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Jogos Olímpicos de 1976, Montreal. Uma nova era começava na ginástica artística. Nadia Comaneci, romena, tornou inolvidáveis os Jogos que pareciam comprometidos à partida pelo boicote das nações africanas. Num tempo em que nem as máquinas de pontuação estavam preparadas para o dez perfeito, a jovem atleta de catorze anos conseguiu a proeza sete vezes.

Imagem googlada.

O espírito de itinerância dos livros tem vindo a renascer no nosso país, um espírito que já tem corpo desde 1996 ( Guimarães, Mirandela e Arcos de Valdevez ) sendo actualmente setenta e uma as unidades móveis registadas no Directório das Bibliotecas Itinerantes. São, na sua maioria, um serviço veiculado pelas bibliotecas fixas municipais, variando a sua distribuição nos vários distritos.
Entreter, formar e informar continuam a ser as suas prioridades mas hoje em dia conhecem novas valências: são um pólo agregador da comunidade que as recebe porque cria um tempo de comunhão pelo lazer, são muitas vezes o veículo dinamizador de actividades extraordinárias em centros de dia, lares de idosos, escolas e facilitam ainda o acesso a novas tecnologias ( muitas estão equipadas com computador e ligação à internet ).
A personalidade do bibliotecário ambulante é claramente indissociável desta natureza múltipla, a meu ver cada vez mais necessária. Não é só no acesso aos livros que a sua figura é determinante, o lado humanizador e social que poderá veicular é o ingrediente secreto numa receita para a fidelização, assiduidade e motivação dos seus utentes.
A atenção ao leitor, diferenciada e personalizada, é uma das vantagens que a biblioteca sobre rodas apresenta em relação aos grandes espaços fixos de acesso a livros. Pelo conhecimento do meio onde circula, dos interesses, das actividades e inclusive dos laços familiares daqueles com quem se cruza, pode suprir com maior eficácia as necessidades culturais dos cidadãos. É a partir desta directiva que crescem depois as restantes facetas que vão para além do incentivo à leitura e que ajudam a aproximar gerações e a quebrar a mudez dos dias de quantos se sentem sós.
As bibliotecas devem continuar a adaptar-se às alterações dos padrões sociais e familiares que mudaram o rosto das aldeias e pequenas vilas portuguesas. O isolamento, e não me refiro ao geográfico, é cada vez maior e os livros itinerantes continuam a ser uma ferramenta de inclusão.
Fotografia: Nuno Marçal - Biblioteca Itinerante de Proença-a-Nova.

Quando a leitura e a educação cultural pela leitura não eram desígnios estatais e esclarecer os cidadãos era perigoso para os governantes, a Fundação Calouste Gulbenkian desenvolveu um projecto, ainda hoje exemplar, para universalizar o acesso ao livro e promover a leitura. Se ainda hoje há diferenças marcantes entre Litoral e Interior, Continente e Ilhas, há mais de cinquenta anos essas linhas pareciam impressionantes abismos.
Em 1958 estreava-se o Serviço de Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian cuja imagem de marca eram as carrinhas Citroën HY. Nas suas prateleiras acomodavam-se inicialmente livros de literatura geral para crianças, adolescentes e adultos, livros de assuntos técnicos e livros de História. As escolhas bibliográficas não eram fortuitas, eram pensadas para abranger vários tipos de público e respectivas diferenças de idade.
O livro era um bem material inacessível a grande parte da população portuguesa, a taxa de analfabetismo na década de cinquenta do século passado ultrapassava os 40% e os acessos entre localidades eram diminutos. As carrinhas Citroën ofereciam literalmente a oportunidade de ler àqueles leitores deslocados dos centros urbanos, com poucas horas de lazer e sem meios económicos para comprar livros. Aos que não sabiam ler era dada a oportunidade de ouvir leituras partilhadas. O empréstimo gratuito do acervo bibliográfico das bibliotecas itinerantes depressa se notabilizou e deixou inclusive muitas saudades quando em 1987 ( ano em que o Programa Nacional de Leitura Pública deu os primeiros passos ) o número de unidades em circulação decaiu abruptamente, extinguindo-se o serviço definitivamente em 2002.
Em cerca de trinta anos muitos foram aqueles que iniciaram as suas caminhadas literárias influenciados pelos livros itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Quantos prazeres, quantas escolhas profissionais, quantos horizontes e quantas dúvidas ( sim, porque a dúvida e a pergunta impelem o nosso conhecimento ) terão ganhado asas em cada dia que a biblioteca rolante estacionou no largo da aldeia, na praça da vila, na rua da cidade.
A universalidade nasce também assim, de gestos luminosos em tempos de escuridão.
A fotografia que apresento foi "apanhada" em pesquisa no Google e desconheço o seu autor. Um pequeno tesouro.

Fotografia googlada. 1958.

Uma página de literatura infantil encontrada aqui e ajudada pelas armas modernas de tratamento de imagem.
Só um grande mestre escreve assim para a infância, sem substimar a inteligência do pequeno leitor, divertindo-o com comparações inusitadas ( "com umas ventas feias de cabo da esquadra", "velha com pêlos na cara que pareciam anzóis",... ) e apresentando-lhe danças de palavras como esta na conversa entre o cão Joli e o galo:
"-Bau-bau-bau! Au-au!!
-Apanhaste com um calhau?... já não é a primeira vez que tal me sucede.
-Bau-bau-bau!
-Se tenho berimbau... Não; requinta.
Não se entendiam. O galo podia lá compreender a língua daquele feio bicho?! E em sinal de largueza, sarcástico e heróico ao mesmo tempo, jogou ao cão pató e ao galo inimigo, noitibó, um vibrantíssimo cocoricó."
Um texto surpreendente.