Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Aninhada nos ramos arrepiados, vê a dimensão duma natureza adormecida que faminta recebe ainda raios pobres de Sol. E espera. Espera tranquila pelo seu reinado nocturno enquanto a distância esconde pormenores de madrugadas geladas.
Muitos seres a admiram, adivinham-lhe as formas prenhes que o passar dos dias lhe vai trazendo e sob o luar luminoso, pendendo do ninho de carvalho, confundirão madrugadas com alvoradas.
Por entre giestas jazem ainda os fentos quebrados e molhados, húmus desorganizado, atolado de camadas de vidas mortificadas e outras que laboram todavia, anónimas, disfrutando dos humores da superfície. Jazem folhas como telas desiguais, pintadas com cristais, escondidas nas sombras que as tardes de Inverno tornam eternas e nas fendas das pedras informes que outros gelos desenharam paulatinamente.
Tudo se aquieta nesses abrigos que o vento não descobre. A luz rapidamente se despede, tivesse ao menos aquecido a terra.
A vida flui porém, subtil, quase invisível, resiste ao frio até que, daqui a muitas luas, chegarão os sinais dum renascimento.
Aninhada nas folhas novas e macias, verá a Lua a dimensão duma natureza acordada saciando-se de auspiciosos raios de Sol. E esperará. Esperará, sempre tranquila, o seu nocturno reinado.

Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Hoje o post é sobretudo fotográfico, só para matar saudades da atmosfera dourada da mui nobre e invicta cidade, que neste mês se tem mostrado tão cinzenta...
A vida da Terra é semelhante à vida humana: de vez em quando há mudanças, umas serenas, outra abruptas e revoltosas, todas transfigurando a nossa superfície e o nosso interior.
Não, as catástrofes naturais não são o fim do Mundo, são o princípio de outro, com novas características e feições. Outro que contudo não é mais definitivo que o anterior.
À escala pessoal sim, estas tragédias representam o final de muitos mundos já que cada um de nós é um universo diferente e irrepetível. E é a este nível que agora concentro a minha escrita.
O sismo no Haiti é o fenómeno que, a meu ver, empresta o corpo a esta mudança, entre muitas outras: as redes sociais são agora o veículo de informações que podem transformar um acontecimento distante e sem rostos na mais profusa narração de experiências individuais que nos proíbem a indiferença, mesmo com um oceano entre nós.
Os relatos na primeira pessoa do cidadão comum A, B, C e D, daquilo que vive em todas as horas dum inferno, são a âncora que nos prende ao concreto e nos faz compreender as dificuldades emprestadas por uma situação extrema. Em cada experiência podemos rever-nos de várias formas e isso aproxima-nos da tragédia em geral e dos sobreviventes em particular.
Acredito no efeito catártico que este novo modo de comunicar pode proporcionar aos que permanecem naquele chão torturado ( outrora maquilhado pelos que lá não viviam com as cores do paraíso ) e que, como todo o ser humano, precisam de exorcizar o medo de estar só.
Personificando, de momento, uma "Divina Comédia", os sobreviventes do sismo no Haiti alcançarão, com uma extraordinária força e esperança, um novo equilíbrio e fazendo-o inspirarão todos aqueles que ainda não sofreram na pele o início de um novo Mundo.

Fotografia de Torradaemeiadeleite ( Finisterra, Galiza ).
Da minha varanda voltada para o sonho vejo novas palavras, frases e prosas, todas as horas tornadas fecundas, muitas conversas, imagens e vontades, as teorias finalmente provadas a viverem tranquilas no correr dos meus dias.
Da minha varanda consigo ver o sonho a transformar-se, em cada nova etapa uma conquista perene, pouco a pouco um futuro são, inteiro, uma história invulgar para contar e vejo o ser onírico subjugado elevar-se enfim ao mais alto realismo.
Da minha varanda voltada para o sonho, onde às vezes fico imóvel a sentir a brisa, saúdo com alívio a mudança da rotina, saboreio o gosto que a realização me traz e respiro em sereno a recompensa de sacrifícios suportados.
Na minha varanda, a do sonho, a que fica de frente para uma vida por despertar, descanso das angústias e das hesitações e colho num abraço esfomeado os frutos doces da coragem, as flores raras da sorte e os ramos fortes da vontade.

Fotografia de Torradaemeiadeleite ( Aveiro, 2009 ).
Este blogue vai a caminho de completar três anos de vida digital. Não sei por quanto mais tempo continuará a ser actualizado, mas já dei por mim a desejar a sua permanência daqui a 20 ou mais anos, mesmo que na forma duma memória dos anos em que foi escrito. Pode até ser que eu já nem esteja cá para o ver, mas ficaria esta forma de legado, algo mais a juntar às fotografias e cadernos manuscritos e rasurados que pululam cá por casa e ao dispor dos que me rodeiam permanentemente.
Imagino o meu filho, que ainda não sabe ler, a procurar nos textos e fotos blogadas os ecos dum dia-a-dia que só conhecerá muito depois de terem sido produzidos.
Apesar de pessoal, o Torrada reflecte o contexto social e cultural em que foi gerado, pode ser um artefacto arqueológico muito curioso daqui a muitas eras digitais... Bom, mas o que eu também quero escrever é o seguinte: há outros blogues em que o património acumulado é muito mais relevante ( e, sem dúvida, mais útil ) mas que acontecerá à informação acumulada quando os seus autores já não andarem por este Mundo? Há alguma forma de conseguir a longevidade no mundo dos pixeis?
Se tiverem tempo, leiam este artigo do PÚBLICO online "Na internet há vida depois da morte", que evidencia as limitações actuais desta forma de herança ( a digital ) e a necessidade de esclarecer numa base legal as suas incongruências. Não deixa de ser, porém, uma piscadela de olho ao futuro e um manancial de temas para reflectir.
PS: longa vida ao SAPO!!

Fotografia de Torradaemeiadeleite ( Serralves ).
Porta fechada sobre 2009.
Para actualizar o calendário do blogue e enquanto se prepara algo mais substancial para publicar...