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A praça chama-se de Lisboa mas o seu novo rosto inclui o Passeio dos Clérigos, uma rua nova com a Igreja dos Clérigos num extremo e a Livraria Lello no outro. De permeio cafés, lojas e restaurantes, olhares curiosos e a promessa dum comércio aberto à envolvência.
Conheci este espaço antes da remodelação, o comércio fechado sobre si mesmo, o parque de estacionamento lúgubre e por fim o abandono total. Concluo que o histórico Parque das Oliveiras renasceu, resgatado ao passado da cidade com um projecto pensado para valorizar os edifícios envolventes, tornar o espaço mais permeável e o ar mais respirável. Parece-me conseguido. O que antes repelia é agora atractivo e funcional. Na parte mais alta são protagonistas as oliveiras ( algumas centenárias ) e os passos de quem aqui se demorar em passeio, fotografia, leitura e conversas.
Agora o intróito visual mas nada como ir lá e averiguar pessoalmente.

Passeio dos Clérigos, Out. 2012. Fotografia de Torradaemeiadeleite.

Sempre que morre o corpo dum ser literário suspiro também pelas frases que ficam por nascer, pela beleza que ficará informe na poeira do nada. Continua eterna porém a alma do que deixou construído e é nessa beleza que me aninho em conforto.
A surpresa da morte de Manuel António Pina aquietada com as palavras que deixou na entrevista para a LER de Janeiro último.
Realização: Valéria Sarmiento
Argumento: Carlos Saboga
Produção: Paulo Branco



Nestes dias mandam as letras manuscritas, minúsculas e maiúsculas, acompanhadas de números desenhados com cuidado sobre o tracejado para apanhar as curvas certas e perceber as mudanças bruscas de direcção. O contra-senso mais belo da aprendizagem: tudo treinado, repetido, emendado, aperfeiçoado até parecer espontâneo, inato, sem esforço.
Lápis a ferir o papel, traços carregados, carvão prestes a incandescer, a língua exilada ao canto da boca, os "oi", "ui", "oh" desabafados à vista do erro, "olha agora, mamã" e mais uma linha de iis. A borracha tortura a folha após as tentativas falhadas, é preciso refazer tudo até ficar com identidade própria e inteligível. Verifico os pequenos detalhes que distinguem uma "a" dum "o", as linhas mais rebuscadas para os rrs e as ondas dum mar imaginário que banham os uus, os traços que ficam em cima da linha e os que podem descer dela como raízes fortes. Já não me lembrava que era assim.
Sinto-me privilegiada porque penso nos que foram privados de tal oportunidade ( e são de natureza diversa as razões de tal impedimento ): assisto à evolução da aprendizagem do meu filho, à aquisição das ferramentas que lhe permitirão reconhecer as mais belas construções com letras ( e números, mas perdoo-me a preferência ). Reflicto sobre os processos que permitem ao cérebro reconhecer códigos, fazer associações e estabelecer padrões, memorizá-los e reproduzi-los depois sem ajuda da cópia. No fim parece tão simples, mas sei que não é assim.
Mas como desses assuntos o petiz não suspeita sequer, cabe-me gerir os pequenos impasses, explicar-lhe que o erro faz parte da aprendizagem e conter as suas expectativas quando conclui que três semanas de algumas letras exaustivamente repetidas já deviam ser mais que suficientes para saber ler as suas histórias.
Segue a caminhada, amparada e vigilante. Que o entusiasmo não esmoreça.


Fotografia de Torradaemeiadeleite.
Serralves é por nós acarinhado há já muitos anos. Neste Domingo, ofereceu os seus jardins à Festa do Outono. Esta Fundação faz questão de abrir os seus domínios aos cidadãos e ao longo do ano multiplicam-se as iniciativas que engrandecem uma das suas missões - a democratização da cultura.
Fomos espreitar as exposições, a música ao vivo, o cirandar das famílias por entre as diferentes oficinas e atracções. De quase tudo houve registo e mais uma vez se sentiu aquele abraço aos mais novos que Serralves alimenta há muito.
Pormenorizo uma casualidade. Num grupinho amontoado à volta duma artista que improvisava chapéus com material reciclado, fixei-me num pequeno gira-discos vermelho. A música preenchia os espaços que os comentários e o zum-zum dos petizes deixavam ainda disponíveis. Na atmosfera que ajudava a criar, destacaram-se palavras francesas unidas em melodiosa pauta vintage. E entra aqui a mais-valia da geração maior - à medida que nos íamos afastando do local, comentou o meu pai "olha qu'este parecia o Moustaki", "quem?", "o Moustaki, o Georges Moustaki, olha ( pausa a ouvir a letra ) é mesmo o da gueule métèque", "ui" ( pensei ), "é do meu tempo, tinha umas barbas e cabelo comprido". E ficou por ali este intróito, já a atenção se desviava para outros caminhos. Ficou por aí até chegarmos a casa, quando revi as fotografias e me reencontrei com aquele tempo das capas de vinis e penteados afro a prometer coisas dos U.S.A. O Philips vermelho-olha-para-mim mirava-me. Pousada na mesa estava uma capa do artista que, agora sei, era o Moustaki. Para o ouvirmos de novo, meti-me no "Tubo" e confirmei as barbas e o cabelo comprido num vídeo de 1969 e meias cor-de-rosa ( os pormenores, os pormenores ). Afinadas, as notas dum auto-retrato:
Avec ma gueule de métèque
De Juif errant, de pâtre grec
Et mes cheveux aux quatre vents
Avec mes yeux tout délavés
Qui me donnent l'air de rêver
Moi qui ne rêve plus souvent
Desta experiência extemporânea retive este facto que, não fosse o meu pai ser "de outro tempo", a tarde em Serralves não teria valido metade do que valeu.