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Era uma vez, na Eurásia...

por Torradaemeiadeleite, em 28.11.08

 

 

Reconstituição de menino Neandertal. Foto de Ph. Plailly / Atelier Daynes, 2008.

 

O nosso passado biológico vai sendo conhecido através de retalhos e descobertas desencontradas no tempo e no espaço, com as quais tentamos estabelecer um fio condutor, um caminho evolutivo lógico e a razão palpável para ser o que somos.

Quanto mais descobrimos, tantas vezes acidentalmente, mais questionamos e a medida do nosso conhecimento deveria encontrar a mesma medida de humildade... Afinal, somos jovens, muito jovens nesta Terra e já outras espécies provaram a sua adaptação ao longo de milhares de anos às transformações do planeta, persistindo com sucesso... E nós? O que teremos ainda de enfrentar?

Uma questão, de entre muitas sobre a nossa evolução, tem a ver com os nossos parentes desaparecidos. É com estes que nos entusiasmamos pois  eles podem revelar a parte do caminho  percorrido que é menos iluminada e que nos ajuda a perceber de onde vimos.

Um dos parentescos responsável por muitas voltas ao cérebro dos paleoantropólogos é o Homem de Neandertal.

Só há mais ou menos 150 anos, com provas encontradas no vale de Neander ( a cerca de 13 km de Düsseldorf ) é que percebemos que não fomos o primeiro tipo de humanos a habitar o território que agora se chama Europa. Outros se anteciparam, muitos, mas muitos anos antes,  seres com várias características humanas  mas com outras tão próprias. Confrontámo-nos, assim, com  a nossa chegada tardia, emigrados de África, a um espaço já ocupado e explorado por primos robustos e adaptados a outras altitudes, que faziam fogueiras, caçavam animais de grande porte e se movimentavam no território ao sabor das estações,  eventualmente  mirando-nos com estranheza. 

Este ano, com a ajuda de descobertas em El Sidrón, nas Astúrias,  acrescentaram-se dados aos retalhos que já existiam e  reconhecemos que os nossos primos Neandertais possuíam genes relacionados com a fala , com a cor ruiva dos cabelos e com a pele branca, eventualmente até sardenta. Parece pouco mas é  relevante se nos lembrarmos do estereótipo "feios, brutos e maus" que tão secularmente lhe associámos.

O facto de ter um gene associado à fala, ainda que em moldes diferentes da  nossa espécie, delega mais capacidade intelectual aos seus cérebros, confere-lhes a possibilidade de terem tido mais relações sociais do que se supunha e torna o Homo sapiens sapiens  menos singular do que julgávamos, não será?

Achados anteriores a estes revelaram que também eles ritualizavam a morte,   mostrando-os  mais  emocionais  aos  nossos  olhos e que a sua capacidade para fazer instrumentos pode afinal ter sido subestimada. 

Outras provas sugerem  uma interacção cultural com os  antepassados directos do homem moderno e até cruzamento genético entre as duas espécies, mas seria necessário encontrar mais  dados para tornarem provada essa teoria.

Afinal, sabemos pouco sobre os Neandertais, mas aprendemos que não podemos menosprezar a sua história, e esta torna-se cada vez mais interessante à medida que vão surgindo achados que rompem com o estabelecido previamente.

O acaso poderá expor outras descobertas, mais peças dum puzzle que sempre achei apaixonante  e que estão espalhadas pelo planeta, escondidas ou nem tanto... O nosso raciocínio poderá também perscrutar imensas hipóteses, desde que nos libertemos de preconceitos e rótulos e nos reconheçamos humildemente como mais uma espécie em vez  dos "todo-poderosos" da biologia, aqueles que têm de percorrer um caminho completamente à parte dos outros seres...

 

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