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E o tempo que espere

por Torradaemeiadeleite, em 29.01.15

 Fotograma do filme "Inception" ( Cristopher Nolan, 2010 ).

 

Se eu pudesse, dizia ao tempo para me esperar à porta de carvalho carcomido que chispa pelas frinchas tortas os últimos veios de luz, aquela mesmo ao cimo das escaleiras. Que se abrigasse como pudesse para não apanhar frio, porque a entrada da casa é muito combatida de vento e de chuva. Ficasse ali parado, quase a bater os dentes espaçados e gastos, agarrado ao capote como à vontade de fugir dali porque paciência para esperar é qualidade que o tempo não tem.
Eu entraria de novo, mansamente consciente de inaudita proeza, venceria a soleira da porta para penetrar na luz mortiça da lâmpada, uma só no imenso tecto negro. A lâmpada amarela como os sorrisos descuidados e como os esgares dos que passavam a espreitar os modos da casa, congratulando-se com a miséria que entretida ali não os  atrapalhava.
A luz sedenta de brilho, mas a definhar por anos acanhados de vontade e de querer. Mortiça a morrer uma morte suspensa. Quem dera que viesse logo pronta essa imagem da inevitabilidade, que sem mais agonia viesse terminar o puído viver - e não, não sou eu que o peço, eu entro e sento-me. Deixei a cerimónia lá fora, a fazer companhia ao tempo, talvez lhe ensine alguns modos.

Estão todos ocupados nas suas tarefas e não me olham. Cheira a lenha queimada e a pêlo de cão molhado - ah, não, deixa-o estar, ainda não é hora de recolher e o calor faz-lhe bem, também merece conforto e paz. Este cão andou tanto, defendeu muito, desde nascido cá por casa, bem merece amparo na sua velhice fria - quem diz que não é como nós, gente, se até no modo de suspender as urgências se nos assemelha?

Sobe o odor da gordura frita, estala e restala até todos nos habituarmos ao fartum, que já não incomoda como quando se entra do fresco do caminho.

E só agora fixo-me na janela, aberta para o fumo escapar, vendo esse corpo vaporoso sumir-se na sonoite. Não sabem como me encanta ainda o recorte dos vultos rotinando de canto em canto, sem questionar os porquês de fazer assim, e assim, e nunca de outro modo. Recortados, digo, na claridade tolhida que rompe pela chaminé improvisada, a despedir este dia que só agora deixou a confirmação de que afinal havia sol lá em cima, apesar das nuvens durante todo o santo dia, a chover sem descanso e sem descanso a modorrar estas almas. A janela com o horizonte de pedra para ser galgado, o imenso espaço que só na geometria da ventana é mínimo, porque infinito seria se houvesse desejo de o perscrutar e transpor. Mas, aqui, toda a vontade cessou já. Nem eu ainda cumpro essa viagem, falta-me a coragem. Vim só para perscrutar-lhe o princípio, lembrar-me do primeiro centímetro. Demoro-me e repito-me, apanho o ar da janela e das frinchas da porta de carvalho carcomido. O tempo e a cerimónia lá fora. 

Esperamos.

 

 

 

 

Lugares para ler X

por Torradaemeiadeleite, em 28.01.15

 

 

Cicatriz granítica

Fotografia de Torradaemeiadeleite.





 

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Elogio do gelo

por Torradaemeiadeleite, em 17.01.15

 

 

 

Gelo

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

 

 

 

Ceci n'est pas la fin du monde

por Torradaemeiadeleite, em 13.01.15

 

 

Angelus Novus de Paul Klee

 "Angelus Novus" de Paul Klee.

 

 

Benjamin Walter, sobre este quadro:
"Há um quadro de Klee que se chama Angelus Novus. Representa um anjo que parece querer afastar-se de algo que ele encara fixamente. Seus olhos estão escancarados, sua boca dilatada, suas asas abertas. (...) Ele gostaria de deter-se para acordar os mortos e juntar os fragmentos. Mas uma tempestade sopra do paraíso e prende-se em suas asas com tanta força que ele não pode mais fechá-las. Essa tempestade o impele irresistivelmente para o futuro, ao qual ele vira as costas, enquanto o amontoado de ruínas cresce até o céu. (...)"

in "Teses Sobre o Conceito de História"





A clareira servirá. O espaço é apelativo e permeável.
Das árvores que a delimitam nem a cinza das raízes sobrará. Ao menos dois esqueletos enegrecidos, os mais obdurados, de pé, mesmo que lugubremente memoriais, seriam o sinal da possibilidade de algum futuro, só que nem memória restará.
Não conheceremos o que os originou, mas haverá movimentos dissonantes num segundo e, no segundo seguinte, a luz será diferente - é forçoso que seja, depois de uma tragédia nascer. É breve a linha para a alteridade.

