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Do blogue "Bibliotecário de Babel":
"Creio que é uma situação inédita. Na ficha técnica do romance Macau, do escritor francês Antoine Volodine, editado por estes dias pela Sextante (do grupo Porto Editora, que aplica com raras excepções o Acordo Ortográfico), pode ler-se: «Por decisão do autor, o presente livro não segue o novo Acordo Ortográfico.»
É certo que Volodine tem uma relação forte com Macau e com alguns portugueses que conheceu por lá, mas não deixa de ser extraordinário que um autor de língua francesa seja mais aguerrido na defesa das nossas consoantes mudas do que muitos escritores portugueses, indiferentes ou cúmplices perante as amputações e alterações absurdas à grafia da língua."
Eu ainda tenho esperança que o dito Acordo se volatilize.
"Say your prayers little one
Don't forget my son
To include everyone
I tuck you in
Warm within
Keep you free from sin
'Til the sandman he comes"
(...)
Do sítio da Fundação José Saramago:
"Após um primeiro arranque, a revista literária digital da Fundação José Saramago ressurge agora com o nome de Blimunda. Esta mudança, motivada por razões administrativas relacionadas com o registo do nome da publicação, levou a que o nome da mulher protagonista de Memorial do Convento, aquela que coleccionava vontades e que via o interior das pessoas, desse agora o nome e personalidade a este espaço electrónico que mantém os objectivos da Fundação José Saramago. Centrada em questões literárias, a Blimunda não perderá de vista os restantes princípios que orientam a Fundação, como a defesa do meio ambiente, a valorização da cultura portuguesa, literária e não só, e aqueles que estão plasmados na Carta Universal dos Direitos Humanos e na Carta de Deveres Humanos sobre a qual a Fundação está a trabalhar."
Para descarregar o nº 1 da Blimunda: aceder aqui.
Ilustração de Maria Keil no livro "O Verão é o tempo grande", texto de Maria Isabel César Anjo. Este é um dos livrinhos encontrados aqui, lembram-se?
Um título que faz parte da colecção Ler e Reler ( série Cisne Branco ) para o ensino primário da editora Sá da Costa Infantil. Os outros títulos são "A Primavera é o tempo a crescer", "O Outono é o tempo a envelhecer" e "O Inverno é o tempo velho".


Fotografia de Torradaemeiadeleite ( A Coruña ).

De novo na minha primeira escola encontro, prestes a assumirem outra natureza, dois livros infantis. O edifício materializar-se-á, ele próprio, em outra coisa brevemente, algo com menos de meias paredes, primeiro uma tortura para o olhar e depois para a alma.
As capas e as folhas rasgadas, outras à deriva fora deles mesmos, estão imersas no que outrora foi pó seco e depois misturado com chuva entrando de través pelas janelas abertas, os livros, quem diria. Trouxe-os assim mesmo.
Convenci-me que resgatava órfãos literários e também uma parte da minha memória, esta que mantém a estante com as portas de vidro no canto ao fundo da parede à direita de quem entra, a brevíssima biblioteca de que dispúnhamos para ir além dos montes e do castelo.
E reparo numa ironia: décadas mais tarde, a sala onde aprendi a ler e a escrever é um espaço de desamor aos livros.
Postos abandonados e letras ao rés da invisibilidade, oh! Aquilino Ribeiro e Maria Isabel César Anjo e os ilustradores Luís Filipe de Abreu e Maria Keil. Misturados com madeira apodrecida, cal esboroada das paredes, formas poliédricas amassadas, a tampa da caixa dos carimbos e a tampa partida da almofada dos carimbos ( animais, objectos e horas que aprendi a escrever ), papéis rasgados debotados, os esforços de aprendizagem em fichas avaliadas e dispersas. Como se a sala de aula se amalgamasse e resumisse num monte amorfo de matérias em decomposição.
O modesto recheio da escola deveria ter sido salvaguardado e preservado muito para além do seu tempo útil. De alguma forma a memória dos que ali ensinaram e aprenderam e a dos pais e avós que ajudaram a colmatar falhas de conforto e de aprovisionamento haveria de ser honrada. Sem vandalismo, sem abandono, sem desprimor.
O lugar onde antes vibrava a ladainha da tabuada e das serras e o texto que tacteava sentido e ritmo, dá agora volume à minha indignação e agride os meus sentidos.
Tenho visto mais escolas abandonadas com as portas escancaradas e as janelas partidas. Não sei se lá dentro também se esqueceram dos livros. Só não entendo por que as transições assumem, às vezes, a semelhança dum insulto ao passado duma comunidade, aos seus esforços, às suas crianças. Entendo ainda menos que nasça da própria comunidade ou que não seja por ela mitigada.
Volto quase ao princípio, à "História do Joli cão francês que boa caçada fez" e ao "O Verão é o tempo grande", que roubei à sala para não perderem a capacidade de perdoar. Perdoar a quem não fez melhor porque não sabia nem estava avisado.
Livros que agora são um símbolo de resistência, de infância, de Natureza. São sobretudo guardiões dos dias bons, os que eu prefiro lembrar da minha primeira escola.
Instincts that can still betray us,
A journey that leads to the sun,
Soulless and bent on destruction,
A struggle between right and wrong.
You take my place in the showdown,
I'll observe with a pitiful eye,
I'd humbly ask for forgiveness,
A request well beyond you and I.
Heart and soul, one will burn.
Heart and soul, one will burn.
An abyss that laughs at creation,
A circus complete with all fools,
Foundations that lasted the ages,
Then ripped apart at their roots.
Beyond all this good is the terror,
The grip of a mercenary hand,
When savagery turns all good reason,
There's no turning back, no last stand.
Joy Division - Heart and Soul (1980).

