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Até amanhã, Sarah

por Torradaemeiadeleite, em 28.10.14

 

 

 

Nadar_a[1]

Sarah Bernhardt fotografada por Félix Nadar.

 

 

 

Até amanhã.

Quando o tempo forçou e rasgou o fio da vontade, recolhi a mim. Eis-me dentro de mim, onde tudo entretanto terminou e onde, já sei, recomeçará sem que eu queira impedi-lo.

Mas colhi o que deixaste escapar na ebriedade dos sentidos. Sem mais provas, recolhi e guardei. Surpreendi-te à beira do verbo, mas tu, já refeita daqueles instantes, parecias não ter memória ou paixão. Tudo à nossa volta num espanto quieto e sustido, quando tudo deveria ser a um tempo fundação e fim. Absoluto, incorrupto.

Até lá, e fora dos dias comuns e das razões universais, eu só, e os estilhaços da destruição inerente ao nascimento da verdade. O parto difícil, para corajosos apenas. Eu só e a destruição de algo, os alicerces sucumbidos e estas ocasiões em que  reconstruir a partir do nada é mais fácil do que remodelar ou remendar. Reconstruirei então a partir do nada, uma e outra vez, até lá e sem lamentos.

À margem dos escombros restituis-te a pele que te assenta tão bem e tão conforme, é feita de ar respirado sem assombro, a pele para uma escrita breve de todos os dias, sem demora mas onde antes se agigantou a gramática que só um fogo marca perenemente, um fogo alumbrando de uma só vez toda a treva, um fogo de ferida dorida que ignoras ou escolhes sublimar. Por força doerá rompendo sempre da mesma forma, brutal e violento, por força doerá essa ferida de fogo para teres certeza que estás viva.

Até amanhã.

Fico com esse fogo que jaz em ti por dias infindos, aquiescido não sei como, numa permanência velada, tão velada, que só escapa do teu centro quando queres e te entregas para consumir tudo o que te tocar. Guardo-o porque é a única razão que me traz de volta a ti, mesmo quando te vejo refeita e alheia, e tudo à nossa volta num espanto quieto e sustido. Guardo-o porque é por ele que tudo renasce em nós.

 

 

 








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