrada é o argumento principal.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Vulto franzino, dobrado sob o Sol da tarde, malha o centeio sem nunca se levantar. Aguardo uns momentos para ver outra posição, quero observar o corpo a refazer-se para nova investida, um braço mais alto ou um descanso merecido . Em vão porém esta espera marginal, pois aquele ser parece carregar sobre si o peso das malhadas de todos os anos anteriores, da sua vida e das que o precederam e segue dobrado de encontro ao chão.
Esta alma vestida de negro só mexe o braço direito em monótona tarefa, quase sempre à mesma altura e sempre com a mesma força.
Pam, pam, pam, pam... continuo a espreitar o ritmo deste labor que da espiga rouba os grãos e dos meus dias a modernidade emprestada. Penso nesta oportunidade e apodero-me daquele bater contínuo, transformo-o em minha memória e levo-o ao ( no ) peito.
Do banco de pernas para o ar e da vara mais hirta que a sua dona fazem-se os adereços deste cenário contido, onde giestas e ervas altas escondem de quase todos o palco rude desta solidão e deste viver.
Pam, pam, pam, pam... mais centeio se desprende sobre a manta de sacos, a palha vai-se juntando, o Sol continua altivo e os minutos repetem aquele afazer... interminavelmente.
Seguem-me depois os passos, estes sons secos e torturados, quando me afasto ligeira pelo caminho e sem certeza de os ouvir de novo, repetidos nalguma espiral do tempo ou do espaço.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Amor à primeira vista acontece. Posso relatá-lo na primeira pessoa.
A partir dum momento só, primordial e irrepetível, pode nascer esse sentimento inexplicável, que nos faz suspender tudo à nossa volta e reagir unicamente àquela presença.
Enredamo-nos neste enlevo, neste prazer que esta companhia nos oferece.
Mas como tudo o que é bom parece vestir-se de efémero, também podemos sofrer a sua perda. E assim me aconteceu também.
Há uns dias porém, sem que nada o anunciasse, reencontrei-o. Inesperado o primeiro encontro, inesperada a partida e de novo inesperado o regresso.
Novo look, sempre atraente.
Inglês, com 30 anos, muito culto e dado às artes, continua a agitar as minhas moléculas. Sem dúvida, o seu ser enriquece o meu.
Retomei aquela relação, embora esteja agora mais consciente das limitações que encerra. Que poderia eu esperar dum programa de televisão, que a todo o momento pode deixar-me, sem garantias de regresso? Não, não deliro... morro de amores por um programa de TV inglês, que me fala ao ouvido com aquele sotaque inconfundível e me ensina tanto sobre arte e antiguidades! E até revelo o seu nome: "Antiques Roadshow"!
A BBC deu à luz este filho em 1979 e a sua fórmula já viaja por outros países ( Austrália, Alemanha, Canadá, E.U.A., Noruega e Suécia ). Gerou outros como "Cash in the Attic" e "Bargain Hunt", sempre com antiguidades e leilões como tema mas em registos bem diferentes.
Sem dúvida, Antiques Roadshow tem ingredientes de qualidade. O mais relevante, a meu ver, é este que faz do cidadão comum a estrela do programa. Ele contribui com os seus pertences, muitas vezes esquecidos no sótão ou na garagem, e submete-os ao parecer técnico dos peritos "residentes" do programa. Quantas raridades e mesmo peças dignas de exposição num museu são assim encontradas, entusiasmando até os peritos que vêem ao vivo e a cores artigos que só conheciam em textos de referência!
Outro ingrediente importante é precisamente o seu leque de experts, especializados nas mais diversas áreas artísticas, que fazem a apreciação, contextualização histórica e ainda a avaliação monetária das peças que vão aparecendo.
A equipa viaja de terra em terra e desafia os habitantes de cada uma a participar com objectos ou colecções pessoais que achem interessantes.
O programa revela-se também um valioso manual de instruções para antiguidades. As conversas em tom informal mas didácticas enriquecem a cultura geral e dão bases para a apreciação da Arte em geral.
Sempre que posso, por volta das 13.00, espreito o BBC Prime e alimento este amor. Rendo-me ao presente e não peço nada ao futuro.
"Cedars of Lebanon" de Edward Lear ( inglês ), 1862.
O tamanho da minha ignorância revela-se nos mais pequenos nadas que aprendo fortuitamente.
Foi preciso conhecer "Cedars of Lebanon" dos U2, para o bichinho dos porquês começar a roer-me. Ainda antes de esmiuçar a letra, o título foi suficientemente atractivo, diferente e inesperado para me levar a uma googlada.
Como podia eu achar-me uma admiradora da Natureza e ter passado tantos anos a ignorar os cedros do Líbano?
Estas árvores milenares, que se desenvolviam no território do Líbano como em mais nenhum lugar, foram desde sempre veneradas, usadas para as mais emblemáticas construções e os mais solenes rituais de vida. Muitos povos antigos exploraram o Mediterrâneo com embarcações feitas com estes cedros, mumificaram os seus mortos com a sua resina ou oraram em templos esculpidos nesta madeira resistente e olorosa.
Os momentos mais marcantes da vida, nos diversos cultos, as peregrinações e as preces mais pungentes tinham como testemunha a árvore ou parte dela.
Este misticismo advém também do seu porte imponente, dos ramos graciosos que parecem sustentar o céu, dos troncos fortes e da sua "eternidade" ( li que na Floresta de Bsharri há duas árvores com 3000 anos, dez com 1000 anos e as mais "comuns" têm já centenas de anos ).
Defendem-se muito bem nos solos secos e por isso persistem em territórios onde mais nenhuma árvore parece ter vontade de viver. Em altitudes que vão dos 1000 aos 2000 metros encontraram há muito tempo o local da sua solenidade. No meio de quase nada, estes gigantes destacam-se ainda mais e dão refúgio e paz a quem passa.
O Líbano, outrora coberto por extensas florestas de cedros, defende agora os poucos sobreviventes a uma exploração intensiva e histórica . A Floresta de Cedros de Deus foi declarada Património Mundial pela Unesco em 1998, juntamente com o Vale do Kadisha.
De palavra em palavra fui até um texto de Alphonse de Lamartine que descreve de modo ímpar o que distingue estas árvores (desempoeirem o francês, que vale a pena!).
Podemos encontrar cedros do líbano um pouco por toda a parte mas acredito agora que admirá-los na sua "casa" seja uma experiência única.
Pronto, assim faço de conta que estive lá... e tão pertinho!!
(...)
I know a girl with a hole in her heart
She said infinity is a great place to start
Oh ohoohoh oh oh
She said "time is irrelevant, it's not linear"
Then she put her tongue in my hear
Oh ohohoh oh oh
(...)