Para já, prepara-se a mente. As formas pequenas, outras aos pares, umas solitárias, algumas patas pela trela, jogam bola, sentam-se, correm. Todas presentes e pulsáteis até à distância. Outras nem parecem pertencer à gravidade. É Inverno e por isto a clareira poderia perder propriedades, todavia, é Inverno e por isto ela ganha protagonismo. Uma tarde destas, limpa, num lugar sem caos sensorial, apura o que nela existe e aproxima-nos das essências. Eis as matérias perecíveis, sensíveis, fulgurantes enquanto morrem, e o espaço em volta que se sublevará. O acaso é o único corpo presente desde sempre e é aquele que continuará depois de tudo e de todos.
Por ser um pequeno texto impressionista, as matérias estão aqui como pontilhados de cor que perfuram ou interrompem o corpo antigo e lhe dão expressão. O movimento de umas e o dele revela-se plural na reflexão da luz que inflama e alucina a percepção. A atenção irradia dos contornos esbatidos, nenhuma sombra é negra, nenhum bem encontra aqui o seu mal.
Como se descreve o instante em que tudo deixa de ser?
Não sabemos, mas primeiro, ouve-se um silvo agudo que vem de toda a parte, e arrasta e empurra e corta e ensurdece. A surdez dói e leva as mãos à cabeça. Depois, o Sol passa a ocupar o céu inteiro, não tem caminho para seguir e agride e ferve e esfola e cega. O brilho súpito não deixa perceber, num vislumbre ao menos, os limites da terra e do ar, nem a importância do olhar que avisa e prepara. A cegueira paralisou, chorou, uiva toda a incompreensão da sorte e todas as formas são obrigadas a abandonar a expressão do corpo maior. A ordem cai de joelhos e põe em garra as mãos no chão. Uma força  varre o ar e dissolve em si todas as colisões e todos os abraços. O ar queima. Mais nada.
Quem sobreviver ao instante em que tudo deixa de ser, que discorra das impressões que possam ficar ainda.

Só duas certezas se perfilam no segundo em que o pensamento ainda o é: que a clareira deixará de servir e que um Sol caído por terra não faz mais que soluçar de morte.






 

 

Porque é mais o que nos une do que aquilo que nos separa

por Torradaemeiadeleite, em 10.01.15

 

 

 

DSC_6297

Fotografia de Torradaemeiadeleite.

 

 

 

 

A propósito dos dias que passam.

Mandana Sadat é uma ilustradora francesa de origem iraniana.
Revisitei o seu livro "O Jardim de Babaï" ( Bruaá edit, 2013 ), um livro bilingue com uma proposta de leitura diferente. A história pode ser lida também do fim para o início, ao modo da linguagem persa. Assim, o início do conto em português corresponde ao fim do conto em persa e vice-versa.
Independentemente da linguagem, a história é a mesma, a sua lição universal.

Acrescento: sabemos que a caminhada milenar do mundo se faz nos dois sentidos, memória e esperança. E em cada final estará sempre contida uma forma de recomeço.

 

 

 

 

 

 

Geografia ao redor de mim mesmo

por Torradaemeiadeleite, em 07.01.15

 

 

 

 

Autoportrait_tournant_Nadar_c.1865[1]

Autoportrait Tournant - Félix Nadar, 1865.

 

 



Li um livro de Geografia e presumi que fosse um livro de metáforas.
Das generalidades às particularidades, da memória Láctea à composição do planeta, em cada folha vi a demarcação dos territórios, os rios, as cordilheiras e as ilhas, mas dizendo os nomes oficiais, penso-os como territórios de sensações sempre rodeados de algo que poderá ser água, terra, fogo ou ar.
Erupções e avalanches, terramotos e furacões revolvem os estratos da ( quase ) esférica vida que flutua no rendilhado negro das poeiras. E penso-os também nos lares confinados e no indivíduo. Tudo servido em camadas, em depósitos e na erosão da experiência que nos vai morrendo e nascendo, formada milenarmente ou à força bruta em nano-instantes.

Reconheço nas ilustrações as origens das viagens de autor ao núcleo inacessível, das aventuras assumidas como ficções. Núcleo. Inacessível. E percebe-se que esta busca se cumpre com caminhos mais despercebidos do que os da narrativa, andados discretamente, na maior parte das vezes solitariamente, até a esses âmagos sempre novos e sempre únicos porque não há linguagem que consiga defini-los inteiramente e, assim, o velho parece sempre novo.
Reporto-me ao âmago da terra, como ao interior de nós mesmos. Está tudo ligado entre si e tudo ligado àquele livro de Geografia de capas cosidas com linha preta, grossa, que a primeira lombada já se foi há muito, mas há teimosia brava no querer guardá-lo. Percorro-o com cuidado de folhas rasgadas, sigo em busca da terra, do horizonte e do céu.

Esta é uma enquete interior para perceber se a partir de cá consigo finalmente saber o que fazer aí fora. Como na geografia, as explicações para o que se vê não se estendem na superfície e viajo ao centro de mim - preciso de mais imaginação do que a que Verne, num significado mais imediato de viagem, e outros para os outros significados do termo, capazmente traduziram em palavras, ficcionadas até prova em contrário.
Pergunto pelas cruzadas que esqueci atrás da curva. Em que parte da estrada ficou a certeza? Qual foi o instante em que abandonei na rajada do vento o estandarte da confiança, pueril talvez, mas ainda assim uma confiança no devir? Fronteiras, ventos e desertos, eis algumas palavras na ponta dum fio com livro de territórios metafóricos no outro extremo, e mais estas, magma, abismo.
Não, tropeço no que escrevo ( para algo tinha que servir isto ) e reconheço que o que procuro, com esta relíquia nas mãos, não são as cruzadas perdidas, nem as bandeiras rasgadas na intempérie dos dias. Procuro o que tem de vir a seguir, melhor, procuro a assumpção da geografia que está ainda por traçar no livro mas que já é por mim vislumbrada. E a saída deste interior em que me enredo e demoro, também.
Um lampejo de algo que não sei se é lucidez, pode ser uma ausência de lirismo, mostra-me que, se eu ficar aqui tempo demais, arrisco perder-me cá dentro. Perco-me primeiro no avesso para, logo depois, perder-me no que está para lá da minha pele.

Li há pouco o que escreveu o poeta Pessoa, "dói-me a vida aos poucos, a goles, por interstícios. Tudo isto está impresso em tipo muito pequeno num livro com a brochura a descoser-se".




Vai aonde o lobo te levar

por Torradaemeiadeleite, em 07.01.15

 

 

 

Pegadas

Fotografia de Torradaemeiadeleite - Dezembro de 2014.




 

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