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Sobre um fundo de quase Outono

por Torradaemeiadeleite, em 15.04.12

As fotos "oficiais" que tenho respiram a solenidade do estúdio fotográfico e das manobras que o fotógrafo encetava para a dignidade do registo. Figuras estáticas contra cenas pintadas de natureza, jardins apalaçados ou ainda breves composições com pequenas floreiras e cadeiras escultóricas. Os corpos compostos à espera do passarinho e descompostos assim que se desistia de o ver.

Mas é sobre o cenário em fundo de uma delas que vos vou escrever. Nesse tempo, no estúdio que hoje me inspirou, reinava um bucólico fundo de Outono, ou quase Outono porque as árvores mantinham as folhas verdes miudinhas viçosas  mas quase todo o espaço à sua volta era de vários tons de castanho esfumado e assim  imprimi na minha memória aquela meia-estação. Não deve existir casa no município que não tenha fotografia com fundo de tons outonais daquele bosque de parte incerta onde ficávamos entre árvores emolduradas por céu um pouco azul, muito castanho e branco ainda pelo meio, as nuvens talvez.

Nunca me pareceu, disso tenho certeza, mata portuguesa e eu gostava mesmo daquele "exotismo".

O cadeirão de vime entrançado com costas em arco generoso, desenhos retorcidos, muito da moda, também fazia parte da composição quando era preciso distribuir vários figurinos na mesma fotografia ou ainda quando um recém-nascido se apresentava pela primeira vez ao pai emigrado, com anteparo de almofada grande e fofa, o olhar preso à luz da máquina habilmente oportuna ( Verão ou Inverno, com eterno Outono ao fundo, nasci para ti ).

As caras ou as poses mais fotogénicas tinham direito a figurar na montra do pequeno estúdio ou então aquelas que assertavam as qualidades singulares do fotógrafo experimentado. De facto, era honroso destacar-se alguém por entre tantos iguais Outonos, quase Outonos, mais ainda na vizinhança de baptizados e casamentos com caras pomposamente adequadas à ocasião. Era também nesta montra que eu demorava algumas vezes e sempre gostei de ver aquelas fotografias com fundo quase Outono, mesmo de pessoas desconhecidas, pelas razões imaginadas ou comprovadas para ali terem ido fotografar-se.

E via que posavam as moças solteiras ( para mandar a foto ao namorado secreto? ), aprumadas e bem penteadas, cabelo solto em eterno feminino, ah Rapunzel de olhos doces, sorriso acanhado, em sedução camuflada ou inocência enlevada ( Verão e Inverno esperarei por ti e  com o Outono por testemunha saberás que penso em ti ).

Voltava meses ou anos mais tarde a mesma moça para posar, já com o seu bem esperado, ou então poderia ser outro que não aquele para quem ultimamente posara, mas tudo o tempo compõe e o tempo é feito de mudança, vamos fotografar o namoro que depois nos casamos e a próxima será uma nova andança.

Verão ou Inverno, com eterno Outono ao fundo, a vida era geminada nas fitas dos negativos, mostrada aos vindouros e emoldurada solene sobre o móvel da sala ou na parede do quarto.

Os anos passavam afinal e aquela estação continuava presente na montra, destronada só às vezes pelos que tinham a certeza de merecerem ser diferentes e exigiam um fundo de fotografia mais raro.

Noutros estúdios outras estações estacionaram, outros gestos gesticularam, outros flashes flasharam e muitos passarinhos foram mesmo vistos e voados. Mas escrevo-vos agora que todos vinham depois bater asas para estas ramagens de Outono ou quase Outono de paragem incerta, naquele estúdio agora fechado, poisavam entre as folhas verdes viçosas em animada chinfrineira, perscrutavam o céu castanho, posavam com muitos dos meus conhecidos nas suas fotos oficiais e serenavam por fim naquela ingenuidade bucólica. Ficaram para sempre nos lares daquele interior minhoto.

 


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