Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]
Feira do Livro do Porto, 82ª edição.
Na Avenida dos Aliados, de 31 de Maio a 17 de Junho.
Ver todos os detalhes aqui.

No universo deste livro cabe um "a continuar..." ou uma sequela, se se tratasse de um filme. Ficaram a pairar à roda dele os capítulos que não teve.
Duarte, o fulcro que alavanca as mini-narrativas dentro da narrativa maior anseia, tal como o leitor, por mais respostas.
Mas um autor que nos deixa a tecer a continuação da história e a procurar pormenores à la detective para que nada escape, tem mérito. Muito mérito, tratando-se duma estreia e de alguém que não vem da área das letras. E isto confirma-me que não precisamos passaporte para explorar o território literário.
Portanto, vou ignorar o capítulo do médico que gostava de Bach por não compreender a sua existência ( a não ser que haja um "a continuar..." ) e esquecerei a troca da amputação da perna esquerda para a direita na pintora (pág. 154 vs pág. 201) e no retrato (pág. 157 vs pág. 165).
Impressionaram-me o primeiro capítulo, o capítulo do "Holocausto", o da volta a Portugal em bicicleta ( também em que o avô morre ) e aquele inteiramente dedicado à mãe de Duarte.
A forma da escrita varia consoante o contexto ( familiar, militar, interrogatório criminal ) e às vezes consoante as características pessoais da personagem destacada no capítulo ( a mãe e o seu lado prático e objectivo, o pai e o stress pós-traumático, as cartas de Policarpo ). Também esta variedade tem mérito.
A curiosidade espreita o próximo livro de João Ricardo Pedro.
"O Teu Rosto Será o Último" é editado por Leya - 1ª edição Março 2012.
"(...) Os meus filhos já notam na sua geração que a estenografia comunicativa dos seus aparelhos começou a permear a própria comunicação: "as pessoas falam como nos sms".
Isto devia preocupar-nos. Quando as palavras perdem a sua integridade, assim sucede com as ideias que expressam. Se privilegiamos a expressão pessoal à convenção formal, então estamos a privatizar tanto a linguagem como fizemos com tudo o resto. "Quando eu uso uma palavra", disse o Humpty Dumpty, em tom bastante desdenhoso, "ela significa aquilo que eu escolho que signifique - nem mais nem menos. "A questão é", disse a Alice, "se consegues fazer as palavras significarem tantas coisas diferentes". Alice tinha razão: o resultado é a anarquia.
(...) A prosa de má qualidade revela insegurança intelectual: falamos e escrevemos mal porque não nos sentimos confiantes do que pensamos e estamos relutantes em afirmá-lo de forma inequívoca (...). Em vez de sofrermos logo à partida de "novilíngua", arriscamo-nos à ascensão da "não-língua". (...)"
Tony Judt, O Chalet da Memória - edições 70. Outubro 2011.

"My Shangri-la beneath the summer moon
I will return again
Sure as the dust that floats high in June
When moving through Kashmir"
Continuo às voltas com o que li. Não posso deixar de partilhar alguns excertos e talvez o faça assim aos pouquinhos como a saborear algo que não queremos que acabe.
Ainda sobre o desenho de Dürer:
"(...) Um esqueleto, minha querida, é a figuração mais ridícula da morte, foi talvez por isso que o pus aqui dentro . Para tratar a morte por tu, um esqueleto é tão engraçado. Mete medo às crianças. Tão cómico naquela geringonça articulada da ossaria. Mete medo ao infantilismo de nós naquela engenharia de mecano, a morte está antes ou para lá disso tudo (...). Olho-o (...) para aprender a desautorizar a morte, a gente valoriza-a tanto. Mas a importância dela está antes do esqueleto (...) está na vida (...) onde a vida é ainda visível (...). O macabro no seu ridículo é a negação da morte. (...) Nós pensamos que a vida acaba na morte, não é verdade, Mónica, acaba sempre mais cedo.(...)
Do desenho, o que mais me impressiona é talvez o chocalho do cavalo (...). O chocalho tem o badalo parado, está ali para aviso, mas ninguém o ouve."
"Em Nome da Terra", Vergílio Ferreira - pág. 222 e 223, cap. XX - 9ª ed, Bertrand.

Desenho de Albrecht Dürer
"_Jura-me que nunca hás-de envelhecer - disse-te.
_Juro.
_E que nunca hás-de morrer.
_Sim.
_E que a beleza estará sempre contigo. E a glória. E a paz.
_Juro
Então baixei-me ao rio e trouxe água nas mãos em concha. E derramei-ta na cabeça imensamente. E disse, e disse
_Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição."
Pensar a plenitude e a degradação do corpo, perceber o abismo entre este e a consciência, analisar sentimentos e laços familiares, reflectir sobre o divino e o comum, interpretar e transpor a morte. São diversas as dimensões do ser humano que Vergílio Ferreira explora ao escrever "Em Nome da Terra".
Quando João, personagem principal e narrador, a morar num lar de idosos, escolhe a sua memória por companhia dos longos dias, idealiza uma carta à sua mulher entretanto falecida e nela faz fluir a sua vida.
Na memória que preserva ( e constrói também ) de Mónica, projecta ideais, referências, vivências, objectos e pessoas que fizeram parte da sua relação e tudo isto dá o mote para a reflexão sobre a natureza humana em geral. João revela-nos também a sua própria degradação física, a importância do seu corpo na interpretação do real e do imaginado.
Profundo e sem eufemismos, este livro aborda o concreto e o filosófico sem que nenhuma destas naturezas se anule, desgaste ou canse porque são imensos e belos os recursos literários de Vergílio Ferreira.
Sobre o livro "Em Nome da Terra" de Vergílio Ferreira - 9ª edição, Bertrand.

Do arquivo fotográfico da Biblioteca de Arte - Fundação Calouste Gulbenkian.
Não me perguntem pelos caminhos que se percorrem na "world wide web", é que mesmo perdidos podemos encontrar assuntos interessantes. Quando no FLICKR THE COMMONS investigava Portugal sabia que me poderia cansar na caminhada. Mas eis a surpresa: depois de tantas fotografias de património material encontro Lucie de Souza-Cardoso com a sua longevidade ( 1890 - 1987 ) e sento-me na beira do caminho. Quis saber se o apelido era o do nosso pintor Amadeo de Souza-Cardoso e a rede devolveu-me a confirmação, Amadeo casou com uma jovem francesa de nome Lucie Meynardi Picetto em 1914.
Esta fotografia ( com data incerta entre 1914 e 1918 ) apanhou-me pela intimidade que escapa vaporosamente da atitude de Lucie. Entregue, descontraída, sensual. É, ao mesmo tempo, a dona do momento e a adivinhada vítima do artista atrás da câmara fotográfica.
Um mimo intemporal.