Fotografia da agência Getty.
O ponto de partida para este texto foi um apartamento em Paris fechado durante setenta anos. A sua proprietária partira para o Sul de França antes da segunda Guerra Mundial, continuou a pagar a renda mas não mais entrou naquele espaço. A senhora de Florian faleceu em 2010 com 91 anos. Na altura do inventário do seu património abriram finalmente a porta e o inesperado aconteceu.
Nem pó, nem aranhas conseguiram retirar a beleza das peças do seu recheio, fossem utilitárias ou da própria construção, de finais do séc XIX e princípios do XX, e ainda dum quadro leiloado mais tarde por mais de 2 milhões de euros.
Pronto, esqueço o quadro.
Imagino-me apenas a entrar num espaço preservado com a impressão digital duma era mais antiga, todos os detalhes da sua vivência impecavelmente funcionais e inteiros, peças que já não se encontram, livros, móveis, brinquedos, a lata das bolachas ou a faca do pão. Que festa. Que desejo materialista e excepcional de tudo possuir. Que inspiração.
Fiquei colada à notícia que chegou com dois anos de atraso ao meu conhecimento através do blogue Pó dos Livros. Daqui fui para ali, dali fui mais acolá e cheguei à avó da senhora do apartamento, a actriz Marthe de Florian nascida cem anos antes da nossa Revolução de Abril. Nos seus admiradores encontravam-se Georges Clemenceau, primeiro ministro de França entre 1906 e 1909 ( e num 2º mandato de 1917 a 1920 ) e o pintor Giovanni Boldini, responsável pelo retrato milionário. No quadro de 1898 a avó de Florian tinha 24 anos. Mais de cem anos depois continua a hipnotizar os incautos homens, desta vez o comprador do quadro.

Marthe de Florian - Giovanni Boldini.
Não recordo já como se pintou o dia 30 de Maio de 2007, se estava sol ou chuva, quente ou fresco. Não recordo as notícias, nem como foi o meu dia de trabalho ou o que conversei. Não recordo se o meu filho fez birra para comer. O único facto que lembro desse dia é que publiquei o primeiro texto do Torrada. Não imaginava que a seguir viriam momentos recompensadores, o escape das tensões diárias e a procura de outros saberes noutras esferas de conhecimento. Imaginava só um espaço para explorar letras e frases.
O ritmo de publicação foi sempre inconstante, de acordo com os humores e com a descontracção de poder fazer como me apetecia, sem contratos ou obrigações ( e neste detalhe estava parte da minha "terapia" ).
Cinco anos que já valem por si mesmos, por esta natureza diferente e complementar. Não teço desejos para os próximos tempos, o que será, será.
A liberdade que vem do facto de não ter nada a perder e ainda tudo poder esperar foi o maior presente que este blogue me deu.

Castro Laboreiro. Fotografia de Torradaemeiadeleite, Maio 2012.